ENTREVISTAS
Memória de Peixe
Glu glu quê?
· 04 Dez 2011 · 23:44 ·
Apesar da curta memória, Miguel Nicolau lembrou-se de lançar um novo single de Memória de Peixe – “Fish&Chick” com a colaboração de Da Chick – e os níveis de curiosidade para o que pode vir aí subiram para níveis muito interessantes. Começou por ser só guitarra – loops às centenas – mas agora o aquário aumentou e também há bateria. E há Da Chick. E há um novo EP a ser produzido as we speak e que deverá ver a luz do dia nos primeiros tempos de 2012. Mas para além dos factos, Memória de Peixe tem uma história; é a história de Miguel Nicolau. Para saber como foi construído o aquário, fomos falar com o próprio e descobrimos, numa entrevista suculenta, coisas que a sua memória de peixe deixou lembrar. A forma como descobriu a guitarra, a Berklee, os músicos que o marcaram decisivamente, medos e receios, planos para o futuro. Se a memória não me engana, vamos ouvir falar muito de Memória de Peixe em 2012.
Quando e como é que começou a música para ti?

Um factor de peso foi o facto de os meus pais, especialmente o meu pai, compor música e tocar vários instrumentos. A minha mãe também tinha tido aulas de piano e tinha alguns conhecimentos musicais. Apesar de várias tentativas prévias de me aproximarem a uma guitarra, nunca tal seria possível quando no mesmo espaço co-habitava uma mega-drive e uma televisão. E quem não se recorda das bandas sonoras dos jogos? Tudo o que eu ouvi e todo o ambiente que me rodeou fez com que mais tarde tivesse curiosidade, sem nunca nada ter sido impingido. E tive curiosidade aos 10 anos.

© Edgar Libório

Como foi descobrir a guitarra aos 10 anos?

Não tive que procurar muito, na verdade estava na sala. Nessa altura acabei por viver com um padrasto que também tocava guitarra. E eu ouvia-o a tocar e copiava na guitarra os dedos dele. Subitamente a guitarra era um brinquedo. Mal sabia que andava a copiar acordes de sexta e de sétima… Claro que ele ouvia aquilo a soar tão "bem" que pela sua saúde mental tinha que me corrigir ou mandar parar. Acho que não deve haver muitas coisas piores que ouvir um puto durante quatro horas a tentar tocar mal um “acorde”. É pura tortura.

Sei que o teu pai é guitarrista. É músico profissional ou amador? Que ensinamentos é que ele te passou?

O meu pai é um autodidacta, tem alguns conhecimentos musicais, mas sobretudo muita capacidade auditiva. O meu padrasto, apesar de não trabalhar na música, tinha realmente bastantes conhecimentos musicais, estudou jazz, tinha bandas e nesse aspecto ele tinha mais coisas para me ensinar. O que mais aprendi com ele foi a escutar. Ouvia-se muita música em casa, desde a todo o tipo de rock, ao jazz, fui a muitos concertos de diferentes géneros, que só agora é que começo a associar alguns deles. Portanto, desenvolvi alguma teoria, mas sobretudo, desenvolvi a minha capacidade auditiva; tentar sempre reproduzir na guitarra o que idealizo.

Podes-nos contar como é que a Berklee entrou na tua vida? É uma história curiosa…

Sempre ouvi falar muito da faculdade, dos (grandes) músicos que por lá estudaram e sobretudo dos métodos que implementavam, muito diferentes dos mais clássicos e ortodoxos, que sinceramente sempre tentei evitar quando era mais novo. Eu acredito que a música deve ser intuída, mas devemos igualmente ter bases teóricas, que nos ajudem a desbloquear as nossas composições, ou a torná-las mais interessantes. E a ideia que tinha da Berklee é que o método de ensino potenciava e dava muito espaço à criatividade. Que foi o que eu durante a pré-adolescência procurei, mas sempre de uma forma do it yourself/autodidacta. Porém, nunca sonhei estar próximo dessa realidade e num workshop de improvisação que a escola norte-americana organizou em Dublin há uns anos atrás, inscrevi-me e lá fui eu. Tive aulas com alguns dos professores da universidade, foram dias difíceis no inicio porque o nível era alto, e muitas bases eu não as tinha, mas acabou por ser muito produtivo e compensador. E acabei por ser seleccionado como um dos 6 melhores e obter uma bolsa que me permitiu ficar ligado à parte on-line da escola, para um curso de teoria musical, o que eu não estava, de todo, nada à espera. Apercebi-me lá, de que mais que querer ser um bom executante/músico, o que eu queria mesmo era fazer música.

© Edgar Libório

Que músicos é que marcaram o teu crescimento enquanto músico e artista?

Tenho a noção que ao longo do tempo ouvi tanta coisa que me influenciou, e que enquanto crescimento fez e faz todo o sentido, mas é impossível enumerar. Muitas vezes são pequenas coisas, pequenos pormenores que nos influenciam. Desde jazz, música clássica, rock alternativo, electrónica, de tudo um pouco. Depois foi enfiar tudo num balde e fazer um grande batido das influencias todas. Mas já há algum tempo que não deixo de ouvir (sem ordem de preferência) Battles, Animal Collective, Deerhunter, Health, No Age, Liars, Wire, Foals, Atlas Sound, Deerhoof, Women, Sonic Youth, Carlos Bica e Azul, Giraffes? Giraffes!, por aí fora...

Guitarristas favoritos. Tens ou isso é coisa para as capas da Uncut?

Kurt Rosenwinkel, Frank Mobius, Carlos Paredes, e tantos outros. Muitas das bandas referidas em cima têm guitarristas que admiro bastante. Mas sim, deixo isso para as capas da Uncut (espero que não me caia nenhuma cabeça a seguir).

Queres fazer-nos um resumo dos teus projectos actualmente?

Para além de Memória de Peixe, com o Nuno Oliveira, sou também co-piloto na aventura intergaláctica Cavaliers of Fun com o Ricco Vitalli, e toco guitarra em Balla e em Gomo. Dei uma perninha no novo dos Norton, e também tenho feito músicas infantis.

Não tens medo que a tua música pareça uma espécie de OVNI na música portuguesa enquanto Memória de Peixe? Não sentes que as pessoas, na sua maioria, ainda procuram música formatada, com refrão, com voz?

Sinceramente, sinto que isso aos poucos está a mudar. A qualidade de muitos projectos musicais portugueses, muitos festivais que se fazem por cá e concertos produzem ouvintes extremamente atentos e mais exigentes. Nós também somos maioritariamente ouvintes, e também temos de ter essa exigência para connosco próprios, e acho que assim é que nos podemos transcender e fazer algo de que nos orgulhemos. Não nos preocupamos muito com isso na verdade.

Diz-me um fenómeno na música portuguesa que adores e outro que odeies.

Carlos Bica e Azul, Dead Combo, e como não posso formular muitos, já chega. Não odeio ninguém, mas já me ri muito.

Vi o teu concerto no Taina Fest 2 e acho que aquela miúda, a DA CHICK, rockou tanto… Como é que ela colaborou contigo?

Conheci a Da Chick num ensaio de Cavaliers of Fun. Percebemos logo que se estava ali a passar-se alguma coisa. Ela tem muito talento e um timbre de voz que não passa despercebido. Quanto à nossa participação, nós temos gostos em comum, são muito imediatos os resultados e assim foi. Começámos logo a tratar de fazer uma música juntos. A “Fish&Chick” nasceu em três tempos e vão acontecer mais com certeza.

Andas a gravar algum disco ou algo do género? Quando é que poderemos ouvir algo aproximado a isso?

Sim, será um EP de 5/6 faixas que contará com algumas participações externas como a Da Chick. Neste momento está em fase de misturas, e estará cá fora no inicio de 2012.

Andas à procura de uma editora neste momento? Se quiseres podes aproveitar esta oportunidade para tentar vender o teu peixe…

Sou um adepto ferrenho da Lovers & Lollypops. Para mim são a Sub-Pop portuguesa. Mas acho que eles sabem que eu gosto muito deles.

© Edgar Libório

Ah, porquê Memória de Peixe?

Já me esqueci… (acabava em grande assim a entrevista…) Memória de um peixe é tida como uma memoria de curta duração, fugaz. E no fundo os loops de guitarra também o são, pois acabam por ter 6/7 segundos, e que ao serem sobrepostos, vão sendo esquecidos para dar lugar a uma outra ideia, e assim repetidamente. É uma pequena orquestra de guitarras acompanhada pela bateria do Nuno Oliveira, com uma estrutura de canção, com diferentes partes.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

Parceiros