ENTREVISTAS
Diego Armés
Canções sentimentais na coroa do rock
· 17 Nov 2011 · 03:03 ·
© Mauro Mota
Diego Armés começou a tornar-se conhecido do público através dos Feromona, mui recomendável banda que faz do roquenderole a sua bíblia; agora apresenta-se num projecto musical a solo de cariz diferente, mais íntimo e pessoal, cujo disco de estreia está quase a chegar às lojas. As palavras escritas e cantadas (já importantes na banda da qual é frontman, por vezes de tronco nu) vestem-se de outra importância, assumem o protagonismo em canções delicadas – para senhoras, como vem no título do disco – e que não têm medo do ridículo, ou seja, de serem sentimentais, românticas (numa perspectiva luminosa ou sombria), apaixonadas ou melancólicas. Foi sobre os pormenores desta nova pele que está a crescer (mas também de outros assuntos relevantes, como o benfiquismo militante de Diego) que se falou durante um pequeno périplo por sítios que lhe são queridos, todos eles em Alfama, o mais antigo e um dos mais típicos e fascinantes bairros lisboetas.
Quiosque de Santa Clara

"É um bocado o sítio do Sábado e do Domingo à tarde. Venho aqui beber um café, apanhar um bocadinho de Sol, ver a criançada e os cães. Mas nem sou tão assiduamente frequentador; é mais essa onda do fim-de-semana. É um sítio porreiro para trazer um livro. De minha casa aqui, a subir são dez minutos; a descer são dois."

© Mauro Mota

Como foi a transição de Feromona para esta estreia a solo? Foi muito diferente compor para um formato mais acústico daquele que é habitual em Feromona?

Isto começou com músicas que ou não se enquadravam no espírito de Feromona ou que não entraram mesmo em Feromona porque não passaram pelo julgamento da banda. E eu achei que deviam ser aproveitadas porque gostava das músicas. Foram ganhando forma, até assumirem este registo, porque no início eram só guitarra e voz. Em relação às diferenças tem a ver com a lírica (que é um bocadinho mais poética, menos quotidiana), a própria abordagem dos assuntos é menos brusca, menos rude. Em Feromona há muito aquele espírito twisted, um bocadinho kinky. Depois, passa pelo próprio registo das músicas, mais de engodo, mais meloso. Acho que o tipo de melodias não foge muito ao que faço em Feromona porque ai também sou eu a fazer as músicas, portanto nunca vou conseguir fugir muito àquilo. Em termos de registo e dinâmica da música, há essa diferença: uma cadência mais pausada, mais respiração ou mais espaço nas músicas. Mas não é uma coisa muito intencional. Essa diferença nota-se mais depois de as músicas estarem finalizadas, porque tem mais a ver com o invólucro do que com a essência da música. Quando chegas ao fim e tens uma música que só leva arranjos de guitarra acústica e um violoncelo e um acordeão é diferente duma música que leva arranjos com bateria, guitarra com distorção e baixo. Aí é que notas a diferença, e não tanto no ponto de partida.

Tive oportunidade de assistir a alguns dos primeiros concertos em que começaste a rodar as músicas do Canções Para Senhoras, Foi possível perceber que, pelo menos no início dessas actuações, não estavas tão seguro/confiante como quando tocas com Feromona. Concordas? Isso deveu-se mais ao nervoso miudinho da estreia dum novo projecto ou foi o facto de estares com menos rede, mais exposto aos eventuais erros que pudesses cometer, por ser (praticamente) a solo e acústico…?

Por um lado é a tal coisa de ser um projecto novo, de as músicas estarem pouco rodadas. Sozinho não ensaiei nem um décimo do que já ensaiei com Feromona. Por outro lado são músicas mais delicadas, e qualquer falha ou deslize vai-se notar muito mais do qualquer deslize em banda. Estás mais exposto do que quando tens mais ruído à volta; se estás a cantar, tens que cantar muito afinadinho porque não podes estar aos berros, é uma coisa mais doce. Se falhares, toda a gente vai notar. E se estou a tocar sozinho, o erro só pode ser meu. Depois tem a ver com as próprias músicas, que são um bocadinho mais íntimas e sinceras. Não são tão mascaradas, não tens aquela letra que te deixa esconder um bocadinho lá por trás. Quando estás a cantar uma canção como a “Canção Sentimental”, por exemplo, o risco de alguém achar que aquilo é muito lamechas é bem maior. Então, deixa-te um bocadinho mais aflito.

Detalhes sobre o álbum: quem produziu, quem participou instrumentalmente, são eles que te vão acompanhar ao vivo?

São tudo situações muito complexas (risos). Em relação aos créditos do álbum, o disco foi “parido” por mim e pelo Filipe da Graça. A produção foi nossa, todos os dias montávamos e desmontávamos a minha sala com todo o equipamento para gravar – o disco foi todo gravado em minha casa, transformávamos a sala em estúdio. A produção e engenharia de som, tudo o que é técnica, é do Filipe da Graça. A mistura também foi dele, e a masterização foi do Bernardo Barata. Os músicos: o Filipe da Graça tocou percussões e melódica, e ao vivo tem tocado também acordeão, que no disco foi gravado pela Rosa Pinto; o violoncelo foi gravado pelo Ricardo Jacinto, que também vai tocar comigo quando puder (ele é um tipo ocupado, e não é fácil – e eu sou um bocado como o Toni, que andava a comprar jogadores para o Benfica com um saco de rebuçados; acontece-me a mesma coisa com os músicos: estou dependente da disponibilidade e da boa vontade deles porque não tenho dinheiro para lhes pagar); o piano foi o João Gil que gravou – o João tem participado em quase todos os concertos. O lado bom de tudo isto é que, sendo um formato tão liberal, posso ir tocar ao vivo sozinho, apenas com a guitarra acústica, ou ir tocar com a guitarra acústica mais piano, posso acrescentar violoncelo, acordeão… tudo ajustado ao local do concerto. Basicamente, vou precisar de ter quase duas bandas preparadas para conjugar as disponibilidades de cada um, sendo que os músicos que gravaram vão ser sempre os prioritários.

E tens algo planeado em termos de apresentação do disco ao vivo?

Gostava de conseguir chegar a outros sítios que normalmente ficam fora do mapa e do circuito. É óbvio que tens que tocar em Lisboa, no Porto e em Coimbra, mas é importante que também vás tocar às terras mais pequenas, mesmo que toques para menos pessoas. Podes tocar para salas mais vazias, mas se calhar é importante ires a Ferreira do Alentejo e teres vinte pessoas a ouvir a tua música e a conhecer-te. Vais à Covilhã e tens mais trinta. Ok, não vais tocar para trezentas pessoas, mas tocas para quem normalmente não tem acesso à tua música. E se calhar até vais tocar em boas condições, em auditórios como deve ser, com boa qualidade de som. Gostava de, a pouco e pouco, ir tocando um pouco por todo o lado, mesmo que não num espírito de tournée, que é complicado e implica algum investimento. Começar pelas duas cidades principais, e aos poucos ir passando um pouco por todo o país.

Bela
"É a casa mais castiça, se formos pelo imaginário dos bairros típicos de Lisboa. Tem fado, tem bom vinho, tem uns petiscos óptimos, tem tertúlia… É o sítio que faltava. Como fecha tarde, pelas 4h da madrugada, é muitas vezes o sítio onde acabo as noites. É uma espécie de último destino antes do “até amanhã, pessoal”. Aconselho vivamente as noites de domingo – e têm que chegar cedo, que isto fica cheio num ápice – e a salada de polvo. Para além de tudo, ainda tem a simpatia do “staff”, com destaque para a própria Bela."

© Mauro Mota

O que conduziu à escolha deste título (Canções Para Senhoras) para o álbum? Sei que está relacionado com uma brincadeira dos tempos em que o MySpace tinha uma relevância maior nestas coisas da partilha da música online…

No MySpace existia uma espécie de status, e houve uma vez em que me lembrei de pôr qualquer coisa como aqui fazem-se canções para senhoras, como quem faz sapatos por encomenda, ou roupa de criança. Só que a coisa foi ganhando algum peso, e a brincadeira foi sendo bem sucedida; então, achei que era justo chamar ao disco Canções Para Senhoras, até porque é um título engraçado e reflecte o espírito do disco e de como as coisas foram aparecendo. É quase um resumo de todo o processo até chegar aqui. E até mesmo em termos gráficos e de imagem dá para trabalhar com imensa coisa, porque apela a um tema com um lado de elegância e sensualidade. A Vanda Noronha, da Chifre, que é quem está com o design, tem estado a fazer um trabalho muito giro em relação a isso, em alguns cartazes, na capa do disco...

Já em Feromona um dos traços fortes/pilares reside no que é dito; mas aqui «pescas as palavras com uma linha e um anzol». As palavras ganham outra dimensão, talvez por não estarem rodeadas por electricidade e ritmos mais acelerados.

Nas letras, a questão do cuidado e do peso é ainda mais justificada porque as músicas são construídas à volta dessas palavras. Portanto, toda a dinâmica da música depende das próprias palavras. A voz é o elemento central, e quando este é o elemento central não tens outro remédio: ou as palavras e as letras são boas ou estás a fazer borrada – e se é para isso, mais vale estares quieto. Se fazes pop/rock, podes fazer letras brincalhonas, engraçadas, podes até nem fazer grandes letras ou escrever letras com duas linhas, desde que tenhas boa melodia e ritmo; se fores fazer uma letra com duas linhas de lírica e engraçadota numa coisa que leva só guitarra e voz, fica assim um bocadinho parvo. Tem de haver mais substância e tens de ser mais cuidadoso. Como a forma é mais simples, a substância tem de compensar. Ninguém vai perder quatro minutos da sua vida a ouvir uma canção que só tem dois acordes e em que apenas se dizem duas palavras, palermas, ainda por cima.

“Maria” parece-me quase um esboço, um poema inacabado, até pela forma como termina, parecendo que fica como que em suspenso. Por que resultou desta forma?

A música não termina, a sugestão é nunca mais acabar. A “Maria” partiu dum cenário hipotético de paixão de escola secundária e foi ganhando mais e mais dimensões. Essa música… quase ninguém gosta dela, eu é que insisti para que ficasse no disco por uma questão de capricho pessoal. Aliás, é a música mais despida e simples de todas. Tem a ver com isso, a música foi ganhando camadas dentro da própria letra e a personagem da Maria e aquela relação de amor foram ganhando outra dimensão. Sei onde comecei, não sei muito bem onde é que isso foi parar. Essa ideia do inacabado pode ter a ver com isso: podia ter continuado a contar essa história durante mais dois anos de música… porque não acaba, não é?! E foi essa ideia que tentámos transmitir a fechar a música, foi deixá-la aos poucos… aquilo não acaba ali, obviamente.

“Entredentes” talvez seja a minha música preferida do disco, mas não é o single, ou pelo menos o primeiro single. Penso que uma vez me chegaste a dizer que não se deve lançar como primeiro single a melhor música dum álbum. Porquê?

Acredito que a melhor canção do disco deve ser a que o abre, e não deve ser o primeiro single. O primeiro single deve chamar a atenção e a melhor canção deve ficar para descobrir – não podes entregar tudo de bandeja. Tens de guardar um trunfo; se vais mostrar logo o melhor, por que razão é que alguém se vai dar ao trabalho de ouvir o resto?... Esta é a minha perspectiva. Para segundo single tenho algumas opções possíveis: “O Fim da História”, “Amor e Violência”, “Tanto Faz” – que abre muito bem o disco, com aquela entrada de piano.

Este disco é dominado por um certo romantismo, mas nem sempre duma forma luminosa. O amor tem vários humores, é isso?

Acho que o disco até saiu bastante escuro. O amor não é uma coisa estática nem padronizada. O amor não é isto nem aquilo, por isso é que Camões não conseguiu dizer o que é o amor. Tens muitas formas, muitas fases, muitos humores. Há amor bom, há amor mau, há doloroso, há alegre, há feliz. Neste caso, acho que o disco deixa uma sensação um bocadinho melancólica e outonal. Talvez tenha a ver com um lado mais de perda ou de qualquer coisa que não está a funcionar bem. “O Fim da História” ou mesmo o “Amor e Violência” têm uma certa carga trágica – sentes que aquilo não vai acabar bem! Há outras que não falam de amor, o disco não é só isso, mas é uma boa parte. A “Mitologia Passional” talvez seja o melhor resumo da ideia principal e dessa sensação que perpassa todo o disco. Mas podia fazer mais quinhentos discos sobre o amor e saírem todos diferentes. Podia fazer um disco punk rock de amor.

Este álbum reflecte um período da tua vida, de certa forma?

Quando comecei a gravar o disco já tinha nove músicas prontas, e era suposto editar um EP: gravar nove músicas para depois escolher seis. Gostei dessas nove, e como entretanto compus mais duas, que acabaram por entrar no disco, fez-se este álbum. Isto para dizer que o que está no disco não reflecte propriamente um momento, até porque há canções que já têm quatro anos… portanto, não estamos a falar dum momento estagnado, é mais uma fase permanente, que é a menos conhecida porque mais pessoal, mais íntima, escondida. Daí também que seja um bocadinho mais assustador, porque falo de coisas que são mais pessoais. Não tens assim tanto gosto em partilhá-las com o mundo, se não for da maneira certa, porque há o risco de seres ridículo. Quando fazes letras mais brincalhonas e mais catchy esse risco é muito menor do que aqui. Quando estás a falar dos teus sentimentos amorosos, ehpá!, há um risco elevado de acharem que és parvo. É a tal história de todas as cartas de amor serem ridículas – não há outra maneira! Porque se estás a ser verdadeiro e a revelares-te… não existe outra maneira; e depois as pessoas podem gostar ou não. Mas não há meio-termo, não podes ser só um bocadinho amoroso e ridículo.

Típica
"A Típica é uma espécie de sala-de-estar comunitária do pessoal daqui. Em Alfama há muita gente da nossa geração, mais coisa menos coisa, que veio para cá viver. Aqui é que vais conhecendo as pessoas e te vais encontrando com elas. Se vou sair para qualquer sítio, ligo ou mando mensagens a combinar. Mas quando saio à noite para aqui não combino com ninguém; simplesmente apareço, tal como o resto das pessoas. E o pessoal costuma cá ver a bola, é uma casa benfiquista, como se pode ver. Às vezes parece um mini-estádio, e tem um excelente ambiente. Sobretudo nos grandes jogos - a seguir ao Estádio da Luz é o melhor sítio do mundo para ver a bola."

© Mauro Mota

És um fervoroso adepto benfiquista - já deste um depoimento para a Benfica TV (referiste que o Benfica é a tua família e que parte dos terrenos do Estádio da Luz até eram da tua família) e tens um blog dedicado ao Glorioso, com o teu número de sócio. Sei que este ano tens ido muito ao Estádio da Luz, mas que na temporada da última conquista do campeonato não puseste os pés na Catedral por causa de uma espécie de promessa. Conta-me o que aconteceu.

Nessa época não fui a nenhum jogo. Nesse ano, durante a primeira parte da época não consegui, estava sem dinheiro para ir à bola. Depois, as coisas estavam a correr tão bem [à equipa] que não quis “enguiçar”, não quis ir lá estragar tudo com a minha presença. Então, acabei por não ir ao estádio, e assim perdi a oportunidade de ver ao vivo a melhor equipa do Benfica dos últimos tempos. Mas, pronto, foi por uma boa causa.

Como tens acompanhado a presente época futebolística? Desempenho da equipa, reforços e outros jogadores em destaque…

Há uma coisa de que estou a gostar esta época. A equipa tem feito jogos seguros, umas exibições melhores, outras piores, mas a coisa está consistente, estável. E isto duma maneira positiva, não é como no último ano em que fomos campeões, em que havia muita euforia. Houve muitas goleadas, éramos os maiores, indestrutíveis, mas depois acabámos por ser campeões, sim, mas perdendo outras provas nas quais que tínhamos obrigação de fazer melhor, até pela equipa que tínhamos. Este ano é o contrário. Talvez a equipa não brilhe tanto, não há aquele exibicionismo, mas se calhar até vai conseguir resultados melhores. A equipa está com os pés mais assentes no chão, mais madura e inteligente. Tenho gostado. Em relação aos reforços, tenho um bocado a opinião de toda a gente. Sabemos que o Witsel é grande jogador, já deu para perceber que o Nolito e o Bruno César também são bons, são craques, e pessoalmente – sei que aqui os benfiquistas se dividem um bocado – gosto muito do Emerson, acho que foi uma boa contratação. Já não tínhamos um lateral esquerdo que fosse mesmo defesa há muito tempo. Estávamos habituados a jogar com extremos cá atrás – Maxi dum lado e Coentrão do outro –, enquanto o Emerson está lá para defender. E temos sempre o criticado Cardozo, que é um tipo que faz golos que se farta mas há-de ser sempre o “patinho feio” da equipa. É um bocado o espírito benfiquista: se deres dez toques seguidos na bola, até podes fazer um golo de três em três meses – és o maior! No entanto, se fizeres três golos por jogo, mas não conseguires dar dois toques seguidos na bola, és um jogador de merda, não tens hipótese.

Muitos benfiquistas falam nisto e gostava de saber a tua opinião sobre a eventualidade de se ouvir o “Benfica” do Panda Bear no sistema de som do Estádio da Luz

Sinceramente, não conheço a música; mas já li entrevistas do Panda Bear a falar sobre o benfiquismo dele e acho que é algo tão genuíno e poderoso que, nem que fosse por homenagem, já merecia passar. Acho que era óptimo.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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