ENTREVISTAS
Jeffrey Lewis
O bom rebelde
· 17 Out 2011 · 23:54 ·
Atiram o epíteto antifolk para cima de Jeffrey Lewis há uma data de anos atrás e a coisa caiu-lhe bem. O cantautor e autor de comics norte-americano não se importa de enfiar a carapuça e até usa essa gaveta para lá enfiar as suas palavras e as suas canções. Afinal de contas, o que Jeffrey Lewis deseja é fazer chegar a sua mensagem ao maior número de pessoas possível: uma mensagem humorística mas verdadeiramente séria na sua intenção: para ele, a mais importante prioridade de um artista – de um político ou de todos nós – devia ser muito provavelmente aliviar o sofrimento humano nesta experiência a que chamam de vida. E essa pode muito bem ser a génese e a raison d´être das canções de Jeffrey Lewis. O seu novo disco, A Turn In The Dream-Songs, é o motivo que o faz regressar a Portugal para dois concertos - a 17 de Outubro no Porto (no mítico O Meu Mercedes é maior que o teu) e em Aveiro (Mercado Negro) no dia 18. Fomos conversar com Jeffrey Lewis que nos falou de tudo e mais alguma coisa: de gravações a comics, passando por literatura, Robert Plant, riso, guitarristas favoritos, Austin, barba, capas de revistas, LSD, ácidos e outras drogas. Tudo por causa do vício que pode ser uma canção ou um disco deste muito nosso Jeffrey Lewis.
Tens um disco novo. O que é que nos podes contar acerca dele? O que foi diferente desta vez? Como foi todo o processo?

Foi tudo gravado e misturado em equipamentos analógicos antigos, num pequeno mas óptimo estúdio analógico em Manchester, no Reino Unido, que é uma abordagem muito diferente para fazer um disco daquilo que eu tinha feito antes. Eu fiz álbuns lo-fi em fita, que estavam em fita mas sem ter de misturar várias faixas. E fiz álbuns que tinham várias faixas gravadas em fita, mas foram misturados digitalmente. Trabalhar neste novo álbum foi bastante desafiante porque é um jogo totalmente diferente, quando estás a misturar um álbum com múltiplas faixas de uma forma analógica. Não há um ecrã para ver o que estás a fazer, para começar, e isso é um elemento a que um monte de produtores e engenheiros se têm habituado ao longo dos últimos vinte anos. Quando misturas de uma forma analógica estás apenas a olhar para uma grande mesa coberta de botões e faders, e misturas as músicas ao vivo, o que significa que cada mistura que tens é um documento único e não-duplicável. Nunca podes na verdade ter uma mistura melhorada da anterior da anterior; se não gostares da mistura anterior tentas novamente e acabas com uma mistura totalmente diferente - pelo menos foi o que me pareceu. Eu assumi na verdade a função de engenheiro no disco, estava sentado lá enquanto a Julie no estúdio fez tudo e mais alguma coisa. Eu nunca fui um gajo de tecnologias quando se trata de gravação de música, mas gosto de ver como eles fazem. No que toca a ter sido auto-produzido, é verdade que não havia produtor, mas eu não posso ficar com todos os créditos de produção. Houve certamente momentos em que outros músicos ou o engenheiro de som contribuíram com ideias para experimentar diferentes canções. Acho que fui o produtor no sentido em que eu tinha a palavra final sobre que ideias iríamos seguir e quais iríamos abandonar. No entanto houve ideias que eu nunca teria tido sozinho. Por isso eu não posso ter os créditos pela auto-produção. Como na “Try It Again”: estou a tocar uma guitarra eléctrica com apenas três cordas, e funciona perfeitamente para a canção - que foi uma sugestão da Julie como uma forma de adicionar mais "garra" à canção. Não é o tipo de ideia que eu teria sozinho, precisas de um engenheiro de som a sério para pensar em coisas deste género.


Será que se torna mais fácil de escrever álbuns com o tempo? Achas que sabes todos os truques e esquemas hoje em dia para evitar a tensão?

Não, eu nunca sei o que estou a fazer. Parece sempre um milagre que eu faça alguma coisa.

Tens uma licenciatura em Literatura. Em termos de percentagem, como é que isso te ajudou na tua vida e naquilo que estás a fazer hoje em dia?

Eu acho tanto para os meus livros de comics como para as minhas canções existe uma abordagem muito narrativa e também uma abordagem literal, no sentido em que normalmente não estou muito inclinado para ser abstracto. As músicas e as histórias dos comics são todas geralmente sobre alguma coisa, e parece-me que muita da arte e da música que eu encontro é sobre nada, ou não são sobre nada muito específico. As palavras são simples, mas têm poder nas combinações certas, isso é algo que tu podes ver na literatura.

O que é que odeias ou adoras realmente hoje em dia no mundo, em geral, na politica, na economia? Achas que todos nós temos de encontrar uma nova forma de viver breve?

A prioridade principal para um artista, para um político, para todos nós, deveria ser provavelmente aliviar o sofrimento humano nesta vida, tanto quanto pudermos. Sofrimento emocional, sofrimento económico, sofrimento físico... Estamos todos juntos neste mundo, seguindo esta vida, e se tens compaixão não podes ajudar mas podes ajudar a minorar os problemas dos outros. Que prioridade pode ser mais importante do que isto?

Não quero perguntar quem te inspira, mas queria perguntar-te quem ou o que é que não te inspira de todo? Para quem é que escreverias uma canção de ódio agora?

Para mim mesmo, provavelmente.

O que é que o antifolk significa para ti, se significa alguma coisa de todo? Incomoda-te?

Qualquer pessoa que tocasse música no Sidewalk Cafe, em Nova Iorque na década de 1990 ou 2000 era automaticamente catalogada como "antifolk", independentemente do tipo de música que tocassem, por isso o termo não significa realmente nada para além disso. Mas também faz sentido para mim, mais do que para outras pessoas, porque descreve uma certa atitude em relação à escrita, gravação e interpretação que o termo "cantautor" não descreve. Eu nunca tinha ouvido falar de antifolk até ter começado a tocar no Sidwalk, em 1998, mas eu já não teria pensado em mim mesmo como um "cantautor”, eu estava mais na música como uma forma de expressão crua nas palavras e no som, não tanto capacidade delicada de juntar palavras e melodias. Por isso fico por feliz por existir esse termo, que parece ser de alguma forma a descrição disso, a descrição de uma escrita de canções que saí fora da imagem normal. Então é isso que "antifolk" significa para mim, se é que significa alguma coisa. Eu não me importo, porque independentemente do que eu toco haverá sempre alguém invente um novo género, um novo nome para isso. Tu não consegues escapar a isso, pelo menos antifolk é um rótulo mais original e misterioso do que indie rock ou alt-country ou pós-punk ou o que quer que seja. Se as pessoas querem chamar-me antifolk eu não vou lutar contra isso.


Tens colaborado Kimya Dawson dos Moldy Peaches, assim como com a Diane Cluck. Sentes-te de alguma forma parte de uma comunidade?

Há definitivamente um sentimento de comunidade em Nova Iorque com a cena de microfone aberto do Sidewalk Cafe. Foi excelente para mim ter começado a fazer música, canções, performances e concertos com muitas das minhas bandas e artistas favoritos. Talvez tenha ajudado o facto de os meus favoritos não serem assim tão grandes e famosos.

Dá-me por favor o nome de três guitarristas americanos que toda a gente devia conhecer. És bom a fazer listas?

Eu não acho que eles seriam tão admirados de uma forma geral como eu os admiro mas o Mike Rechner (Prewar Yardsale) e a Ira Kaplan (Yo La Tengo) são provavelmente os dois guitarristas americanos que mais me influenciaram. E o Jerry Garcia (dos Grateful Dead) foi, naturalmente, um gigante da música americana. Ele tinha um conhecimento e uma imaginação tão amplas…

Qual é o último disco que compraste? E o primeiro, lembras-te?

O último disco recente que comprei foi o Minor Love, de Adam Green, comprei-o numa loja apesar de o conseguir arranjar gratuitamente na minha editora. E ontem, em Granada, na Espanha, comprei uma cópia em segunda mão em vinil do Songs For Drella do Lou Reed e do John Cale, que é um disco brilhante, e agora existem cerca de três álbuns do Lou Reed, que eu não tenho em vinil. O primeiro álbum que eu acho que comprei foi definitivamente uma cassete, mas não me lembro se era Scarecrow, de John Cougar Mellencamp ou "Escape" por Whodini, é um clássico de rap de meados dos anos 80. Ainda adoro essa cassete.

Há um capítulo na tua biografia sobre a qual tenho de te perguntar. Passaste dois anos a viver em Austin, Texas, a tocar em noites de microfone aberto, fazendo biscates e distribuindo os teus comics autobiográficos em cafés locais. Como foram esses tempos?

Só estive a viver em Austin durante meio ano. Foi um momento triste mas importante para mim, foi a única vez em que eu vivi numa cidade em que não conhecia absolutamente ninguém, foi uma experiência muito solitária mas poderosa. Aprendi a gostar da cultura de Austin, é muito diferente da de Nova Iorque.

É mais fácil contar uma história com uma canção ou com comics? Onde é que deixas mais de ti mesmo, o que é que leva para fora da tua zona de conforto mais facilmente?

Depende do tipo de história. Eu acho que podes deixar mais de ti num livro de comics, porque o crias em privado, ou seja, não o representas diante de muitas pessoas com toda a gente a olhar para ti.

Achas que o LSD, ácidos e drogas em geral, fazem bons tópicos de canções?

Não sei se há bons tópicos para canções ou apenas boas canções, mas a minha música favorita é a música psicadélica dos anos 60.

O Woody Allen, por exemplo, é totalmente contra a morte. Concordarias com ele?

Qual é a lógica de ser-se contra a morte? É como dizer que és contra o céu ou contra a lua.

O Robert Plant costumava perguntar "Alguém se lembra do riso?". E eu pergunto-te: rir é o melhor remédio?

Eu estou neste preciso momento a ouvir uma gravação ao vivo da “Stairway to Heaven” num bar em Sevilha. Provavelmente a versão de The Song Remains the Same, mas eu costumava ouvir muito bootlegs de Led Zeppelin ao vivo quando andava no liceu, por isso ouvia o Robert muitas vezes. Na verdade eu encontrei o Robert Plant no aeroporto de Heathrow, em Londres, em 1996. Estávamos ambos à espera que a nossa bagagem chegasse no carrossel de bagagem. Ele gostou da minha t-shirt de Syd Barrett. Eu não sei se o riso é o melhor remédio, mas mesmo que fosse, é difícil prescreve-lo a alguém, ele não está lá quando necessitas dele. "But i got some good news”… “I hope so”.

Desejas alguma vez acabar como o tipo que desenhaste na capa da revista Bearded?

Não, ele tem um bloqueio artístico de olhar para uma página em branco durante demasiado tempo.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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