ENTREVISTAS
Uri Caine
Nos ombros dos gigantes
· 03 Out 2012 · 00:24 ·
Uri Caine é um dos maiores pianistas da actualidade e ao mesmo tempo um dos mais controversos. Entre o jazz e a música clássica, entre a composição e a improvisação, o norte-americano tem vindo a construir uma carreira de destaque nas últimas décadas, cimentando e a sua posição de destaque entre os grandes músicos da sua geração. O seu último disco, Siren, dedicado aos grandes trios de jazz da história do género, tem o selo de 2011 mas o pianista leva já novos projectos na manga e não teve receio de os partilhar nesta entrevista que tratou de revelar igualmente pormenores essenciais de alguns dos momentos mais importantes da sua biografia, assim como a sua opinião entre os dois mundos que o rodeiam - a música clássica e o jazz. Agradecido pela oportunidade de levar a música sentado num banco de piano, confessou sentir-se nos ombros dos gigantes musicais que lhe abriram o caminho até aos dias de hoje.
É conhecido como um músico de jazz mas também explora regularmente música clássica nos seus discos e ao vivo. Como se definiria enquanto pianista?
 
Vejo-me antes de mais como um pianista jazz. Apesar de ter estudo piano clássico quando era jovem, sempre fui mais interessado pela improvisação e pela composição jazz. Os músicos de jazz estão habituados a pegar nas estruturas de outras músicas (a música pop do momento, música de espectáculos, música folk, etc) e usar essas formas como base para a improvisação. Eu também aprecio pegar em muita da música clássica que pratiquei e estudei quando era um jovem estudante de piano e transformá-la através da improvisação em grupo.
 
Li na wikipedia que quando recebeu um prémio da German Mahler Society pelo seu tributo jazz à música de Gustav Mahler alguns membros do júri ficaram revoltados. Isso é verdade?
 
Eu não assisti à Conferência de Mahler em Toblach quando os prémios foram anunciados mas ouvi dizer através de algumas pessoas que lá estavam que algumas pessoas que lá estavam não gostaram dos meus arranjos da música de Mahler e não acharam que eu merecia o prémio.
 
Porque será que a música clássica é ainda tão fechada à interferência de outros tipos de música e interpretações? Tem uma opinião formada acerca disto?
 
O mundo da música clássica venera a partitura escrita e de alguma forma é visto como desrespeitoso alterar de alguma forma a música do compositor. Há uma tradição de improvisação na música clássica (talvez mais comum nos períodos barroco e clássico, assim como alguma música contemporânea), mas na maior parte parece ter havido algum atrofiamento. No mundo do jazz, estamos habituados à improvisação e não vemos isto omo um problema.

© Joanna Stoga
 
Toca com orquestras regularmente - por exemplo, para tocar as Variações de Diabelli - e isso é muito diferente de tocar com um trio de jazz. É um grande desafio para si?
 
Eu gosto das diferenças inerentes em ambas as situações. Uma das maiores diferenças é que muitas orquestras clássicas com um maestro sentem o tempo atrás da batida enquanto que os grupos de jazz com um baterista forte sentem o tempo mais em cima da batida.
 
Num dia está a tocar num clube de jazz e no outro está a tocar com uma orquestra numa grande sala de concertos. Como consegue viver entre dois mundos dramaticamente diferentes?
 
Eu cresci no mundo do jazz em Filadélfia e Nova Iorque e por isso é natural para mim estar nesse mundo. Tocar nas situações mais “clássicas” aconteceu mais tarde na minha vida e demorei algum tempo a habituar-me mas quando o faço melhor me sinto com isso.
 
Hoje em dia, como avalia os seus estudos musicais? Sente que está a usar uma percentagem grande do que aprendeu durante esses anos?
 
Os professores de piano e composição que tive quando era mais jovem tiveram um grande impacto na minha vida musical presente, acima de tudo porque me ensinaram a estudar e trabalhar na música para que eu pudesse ensinar a mim mesmo e trabalhar na música por minha iniciativa. Muita da verdadeira aprendizagem para mim ocorreu quando saí da escola e fui capaz de perseguir os meus próprios interesses. A música é uma busca a longo prazo e ainda estou a estudar e a trabalhar em vários aspectos da minha interpretação e composição todos os dias. 
 
Acha que a improvisação tem um papel maior na sua música comparando com a composição? Ou acha que são partes igualmente importantes no seu trabalho?
 
Depende, quando estou na estrada a tocar com grupos ou a solo, sinto que sou um improvisador que escreve música no seu quarto de hotel. Quando estou em casa e tenho mais tempo para trabalhar e praticar, tento dedicar mais tempo a projectos de composição mas também tocar piano todos os dias como um improvisador.

Escreveu o seu próprio Concerto para dois pianos e orquestra de cordas. Como foi essa experiência?
 
Foi uma experiência incrível. Fui compositor em residência na Los Angeles Chamber Orchestra entre 2005 e 2008 e escrevi várias peças para eles, incluindo um concerto onde participava eu e o Jeff Kahane, o director musical da LACO e um pianista fantástico.
 
Imagina escrever mais concertos para piano no futuro?
 
Com prazer…
 
O seu disco mais recente é para um trio de jazz, Siren, com o John Hebert no contrabaixo e o Ben Perowsky na bateria. Como sente este novo álbum?
 
Eu queria gravar um CD com o trio com quem tenho trabalhado durante os últimos anos, a tocar temas originais e um standard. Foi gravado directamente e sem edições e é uma espécie de foto instantânea de como nós tocamos juntos como grupo. O Ben, o John e eu tivemos a oportunidade de tocar muito por aí fora e em Nova Iorque e eu gosto muito de tocar com este trio. 
 
Como é que Nova Iorque o trata enquanto músico?
 
Eu vivo em Nova Iorque desde 1985. A cidade foi importante para o meu desenvolvimento enquanto músico e conheci muitos grandes músicos aqui. Nunca me canso da energia de Nova Iorque. Gosto simplesmente de andar pela rua e observar e ouvir todas as diferentes pessoas. E é claro que há muitos grandes concertos e clubes aqui, onde os músicos que moram aqui e aqueles que passam por Nova Iorque tocam. Por isso é uma excelente cidade para ouvir todos os tipos de música. 

 
Vive em Nova Iorque mas nasceu em Filadélfia. Como é a cena musical lá? Pode dar-nos nomes?
 
Cresci a estudar em Filadélfia com o grande pianist francês Bernard Peiffer e o compositor George Rochberg. Com o tempo comecei a tocar tanto com os jovens músicos da minha idade como com músicos mais velhos que viviam em Filadélfia. Bateristas como o Philly Joe Jones, Bobby Durham, Mickey Roker, Sunny Murray, Cornell Rochester e Edgar Bateman, saxofonistas como o Grover Washington, Odean Pope, Bootsie Barnes, trompetistas como o Johnny Coles e o John Swana, guitarristas como o Pat Martino e o Kevin Eubanks e baixistas como o Jymmie Merritt, Charles Fambrough, Jamaladeen Tacuma, Gerald Veasley e o Arthur Harper. E muitos músicos de Nova Iorque que por lá passaram e com quem tive a oportunidade de tocar. Havia muitos lubes onde podíamos tocar. Também toquei com grupos de R´n´B, grupos brasileiros, grupos clássicos, cantors, coros e atéem aulas de dança, também toquei em restaurantes, bares, pic-nics, casamentos, Bar Mitzvahs, funerais, escolas, prisões, instituições de saúde mental, after-hours em discotecas, na rua, em igrejas, etc.
 
Acha que as pessoas nos Estados Unidos apreciam e valorizam mais o jazz e a sua história musical? Sente diferenças significativas quando toca na Europa?
 
Eu acho que há um maior apreço pela música e pela arte em geral na Europa e mais apoio aos festivais, compositores e clubes. Temos a oportunidade de tocar nos Estados Unidos da América, seja em grandes cidades ou cidades universitárias mas muitos americanos são ignorantes em relação ao Jazz.
 
Alguma vez se sente um sortudo por ter a oportunidade de viver exclusivamente da música? Alguma vez pensa no caminho longo que alguns músicos tiveram de percorrer até que isso fosse possível hoje em dia?
 
Eu aprecio a ideia de que estamos nos ombros dos gigantes musicais que nos precederam e adoro estudar a tradição e ler e pensar sobre músicos em diferentes épocas e locais. Muitos dos problemas que os músicos e os artistas enfrentaram em todas essas diferentes épocas são os mesmos. Não é fácil ganhar a vida da música e também tive períodos de luta na minha vida, mas também me sinto bastante sortudo por ter sido capaz de sustentar a minha família e os meus filhos enquanto músico. 
 
Pode actualizar-nos em relação aos seus próximos projectos? Tem novos discos para lançar em breve?
 
Tenho um novo CD chamado Sonic Boom, que é em duo com o baterista holandês Han Bennink. Acabei de gravar uma nova peça de 25 minutos com o Sirius String Quartet em Nova Iorque. Estou a compor algumas novas obras para grupos de música de câmara e orquestra e espero gravar um novo disco de piano solo em breve.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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