ENTREVISTAS
Equations
O todo é mais que a soma das partes
· 09 Set 2011 · 01:12 ·
«Ó severa matemática, eu não te esqueci desde que as tuas sábias lições, mais doces do que o mel, se infiltraram no meu coração como uma onda refrescante!». A frase é de Lautréamont e do indispensável Maldoror, mas podia muito bem ser dos Equations; porque a segunda coisa que nos sobe à cabeça, ao ouvir e tentar descrever a música da banda Portuense/Bracarense/Setubalense/Regionalmente Apátrida, é "é assim para o math rock" (sendo a primeira "isto é do caralho!"). A equação é bastante simples: três quartos de uma banda anterior (Without Death Penalty), dois novos recrutas e uma pequena aproximação ao hardcore segundo os At The Drive-In (3/4WDP + 2x + ≈ATDI, portanto), e temos coisa para começar a seguir com atenção. A uma semana de tocarem no sul pela primeira vez, e de voltarem ao Porto para o festão do Bodyspace, Zé Pedro e Bruno Martins falam do habitual; expectativas, avaliações, e - também - prognósticos. Esta matemática interessa estudar.
A pergunta que se impõe: estavam à espera que o vosso concerto no Milhões de Festa ficasse marcado por aquele momento épico? É algo que estava no guião do Hugo [Objects] ou foi completamente espontâneo?

Zé Pedro: Isso foi uma daquelas ideias que saiu a meio de uma conversa de parvoíce. Sugerimos isso, mas ficámos na dúvida se o Hugo teria realmente coragem de desfilar com os calções com que veio ao mundo.

Bruno: Foi uma surpresa tanto para nós como para o público!

© Ricardo almeida

Que percentagem de math rock existe nas vossas composições? Que espécie de cálculos fazem até encontrarem o riff perfeito?

ZP: O nosso método de composição é bastante racional. Somos o tipo de banda que passa muito tempo à volta da mesma música, numa tentativa (às vezes desenfreada) de encontrar um equilíbrio entre o detalhe, a riqueza musical, a harmonia e a “pujança”, sempre tentando manter os temas apelativos e complexos. No geral cada canção leva bastante tempo a amadurecer na nossa sala de ensaios antes de estarmos completamente satisfeitos com o resultado final.

Vocês não têm raízes numa só cidade – como aliás o dizem no vosso Facebook, estão entre o Porto, Braga e Setúbal. A distância é um entrave ao crescimento?

ZP: Nem por isso. A base da canções é muitas vezes feita só com dois ou três membros da banda.

B: Depois da saída do Freitas compusemos grande parte daquilo que viria a ser o nosso álbum apenas com três pessoas. Quando o Zézé se juntou à banda foi só trabalhar e acrescentar algumas linhas de baixo. Torna-se mais simples construir os temas por camadas e, ao longo do tempo, ir acrescentando mais elementos à música. Planeamos continuar a compor dessa mesma forma, concebendo uma dinâmica que inclua o Gonçalo.

Considerando o vosso fascínio por carrosséis, é de esperar que as próximas experiências musicais sejam no campo do math pimba?

ZP: Misturar estilos quase incompatíveis é uma das coisas que fazemos na nossa sala de ensaios. Math pimba nunca foi experimentado, mas devemos admitir que o estilo pimba drone (uma mistura entre Sunn O))) e Dino Meira) se revela bastante promissor.

Porque é que no vídeo para o FMI o Vítor parece o Fucile?

ZP: Confesso que tive que ir ao Google para descobrir quem era essa pessoa. Não sou um grande entusiasta do desporto-rei. Mas deve ser da roupa, devem comprar na mesma loja.

Tem-se dito que vocês partem das cinzas dos Without Death Penalty. Sentem/assumem-se como uma extensão dessa banda, ou mais como algo completamente novo? Quanto dos WDP está presente nos Equations?

B: Para os três elementos que faziam parte dos WDP existe um certo sentimento de continuação. No entanto em Equations conseguimos uma maior solidez como banda e um rumo melhor traçado em relação aos nossos objectivos. Without Death Penalty marcou uma fase de procura enquanto músicos, houve muita experimentação e tivemos períodos de musicalidades muito distintas. Quando criámos os Equations já estávamos certos do caminho a seguir e a adição dos novos elementos ajudou a sedimentar essas mesmas ideias.

ZP: Não podemos desassociar os WDP dos Equations pois como o Bruno já referiu, fez parte do nosso crescimento como músicos. Grande parte do que aprendemos foi com essa mesma banda, e isso reflecte-se nas canções que fazemos. Eu, o Bruno e o VT tocámos juntos nos Without Death Penalty durante cerca de 5 anos, é natural que isso se note nos Equations.

© Ricardo almeida

Vocês começaram em 2011 e já têm dado alguns concertos, especialmente pelo norte do país. Tendo eu visto apenas o do Milhões em que levaram uma série de gadgets para o palco, pergunto: dão-se bem com isso, não se torna confuso? Sentem já estar suficientemente “calibrados”?

B: Para nós não, já estamos bastante habituados ao material que temos. Sempre abusamos um pouco do uso de efeitos. Onde muitas vezes se criam confusões é nos palcos, que na maioria das vezes não estão preparados para acolher tamanha quantidade de “tralha” electrónica. Também por vezes encontramos dificuldade em fazer perceber aos técnicos das casas que tipo de som é que pretendemos. Muitos não estão acostumados ao género que já por si não é fácil de equalizar.

ZP: Para mim não há diferença em relação aos gadgets, na bateria é sempre igual, hahaha!
Quanto a estarmos “calibrados”, achamos que as músicas estão bem ensaiadas, e o objectivo agora é tocá-las ao vivo o máximo que pudermos.

Que têm achado das reacções do público? Quando planeiam tocar em Lisboa?

B: Durante os concertos o público não se expressa muito. Não esperávamos o contrário, pois a banda é nova e as canções ainda são desconhecidas. No entanto, no final dos concertos, as opiniões que nos chegam têm sido bastante positivas.

ZP: Não temos nenhum concerto agendado para Lisboa, pelo menos durante o mês de Setembro. No entanto estaremos em Setúbal, dia 16, no ADN Bar, com os nossos amigos Lydia´s Sleep, I Had Plans e Cangarra.

Gravar nos BlackSheep Studios, com o Makoto Yagyu, foi a vossa primeira escolha? Que destacam a nível de trabalho? Em que medida é que vos ajudou a crescer, se é que o fez?

B: Sim, foi a nossa primeira escolha.

ZP: Há um ambiente muito bom no BlackSheep, eles trabalham rápido e têm uma boa visão musical. Algumas músicas do álbum beneficiaram dos conselhos tanto do Makoto como do Fábio Jevelim. Cria-se uma boa atmosfera de trabalho e estes conselhos de pessoal mais experiente ajudam-nos sempre a crescer como banda.

Quais são as expectativas para o álbum de estreia? Ficaram satisfeitos com o produto final? Posso cravar-vos uma promo como aliás já o fiz em Barcelos?

ZP: Neste momento estamos à procura de editoras que nos lancem o disco, tanto aqui em Portugal como lá fora. Estamos muito satisfeitos com o álbum, temos algumas participações especiais que dão um toque peculiar a certas músicas. São dez temas que tencionamos lançar assim que possível. A promo segue em anexo...

Que balanço fazem, no seu todo, destes primeiros meses de “existência”? Há alguém em particular a quem queiram agradecer?

B: Para já tem sido muito positivo, temos conseguido bons concertos e penso que conseguimos criar uma certa expectativa em relação ao que estará para vir.

ZP: Queremos agradecer ao Hugo, por aquele momento especial.

© Raquel Silva

Quem é que vai ganhar o Round 2 do combate Paulo Cecílio vs. Ricardo Guimarães?

ZP: Vai parecer que o Ricardo Guimarães está a ganhar, mas depois chega o Bam Bam Bigallow e dá uma porrada aos dois e ganha os rounds todos.

B: O importante nisto tudo é o fair-play.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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