ENTREVISTAS
Rodrigo Leão
Luzes da Cidade
· 09 Ago 2005 · 08:00 ·
É provável que o nome de Rodrigo Leão não cause estrondo na memória dos artistas que às vezes nos soam a algo… É porque Rodrigo Leão sempre trabalhou acompanhado ou integrado em projectos e nomes de envergadura mais plural do que num passado mais ou menos recente o destino pôs nas suas mãos. Para esclarecer este nome, recordemos que estamos a falar de um dos fundadores da mítica formação portuguesa Madredeus, e antes disso também co-fundador de uma banda (revolucionária), Setima Legião. Agora entrega-nos o seu sexto álbum a solo, Cinema.
A iniciativa de tocar em Granada chegou como resposta a um convite dentro do ciclo de concertos solidários que a Obra Social de Caja Granada vem desenvolvendo desde o ano passado, e no qual desfilaram artistas de renome como Noa, Cesária Évora, Carlinhos Brown, Dulce Pontes, entre outros. Os benefícios que estes concertos geram são destinados sempre ao desenvolvimento de projectos para a ajuda social. O caso da arrecadação de Rodrigo Leão foi dirigida à ajuda das vítimas do tsunami no Este Asiático.

N.R.: Esta entrevista reveste-se de uma particularidade que lhe potencia interesse: foi feita por uma espanhola. Uma boa oportunidade para nos vermos olhados de fora.
Entrevista de Antonia Ortega Urbano (antonia@bodyspace.net)
Tradução de Ângela Costa

Qual a influência da literatura nas suas composições? Autores, livros imprescindíveis, e como foi essa influência?

Há alguns escritores portugueses principalmente da poesia, como Mário Cesariny ou Herberto Helder, dos quais gosto muito e que estão presentes na minha música, embora não directamente, porque os primeiros trabalhos foram sempre interpretados em latim na voz de cantoras líricas. Eram textos antigos, palavras soltas que ao serem cantadas adquiriam sentido. A voz funcionava mais como um instrumento e uma melodia, eu experimentava para integrar a voz ao nível da instrumentalidade. Existem muitos outros autores que me interessam e que me influenciam, como por exemplo Dostoievski e Graham Green. Na minha música há um pouco de diferentes literaturas de muitos países.

Que bagagem adquiriu na experiência com um grupo como os Madredeus?

Os Madredeus encontram-se muito presentes porque foi uma experiência muito forte, aprendíamos muito uns com os outros, viajávamos frequentemente, havia um contacto muito próximo com um público muito diferente por todo o mundo, aprendíamos a ver. Existe uma ligação muito forte, é algo que não se pode desvincular porque o que estou a fazer actualmente encontra também algumas raízes nos Madredeus.

A sua aprendizagem evolui, sendo progressiva e estimulante?

Sim, é verdade.

A relação música-literatura-cinema, no presente, é uma inter-relação com tendência a estreitar laços ou resulta demasiadas vezes do acaso?

Eu penso que a ligação que se dá é cada vez maior entre a literatura, o cinema, a música, a pintura, porque são os sentimentos que nos unem a estas artes. Como quando ouvimos música e pensamos: “esta música tem muita poesia ou é muito paisagística”… Foi difícil para mim este último trabalho, Cinema não poderia estar inspirado num só filme, está inspirado em muitos filmes que eu gostei ao longo da minha vida. É possível que dentro de um ano, dois ou três, uma pintura, um livro ou um poema sejam o ponto de partida para um disco novo. É um processo muito espontâneo e muito intuitivo, não é algo que se possa prever.

Que opinião acha que merecem as pautas comerciais que condicionam irreversivelmente a criação musical?

Penso que recentemente em Portugal apareceram grupos muito bons, anticomerciais, e muito, muito novos, como o Quinteto Tati e os Dead Combo. Penso que há muita música comercial que começa a vender menos. Podemos notar uma vontade por parte das pessoas em descobrir novas músicas, e é esse público, penso eu, que está a crescer, que quer ouvir mais música.

Como mudaria essa lógica hipermediatizada?

À parte da estratégia que supõe não comprar este tipo de música, e que as televisões e as rádios não a divulgarão tanto, restará transcendência, e não serão incondicionais diante esse tipo de produtos, que perderão audiência. A resposta será um pouco a “sabotagem” perante a imposição das suas fórmulas.


Como é a realidade musical portuguesa?

Há coisas muito interessantes de muitas áreas distintas como a música electrónica, a musica pop, a música popular portuguesa. Atravessamos um momento muito difícil com uma crise muito grande na indústria, há pessoas com muito talento que não têm oportunidades de gravar a sua música, e então há que continuar a trabalhar e há que tocar, fazer concertos em sítios muito pequenos. Eu penso que há muitas pessoas em Portugal neste momento com uma energia muito forte para continuar a trabalhar e fazer coisas. A música que mais se conhece fora de Portugal é o fado, há um fado que é mais melancólico, mais triste que eu prefiro, e que é muito português, a saudade, e essa parte é uma parte que é bem compreendida e bem recebida. No entanto, há muita música que ainda se desconhece.

Que banda sonora que não existe gostaria de compor ?

Há um filme com o título Luzes da Cidade de Charles Chaplin (City Lights, 1931), muito antigo, um clássico, que é um filme que eu gosto muito e gostaria de fazer.

A poesia... que lugar ocupa no seu trabalho?

Houve um disco que fizemos em Novembro de 1997 que se chama, Os Poetas, é com Gabriel Gomes, um acordeonista que toca com os Madredeus. Trabalhámos juntos partindo de poemas de alguns poetas. Esse é um disco que tem um vínculo muito directo com a poesia. Para nós é uma forma muito abstracta.

O que é que Cinema tem a mais em relação ao seu último trabalho?

Cinema… É um disco penso que um pouco diferente dos discos anteriores, tem uma vertente mais clássica. As cantoras líricas, tão presentes em trabalhos anteriores, neste desapareceram. Este facto faz que como compositor tenha a oportunidade e a necessidade de convidar outros artistas a trabalhar comigo, e foi o que aconteceu com Cinema, que conta com a colaboração de Beth Gibbons, vocalista dos Portishead, Rosa Passos, que é uma cantora brasileira e Sónia Tavares, a vocalista de um grupo pop português – os The Gift. Para os concertos que estamos a fazer contamos com uma artista nova que está connosco desde há três ou quatro meses, é muito versátil, chama-se Ana Viana, e canta em três idiomas (francês, inglês e português). Cinema, é um processo muito intuitivo e espontâneo como te havia dito. Talvez porque nestes últimos três anos temos tocado mais ao vivo e isso contribuiu inconscientemente para que este último trabalho seja um pouco mais aberto. Está sempre presente a melancolia, e os meus filhos, tenho dois filhos, são uma inspiração muito grande para este trabalho.

A música é uma ferramenta para a esperança, para criar vias de beleza no mundo?

A música tem o poder de unir muita, muita gente, de uma forma abstracta mas com sentimentos de esperança, de ajudar os outros.
Antonia Ortega Urbano
antonia@bodyspace.net

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