ENTREVISTAS
Elysian Fields
Amêijoas e Conservas são o "Coffee and Cigarettes" português
· 17 Mar 2012 · 00:35 ·
A sempre charmosa Jennifer Charles e o seu cúmplice Oren Bloedow (ou seja, o núcleo duro dos nova-iorquinos Elysian Fields) andam por cá, a tocar e a gozar os prazeres da vida. Se na quarta-feira foram à praia e comeram amêijoas na Costa de Caparica – Jennifer ficou fã do “Barbas” –, ontem deram um belo concerto no Musicbox, em Lisboa. Hoje passam pelo Cine Teatro de Alcobaça e amanhã terminam a passagem por Portugal no Cine Teatro de Estarreja. A conversa foi agradável. Começou por Last Night On Earth, disco que lançaram no ano passado e merece ser escutado com toda a atenção. Falou-se também de um percurso musical marcado pela integridade artística e pela busca da beleza, bem como de outros projectos em que estiveram ou estão envolvidos. Sem lugar para concessões comerciais nem fast food para entreter os ouvidos. Mas com espaço para levarem um pedaço do nosso país (as latas de conserva que se podem ver nas fotografias) até Brooklyn. You have lovely packages, comentou Jennifer Charles. Nós pensamos o mesmo.
Quem é que conduz (e come) quem em “Red Riding Hood”, a vossa versão do Capuchinho Vermelho?

Jennifer Charles: Gosto de brincar com isso. Gosto da ideia de rescrever um conto infantil, ou reinterpretá-lo. Talvez seja o Capuchinho Vermelho a conduzir o Lobo Mau e a aproveitar-se dele, e que esteja a controlar a situação durante todo o tempo.

A música “Last Night On Earth” funciona como que um capítulo final para um álbum que descreve uma trajectória desde a infância até à idade adulta, ou ao seu fim?

Jennifer Charles: Penso que sim, mas isso nunca foi muito intencional antes de termos começado a gravar o disco. Mas quando estávamos a fazer o alinhamento do disco, depois de gravarmos todas as músicas, perante todas as “peças do puzzle” começámos a juntá-las e acabou por surgir essa trajectória, que faz sentido. Começamos com a criança, em “Sleepover”, e acabamos a ser lançados para o cosmos em “Last Night On Earth”.

© Mauro Mota

Entre outras colaborações, neste disco tiveram a participação de alguns elementos dos Antibalas, banda afrobeat que vem de Brooklyn, como vocês.

Oren Bloedow: Ficámos muito contentes por termos tido a possibilidade de trabalhar não só com a maravilhosa secção de metais dos Antibalas como com o seu baterista clássico (e multi-instrumentista) Chris Vatalaro, que é um bom amigo e tem colaborado connosco noutras ocasiões. Despedimo-nos dele antes de virmos para Portugal. Os Antibalas fazem parte da minha vida por diversas razões, entre as quais os factos de sempre ter gostado do trabalho deles e de eles serem grandes músicos.

Continuam a ser mais populares na Europa do que nos EUA?

Oren Bloedow: Também temos montes de fãs no nosso país! Não temos realizado tours extensas nos Estados Unidos porque tal não se tem revelado rentável, mas Nova Iorque é uma das cidades em que temos mais fãs.

Vocês têm um som único e são uma banda de culto – acham que o mainstream continua a preferir ideias que são mais fáceis de enfiar dentro duma caixa?

Jennifer Charles: A maior parte das pessoas sente-se mais segura quando pode facilmente definir (ou consumir) alguma coisa. Isto não se passa somente com a música, mas com quase tudo hoje em dia. E é uma pena, faz doer o coração, porque dessa forma as pessoas passam ao lado das coisas mais profundas que podem fazer a diferença nas suas vidas. Nós não somos certamente fast food para quem ouve música.

Já tiveram problema com uma anterior editora por não quererem fazer cedências comerciais. Continuam a sentir pressões deste género?

Oren Bloedow: Não, isso não tem acontecido. Há bastante tempo que não estamos envolvidos com esse tipo de editoras.

Os Elysian Fields vão a caminho dos vinte anos de existência. Qual é o balanço que fazem deste percurso? Consideram mais simples manter um projecto de duas pessoas do que uma banda com vários egos para gerir?

Jennifer Charles: Estou muito orgulhosa do que temos feito até agora, e sinto-me grata por aquilo que eu e o Oren continuamos a criar. Os egos podem ser bastante destrutivos, mas o mesmo pode suceder num projecto a solo. Não estou com isto a dizer que eu e o Oren não tenhamos egos com as suas exigências – que até temos –, mas é como um bailado para a vida que sabemos dançar juntos. Existe uma comunidade próxima de pessoas com quem temos trabalhado há muitos anos, e pessoas novas também podem entrar neste círculo de amigos. Estamos abertos à experimentação e adoramos tentar coisas novas para manter a música viva e fazê-la crescer, mesmo depois duma canção estar escrita. Vamos sempre deixar a canção dizer o que precisa, e isso é libertador, porque não estamos amarrados a nada. De outra forma seria como se tivesses um filho e o obrigasses a vestir uma roupa que não lhe servisse ou de que ele não gostasse. No final de contas, cada “criança” deve encontrar-se a si mesma.

© Mauro Mota

Podem-me falar um pouco do vosso projecto paralelo, La Mar Enfortuna?

Oren Bloedow: La Mar Enfortuna é o espaço onde exploramos música de vários territórios da diáspora sefardita, principalmente mediterrânicos. Na prática acaba por resultar principalmente em canções de Elysian Fields que assumem uma sonoridade exótica com as melodias tradicionais do Médio Oriente e as letras em línguas como ladino, grego e árabe.

Jennifer, como foi gravar com Mike Patton, Dan Nakamura e Kid Koala para o projecto Lovage? Poderá haver um segundo volume desse projecto?

Jennifer Charles: Foi divertido. Eu adoro escrever, e essa é a melhor parte para mim. Fico contente por as pessoas continuarem a apreciar essas canções. Penso que existe a hipótese de voltarmos a trabalhar em conjunto, se ela surgir eu estou disponível. Mas o Dan agora tem uma família, e não sei se ele poderá dispor de tempo para isso.

Jennifer, se em Lovage mostras um grande apetência para duetos, neste disco cantas “Red Riding Hood” na companhia do Oren. O que te agrada mais nos duetos? A dicotomia/tensão entre as duas vozes?

Jennifer Charles: Adoro escrever duetos. É um pouco como escrever uma pequena peça de teatro. Claro que a forma como as vozes interagem é muito importante, e queres sempre que exista um bom jogo de contrastes e texturas entre elas.

Oren, sendo que fizeste parte dos Lounge Lizards, gostava de saber se alguma vez foste à pesca com o John Lurie?

Oren Bloedow: Não, o John nunca me levou à pesca. Mas jogávamos basquetebol, futebol e pólo aquático nos tempos de Lounge Lizards. Ele é um tipo que pratica bastante desporto.

Jennifer Charles: O John disse-me há uns anos que se tivesse convidado uma mulher para participar nesse programa de televisão, em que levava amigos à pesca, essa mulher seria eu, mas ele não quis ter uma mulher no programa. O que é uma pena, porque eu sou uma bela pescadora!

© Mauro Mota

Oren, ouvi-te dizer que a razão pela qual vocês fazem música é a motivação de criarem algo belo. É esta procura pela beleza que faz os Elysian Fields continuarem a tocar?

Oren Bloedow: Penso que essa acaba por ser a razão principal. Também é bastante agradável viajar pelo mundo, experimentar as comidas e vinhos de cada sítio e conhecer pessoal porreiro. Como se costuma dizer, “é melhor do que ter um trabalho das 9 às 5”. Mas, sim, se pensasse que não estávamos a criar objectos duma certa beleza, perderia boa parte da motivação.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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