ENTREVISTAS
Old Jerusalem
Reduzido ao essencial
· 23 Set 2011 · 07:45 ·
© Rita Carmo
Já passaram quase 10 anos desde que Francisco Silva começou a escrever canções enquanto Old Jerusalem e nessa quase década tornou-se num dos mais destacados escritores de canções portugueses da sua geração, independentemente da língua utilizada para unir a palavra à música. Seguro das suas influências e do caminho a seguir, Francisco Silva tem vindo a construir ao longo dos anos um songbook rico e admirável, indiferente a modas e pressões, coerente mas nem por isso fechado em si mesmo. O seu mais recente disco, homónimo por querer recuperar a magia dos primeiros tempos, composto e interpretado na sua totalidade por Francisco Silva e reduzido ao essencial, é mais um tratado à simplicidade e ao bom gosto; um disco onde Francisco Silva, sozinho, mostra que não precisa de mais nada senão do seu próprio talento para erigir canções que são maiores que a soma das suas partes. Passados dez anos, Old Jerusalem pode ter as suas influências bem definidas, mas tem também um cantinho muito próprio na música portuguesa. Um cantinho que se estima poder durar (pelo menos) mais uma década.
Esta é a quarta entrevista que publicamos com Old Jerusalem. Isto significa que somos ambos teimosos ou que andamos nisto há muito tempo?

Uma não invalida a outra, e alguma dose de ambas devemos ter. Ao fim e ao cabo, no meu caso, já são uns 10 anos a tornar públicas canções com regularidade. Ao ritmo dos dias de hoje 5 discos e 10 anos de actividade já devem fazer de Old J aos olhos de alguns um pequenito dinossauro, não? Um dinossaurozito bastante discreto, é verdade, mas um dinossaurozito nonetheless.

Que significa este novo disco para ti? De que forma é que é diferente dos anteriores?

Este disco difere essencialmente dos anteriores por ter sido composto, arranjado e interpretado exclusivamente por mim. No estúdio estivemos apenas eu e o Paulo Miranda (assistido no estúdio pela Margarida Faria), conscientes desde o início do processo que debateríamos apenas entre os dois a matéria de que o disco se viria a constituir, sem dispersão por mais ideias, material ou abordagens. Em termos de “significado” acho que, no momento em que sai, cada disco é apenas um passo mais no percurso de uma banda, tenho dificuldade nesta fase em atribuir-lhe um significado mais profundo do que esse. Não sendo muito é já qualquer coisa, quer no mínimo dizer que o projecto vive ainda.

© Rita Carmo

Foi mais fácil escrever este disco, ou mais intenso, ou mais exigente? Quais são os adjectivos que se aplicam a este disco?

Se te referes a escrita propriamente dita, não é muito apropriado no meu caso dizer-se que “escrevo” os discos enquanto obras completas. Vou escrevendo canções e elas são depois compiladas e ordenadas num álbum, como uma colecção de canções com uma certa lógica interna e estética mais ou menos coerente. Nessa perspectiva, a escrita deste disco não foi nem mais nem menos fácil ou intensa ou exigente do que qualquer dos outros. Já no que respeita ao processo de gravação, foi o mais relaxado e menos problemático dos discos que fiz até hoje. Talvez por isso tenha tendência a qualificar na minha cabeça este disco nessa linha de “adjectivação”: relaxado... O que não quer dizer necessariamente que seja a palavra que melhor qualifica a música contida no álbum.

Sentes a obrigação de mudar sempre alguma coisa no processo ou no resultado final. Sentes que o público ou a imprensa especializada esperam isso de ti?

Bem ou mal sinto que quer o público quer a imprensa esperam isso de todas as bandas, em maior ou menor dimensão. E bem ou mal sinto também que cada banda espera isso de si própria, ou induz essa obrigação em si própria, como forma de tentar evitar a estagnação criativa. Claro que os resultados concretos dessas mudanças são variáveis, não há garantia de se conseguir um bom trabalho apenas por se mexer nos processos.

Chamar a este disco “Old Jerusalem” tem algum significado especial? Como se quisesses voltar aos tempos em que tudo começou?

Chamar ao disco “Old Jerusalem” começou a fazer algum sentido para mim num momento em que efectivamente o processo de criação desta música pareceu de alguma forma “ecoar” esse momento inicial da existência do projecto, em que tudo se resumia à interacção de um músico, um técnico e alguns instrumentos e microfones. No fundo, como na primeira demo de Old Jerusalem, gravada em 2001 no mesmo AMP Estúdio de onde viriam a sair todos os álbuns de Old Jerusalem ate ao momento.

A música portuguesa foi surpreendida recentemente com um boom de bandas e artistas que cantam em português. O que te oferece a dizer acerca deste fenómeno?

Sim, tornou-se de novo popular usar a língua e algumas referências culturais especificamente portuguesas na música pop/rock nacional. Não sei se faz muito sentido ver nisso um “fenómeno” particular, ou mesmo se faz sentido agrupar todas as novas bandas que usam o português sob essa mesma “bandeira” de “nova-portugalidade”, mas ao fim e ao cabo estamos em Portugal, seria um fenómeno mais digno de nota não haver uma corrente com estas características, não?

Como foste acolhido pela PAD? Imaginas-te a editar um segundo disco com o mesmo selo?

Fui muito bem acolhido e não vejo no imediato nenhuma razão para não virmos a desenvolver uma relação de trabalho consistente e duradoura. Assim as nossas vontades e o mercado o propiciem.

Por esta altura ainda te imaginas a viver só da música um dia destes? É algo que satisfizesse totalmente os teus mais íntimos desejos existenciais?

Conseguir dedicar uns 5-10 anos da minha vida a ter como actividade principal a minha música poria em ordem uma boa parte das minhas angústias e inseguranças existenciais, sim. Claro que objectivamente, à medida que o tempo passa, as probabilidades de isso acontecer vão diminuindo e por isso não descuro nunca o trabalho mental diário de ajustar as expectativas à realidade de cada momento.

© Rita Carmo

O que é que mudou na tua cidade desde que lançaste o teu primeiro disco até aos dias de hoje?

As coisas que foram mudando no “interior” da minha vida têm-me distraído bastante do que tem vindo a mudar do lado de fora dela. Sinto que tem vindo a mudar muita coisa, e essencialmente para melhor, mas a verdade é que nos últimos tempos tenho visto tudo isso essencialmente from the outside looking in.

Que discos é que captaram a tua especial atenção nos últimos tempos? Ainda compras discos com regularidade?

Ainda compro discos com regularidade, sim. Recentemente fui muito agradavelmente surpreendido pelo disco do Josh T Pearson (ex-Lift to Experience) e pelo EP de estreia dos Dear Telephone, que é um must have. Os Low, o Bill Callahan, o Cass McCombs e os Mountain Goats continuaram a fazer discos que me caíram – esses já sem grande surpresa - no goto.

O concerto de lançamento do disco é já no próximo dia 24 de Setembro, no Passos Manuel. O que é que esperas desse concerto? É uma casa especial para ti?

Os concertos de apresentação do disco estão agendados para 17 de Setembro na ZDB (Lisboa) e, como referiste, 24 de Setembro no Porto, no Passos Manuel. O Passos Manuel é uma casa especial na medida em que é uma casa recorrente no percurso de Old Jerusalem. Cria-se uma proximidade com os sítios por essa via. Outros sítios no Porto e em várias zonas do país são especiais nesse sentido também (lembro-me por exemplo do Mercedes, outro exemplo paradigmático da proximidade que se vai criando com alguns locais e as pessoas que os gerem). Quanto aos concertos em si, pois desejo que vá muita gente, que essa muita gente se envolva com as canções e retire delas ingredientes suficientes para considerar a noite bem passada, e espero que essa mesma muita gente se sinta compelida a comprar o disco, várias cópias até, que oferecerão a amigos e familiares que por sua vez o comprarão para oferecer a outros amigos e familiares e sempre assim por aí fora até o disco se pagar a ele próprio e eu ficar mais próximo de satisfazer o que designaste muito bem como meu intimo desejo existencial de dedicar mais tempo a tratar a minha musica.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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