ENTREVISTAS
ALTO!
Do alto destas guitarras seis décadas vos contemplam
· 26 Jan 2012 · 23:45 ·
Por cada morte anunciada do rock n´ roll, outra ressurreição acontece em sítios onde o poder mágico do riff adquire traços libertários. Por cada single de dance-pop mascavada e descartável que atinge o lugar cimeiro dos tops, dezenas de excelentes discos rock são imaginados em garagens, caves, bunkers e demais espaços onde a imaginação corre fértil, ajudada seja pelo que for - álcool, drogas, tédio, ídolos antigos, sonhos de paisagens desérticas, longínquas, alcançáveis com um simples acorde. E então, vilarejos esquecidos até em mapas brilham com uma intensidade maior que a das grandes cidades, contagiam os sedentos com a sua sensação de invulnerabilidade. Tal é o caso de Barcelos. Não necessariamente um vilarejo, mas hoje tem mais, muito mais com que se orgulhar do que um mero galo: tem o estatuto de Meca do rock nacional. E para se juntar ao trajecto de grandes como os Black Bombaim ou os Glockenwise, tem agora os ALTO!, espécie de supergrupo da cena Barcelense, e o seu disco de estreia homónimo que está quase a sair. Nós que já o ouvimos agradecemos. E à disponibilidade de João Pimenta, vocalista, para responder às nossas perguntas.
Em que é que o longa-duração muda em termos sonoros do que já se conhecia dos EPs, se é que muda alguma coisa?

Penso que a acção do Ricardo Miranda nos teclados e na guitarra foi muito mais preponderante na escrita dos temas. A própria temática, que andou à volta de 10 histórias diferentes em 10 locais diferentes (daí os títulos na toponímia original). Os elementos começaram a ouvir outras coisas. As letras obedeceram portanto já a uma história escrita por ela própria. Muda sempre uma banda com o passar do tempo, seja de elementos, de sonoridade. E num EP nunca tens muito tempo para expôr a tua sonoridade, um albúm exige outra atenção. Sentimos que era agora o momento.

Foi um trabalho mais “pensado” do que os outros? Visto que hoje as bandas apressam-se a cuspir discos – com melhores ou piores resultados – quiseram olear bem a máquina antes de lançarem um LP meses após a formação da banda?

Na verdade são anos. A banda tem cerca de 3 anos, já tocou um pouco pelo país todo, tem histórias maravilhosas em Espanha, normais numa banda que se abeira do escuro. Já tínhamos lançado 2 EPs e sentimos que a ligação musical estava a ideal para tomarmos este passo, portanto nem foi uma questão de olear, foi pegar em 10 músicas que sentíamos que faziam sentido no seu todo, trabalhá-las e gravá-las. Sem nunca pensar muito nisso. Sentimos que trabalhando com o instinto se consegue melhores resultados.

O que é que os membros dos Green Machine e dos Black Bombaim podem fazer nos ALTO! que não podem (podiam) fazer nas suas bandas respectivas?

Isso são tudo nomes de bandas, só, não é? Na realidade o que importa aqui são as pessoas. Nós não nos juntámos por x ou y tocar em determinada banda. Na realidade o nosso baixista nem tem outras bandas, é a sua primeira. É uma coincidência essas bandas, mas lá está... numa cidade tão pequena seria quase impossível isso não ter acontecido.

© Nuno Miranda

Não posso ser eu a fazer copy-paste do Facebook, por isso importam-se de ser vocês a fazer ctrl+v e dizer-me onde gravaram, com quem e como correu?

Gravámos nos Estúdios Sá da Bandeira nos primeiros 2 dias de Dezembro com o João Brandão. Takes live, menos os de voz. No primeiro dia ficou gravado todo o instrumental e no segundo a voz que seguiu um estilo pouco ortodoxo. Nenhum take foi gravado na sala normal. Foi mais uma junção de micro no fundo de um corredor de escadas, um chuveiro e um micro ligado a um amp de guitarra minúsculo chamado “pigonose”. Convidados só o engenheiro de som do estúdio que tocou pandeireta num tema e o som da rua de Sá da Bandeira noutro. No terceiro dia foi tudo misturado pelo Brandão e passámos para a parte da masterização e capa.

Que espécie de favores tiveram de fazer ao Joaquim Durães para que ele lançasse o vosso disco?

Passar música com ele e um tipo chamado Nuno Dias e provavelmente umas pulseiras coloridas e um ou outro mojito no final de Julho, não digo onde. Mas não chamo a isso favores mas auxílios.

Sentem que a imprensa musical fala demasiado das bandas de Lisboa e esquece a qualidade que há no norte?

A imprensa musical em Portugal é uma publicação mensal com a Amy Winehouse 3 vezes por ano na capa. O resto é internet. Esse dilema é eterno e provavelmente já na Idade Média se queixavam disso. Naturalmente que se presta mais atenção em Lisboa às coisas feitas lá, está tudo lá concentrado não é? Penso que não se irá alterar, mas também não queremos fazer parte dessa guerra.

Já diziam os KLF que para se ter sucesso pop tem de se estar desempregado para não ter qualquer espécie de preocupações. Acham que o facto de serem “desempregados num país asfixiado pela crise” vos dá uma maior liberdade criativa?

Pelo menos dá mais tempo para compor e isso é um bónus numa época em que não se tem tempo para nada. Nesta altura alguns de nós trabalham, outros estudam, outros estão desempregados. Somos muito heterogéneos.

Após o lançamento do LP, têm alguma digressão planeada ou farão só apresentações esporádicas?

Vamos apresentar o disco nas principais cidades nacionais nos locais onde se podem apresentar, também nas Fnacs, e estamos a planear voltar a tocar em Espanha, em especial em locais onde não tenhamos estado ainda, como Madrid ou o País Basco. E como focaste o factor desemprego, sentimos que o disco se calhar tem potencial para nos enviar além Pirinéus, daí que uma digressão por essa velha Europa não esteja de parte.

© Nuno Miranda

O vosso bunker tem alguma ligação à zona das espirituosas do mini-mercado ou ainda não se lembraram de fazer um buraco no tecto?

Penso que o lugar é muito mitificado. É só um canto numa garagem onde de facto algumas bandas de Barcelos cresceram e funcionou como uma placa giratória muito importante de troca de informação sobre música e cultura em geral. Lembro-me das sessões de cinema ao domingo à noite ou mesmo da própria partilha de pens. E é sempre bom um sítio assim existir. Ajuda mais o local a crescer do que qualquer centro cultural, no fundo.

Barcelos é mesmo a capital do rock?

Tendo em conta que eu, o Ricardo Miranda, o Tojó Rodrigues e o Márcio da Lovers and Lollypops crescemos em Abade de Neiva, mais concretamente na zona Breia-Cachadinha-Café Os Manos, penso que Abade de Neiva, sim, a um nível underground mais underground ainda, pode ser considerada a verdadeira capital do rock no meio disto tudo. É uma zona com vacas, caminhos em pedra, caixas de correio a 200 metros das casas, zona de graffitis surreais como o “O Tora é Romano” ou “Já almoçaste?” e o som do fuzz de Fu Manchu lá ao fundo intercalado por tiros de espingarda. Um sítio giro.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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