ENTREVISTAS
Battles
Batalha sensorial
· 22 Set 2005 · 08:00 ·
Terão de ser recuperadas à reforma as velhas raposas da espionagem para decifrar o enigma que os Battles formaram num tríptico de EPs (Tras, EP C, B EP). O que podia ter sido armazenado na economia de recursos (e de dinheiro para o consumidor) de um longa duração, repartiu-se por três lançamentos distintos distribuídos por três editoras diferentes. A música passa a responder pelo mau nome da charada e a “farsa” livra-se do sentido pejorativo que sempre lhe associam. Sem que a entrevista tenha envolvido o uso de spray de pimenta, focos de iluminação ou outros instrumentos de tortura, Ian Williams (ele que um dia insuflou a tenacidade pós-rock dos grandes Don Caballero) acaba por assegurar ao Bodyspace que os Battles se encontram em estúdio a gravar o primeiro álbum. Isto sem nunca se descoser muito em relação ao mesmo, mas demonstrando sempre um revelador à vontade na exploração de trivialidades. Os Battles são suspeitos pouco acostumados a uma interacção tão diversa. Além de Ian Williams, fazem parte da banda o ex-Helmet John Stanier, o compositor nova-iorquino Tyondai Braxton e um relativamente desconhecido Dave Konopka. A incógnita serve de quinto elemento à banda. O Bodyspace conheceu o rosto a Keyser Soze.
Fala-me da digressão até aqui. Como têm lidado com esse calendário imparável?

Tínhamos concluído a digressão planeada para os EPs, mas, a certa altura, o Scott Herren (Prefuse 73) entrou em cena e insistiu que o acompanhássemos na sua digressão. Voltámos a arranjar a bagagem e prolongámos a digressão além do que estava planeado, mas parece-me que valeu a pena.

O Scott participou na última das vossas interpretações. Há hipóteses de virem a colaborar em alguma coisa? O glitch do Scott é compatível com o vosso material?


Ele vive em Barcelona. Proporcionou-se a colaboração naquele dia. Ele já tinha tocado connosco uma série de vezes.

A avaliar pelo que vi no último Sònar em Barcelona, parece-me que muito do material captado em estúdio evolui naturalmente em palco. Planeiam incluir no futuro álbum versões reordenadas ou “mutantes” de faixas incluídas nos EPs? Podes adiantar alguma coisa em relação ao longo duração?


Durante o tempo passado na estrada, julgo que aprendemos realmente a ser uma banda e adquirimos uma noção das nossas capacidades. Tudo isso surgiu após a gravação dos EPs iniciais.

O conceito do álbum será tão labiríntico e velado quanto aquele que parece servir de suporte aos EPs?


Sou obrigado a responder com um velado “em construção” para me referir ao disco. Contudo, posso adiantar que os EPs terão direito a um novo formato aquando do lançamento na Europa durante o próximo Inverno. Isto porque nunca foram devidamente lançados na Europa.

Muitas das fotografias incluídas no vosso site parecem ter sido tiradas por câmaras de vigilância. Até que posso esse sentimento Big Brother encontra lugar na vossa música e conceitos artísticos?


Isso levou a que as pessoas votassem em George Bush. Pode ser que as motive a comprarem os discos de Battles.

Parece-me que a música dos Battles não destoaria enquanto banda sonora actualizada para A Conversa de Francis Ford Coppola (embora Kevin Martin tenha tentado isso recentemente com Tapping the Conversation sob a designação de The Bug). Concordas? Existe tensão e conspiração - próprias da espionagem - no vosso universo?


Sou definitivamente adepto da espionagem.

Quer isso dizer que os Battles são assumidamente crípticos?


Os músicos são pessoas entediantes. É bem provável que fossem muito mais interessantes se fossem espiões.

Há algo de magnético acerca de “Hi-Lo” (incluída em EP C) que me lança em transe. Assumes essa faixa como uma provocação sensorial? Parece-te absurdo apontar os Battles como encantadores de cobras através do rock?


O melhor é deixar que os loops falem por eles mesmos.


Como se sentem com a etiqueta de “super-banda”? O facto de tentarem atrair pessoas sem acenar os nomes das vossas bandas anteriores é por si só uma batalha, certo?

O termo “Super-banda” aponta sempre para uma cenário deprimente. Costuma servir de plano de reforma a pessoas que chegaram a fazer coisas relevantes.

De que forma se insere o Japão na estratégia dos Battles? Foi deliberado o lançamento de uma versão japonesa de EP C e a digressão pelo país ou aconteceu naturalmente?


A versão japonesa do EP C apresenta misturas diferentes porque foi necessário um lançamento prévio ao dos Estados Unidos. Foi antecipado para ser promovido durante a nossa digressão por lá. É por isso que o Japão teve direito à sua própria versão. O mais engraçado é que reclamaram:”Nós queremos a versão lançada nos Estados Unidos.”. Como se a versão deles fosse em algum aspecto inferior. Eu persistia em esclarecê-los:”Tiveram direito a uma versão única produzida especificamente para o vosso país. Isso é óptimo!”. De certa forma, parece-me que associaram o tratamento exclusivo a uma incapacidade de estarem ao nível dos parâmetros internacionais.

A Mixtape incluída na vossa discografia parece-me uma item algo obscuro. Como surgiu?


Muitas novidades despontam em mix tapes. É a melhor forma de dar a conhecer novas faixas em Nova Iorque. Conseguir que um DJ famoso as inclua na sua mixtape, e esperar que os miúdos a comprem nas ruas.

Quão próximo se sentem da estética que a Monitor Records (editora de um dos EPs) pinta a sangue e suor? Existem pontos em comum entre vocês e os Oxes ou os Part Chimp?


É curioso mencionares isso, já que esta noite irei assistir ao showcase da Monitor no CMJ (N.R.: festival abundante em propostas que decorre em Nova Iorque). Pedi ao “Baby Leg” (uma das metades ao leme da Monitor) para lançar o EP, porque o aprecio como pessoa. Foi isso que nos inseriu na Monitor. Não conheço nada dos Part Chimp a não ser uma T-shirt que alguém trazia vestida na Escócia. Os Oxes mostram um bom desempenho ao vivo, mas não creio que haja semelhanças entre nós. Os Battles chegaram a partilhar uma casa em Austin, Texas, com Cass McCombs (o songwriter coqueluche da Monitor) durante uma série de dias, e o tipo não nos dirigiu uma palavra que fosse. Não nos importámos com isso, mas foi muito divertido. Daí que não me pareça que nos enquadremos na família Monitor.

Reparei que tu e o Tyondai (a parcela mais avant-garde dos Battles) estavam a assistir ao concerto de Miss Kittin no Sònar. A electrónica europeia exerce algum tipo de influência sobre os Battles?


Actualmente, a Europa parece-me tão indolor e descontraída. E parece-me que a electrónica que produziu no passado se adequa perfeitamente à sua vida de hoje em dia. Não é fácil para mim identificar-me com isso já que provenho de um país onde a selvajaria chega a ser pior que a normalmente associada ao terceiro mundo. Existe agora uma nova geração de europeus que cresceram a escutar música electrónica, muito diferente do meu ponto de partida que foi o rock/punk. O que fazer da electrónica europeia ainda representa um ponto de interrogação para mim.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

Parceiros