ENTREVISTAS
Passo Torto
Os sambistas tortos de São Paulo
· 22 Fev 2012 · 01:45 ·
© José de Holanda
O disco dos Passo Torto foi um dos mais elogiados do ano discográfico brasileiro em 2011 e com razão: é um disco cheio de passos certos, de canções que dão a cara à - e pela - nova e actualizada música popular brasileira. Os Passo Torto são Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral (tudo gente com bons créditos na música brasileira), partem do samba e de São Paulo e deixam-se influenciar pelo ritmo mas sobretudo pela rica tradição da música brasileira. São eles que o dizem. Respeitam a tradição mas não se conformam com a mesma. Escrevem canções simples mas longe de serem simplistas: usam apenas a matéria-prima necessária, nada mais. Isto já dizemos nós. Para saber tudo o que se pode saber dos Passo Torto fomos falar com Romulo Fróes, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, três em quatro músicos apostados em ir contra o ditado que diz que “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”.
Alguma vez imaginaram que um Passo Torto pudesse dar tão certo?

Kiko Dinucci: Sempre imaginei que fosse dar certo, por isso comecei a compor com Romulo e Rodrigo. A união de três compositores que trabalham com o samba de uma maneira peculiar sempre nos seduziu. Os sambistas tortos de São Paulo.

Foi fácil encontrar um ponto comum entre todos os elementos da banda, tendo em conta das vossas experiências passadas?

Romulo Fróes: Desde sempre, antes mesmo de nos conhecermos as pessoas nos aproximavam por conta das similaridades de nossos trabalhos, especialmente na maneira como lidamos com o samba. Mas penso que o que nos uniu foi nossa postura em relação a composição. Nós três nos interessamos e perseguimos um caminho que fuja da obviedade.

Foi difícil mandar o disco cá para fora? O que é que se tornou mais desafiante nesse processo?

KD: O disco caminhou muito através da rede. É actualmente o nosso maior canal de comunicação. Mais de 50 blogs publicaram sobre o disco. Isso representa para nós muito mais que os media oficiais. Nosso público passeia mais pelos blogs e redes sociais, do que pelos jornais e revistas. Deixamos o álbum gratuito para quem quiser descarregar, isso também incentiva o som a se espalhar, não há fronteiras.

Acreditam que esse é um dos futuros prováveis da música, a gratuitidade? Pelo menos a disponibilização gratuita do mp3 e a venda normal dos objecto físico?

RF: Futuro não, presente! Ao menos para artistas independentes como nós, sem o apoio financeiro das grandes gravadoras. Esse comportamento é que tem impulsionado nossas carreiras.


O que significa um disco como o vosso no cenário musical brasileiro? Qual é o risco da vossa proposta?

KD: Passo Torto é um disco corajoso, porque é focado na canção e em arranjos fora dos padrões da nossa geração. Todo mundo grava com bateria, guitarra, baixo e teclado, a canção fica lá atrás escondida, parece uma roupa bonita, mas sem corpo dentro. Nós mostramos a canção nua, sem artifícios em volta. Somos apaixonados por canção, se essa é a proposta, então vamos para o caminho extremo.

Acham que a música popular brasileira tem sabido renovar-se nos últimos anos?

RF: Certamente que sim. Essa geração surgida na virada do século em plena derrocada das grandes gravadoras, se viu obrigada a dar conta de todo o processo de construção de uma obra musical. Essa obrigação, aliada ao avanço e ao acesso facilitado à tecnologia, constituiu uma geração especialmente ligada ao processo de gravação. Num primeiro momento, o “som" produzido por ela, foi o que a destacou em relação às demais gerações. E o aprimoramento técnico conquistado por esta geração, provocou mudanças na canção brasileira que começam a ser notadas. Principalmente porque alguns grandes nomes da música brasileira passaram a trabalhar com estes novos artistas. Em especial, Caetano Veloso, que renovou sua música em seus dois álbuns mais recentes e também no novo disco de Gal Costa, do qual é produtor. Os novos caminhos encontrados por ele, surpreendentes a um artista com uma obra tão vasta, muito devem a seu contacto com essa nova geração.

Diriam então que neste momento estas duas gerações influenciam-se harmoniosamente e mutuamente?

RF: Ainda não, pois outros exemplos dessa relação como a que acontece com Caetano, são raríssimos. Essa geração ainda não alcançou o reconhecimento que certamente ela terá.

© José de Holanda

Qual é a percentagem de respeito pela tradição que uma banda como a vossa tem de ter antes de fazer algo novo?

RF: Minha geração justamente não pode ser acusada de obediente, nem mesmo de transgressora. Não devemos tributo a nenhum grande artista, mas também não escondemos nossa admiração, tomamos por nossa, toda a história da música brasileira e lidamos com ela da maneira que melhor nos convir, de um modo muito natural. Sem rupturas, continuidade, hierarquia, obediência ou transgressão.

Este disco é bastante rico musicalmente. É um desafio levá-lo para os palcos?

Rodrigo Campos: Como o disco foi gravado ao vivo, apenas com os integrantes do Passo Torto, não há dificuldade nessa etapa, houve antes, na composição dos arranjos. Salvo alguns pequenos detalhes, gravados por nós mesmos depois das gravações ao vivo, fazemos, no palco, exactamente, o que está no disco.

Pelo que percebi a crítica foi bastante elogiosa em relação ao vosso disco. Foi uma surpresa?

RC: Foi surpresa no sentido de não saber como seria recebida a união dos artistas que compõem os Passo Torto, pois cada um, em seu trabalho individual, já teve certo reconhecimento da crítica. O disco é a mistura dos trabalhos individuais, das composições aos arranjos, o que faz soar diferente de tudo que já fizemos individualmente, daí a surpresa.

Qual é a definição clássica de um artista com sucesso no Brasil? Vendas? Chegar à Europa?

RF: A definição clássica ainda vigora no país: o artista de sucesso no Brasil é aquele que toca nas rádios e aparece em programas populares na TV. Ainda que a tradução disto em vendas de discos, seja infinitamente inferior à do passado.


Encontram alguma explicação para o facto da música brasileira chegar tão facilmente a Portugal e o inverso não acontecer? O que é que chega aí de português actualmente?

RF: Esta uma falta grave a nós brasileiros. Talvez por termos uma música popular tão rica e diversa, nos bastamos com ela. E nossa ignorância não é só em relação a Portugal, mas também com nossos vizinhos da América do Sul, não conhecemos quase nada da música que se produz em nosso continente.

Com tanto entusiasmo à volta do vosso disco, começam já a pensar num próximo disco?

RC: O segundo disco já foi pauta em alguma conversa nossa, a ideia é voltar compor colectivamente logo. O disco vai ser a consequência de conseguirmos chegar a um conjunto de boas composições. Mas sem pressa, até porque esse ano teremos discos solos dos integrantes.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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