ENTREVISTAS
Victor Herrero
Narrativa não-linear
· 26 Mai 2011 · 15:55 ·
A história de Victor Herrero é uma história curiosa, um conto cheio de pequenos contos. Começou a aprender canto gregoriano e música moçárabe com monges beneditinos no Vale dos Caídos, em Madrid, passou oito anos numa banda de rock psicadélico e agora agarrou a guitarra espanhola onde deixa reflectir o seu conhecimento e entusiasmo pela música do seu próprio país. Conhecer Josephine Foster mudou-lhe a vida de muitas e várias formas; e o que Victor Herrero é hoje é a soma simples de este e de todos os outros pequenos episódios da sua vida. E tudo isso se sente, se cheira e se bebe na sua música. Para procurar o sentido e a ligação entre todos estes momentos, fomos falar com o próprio Victor Herrero que nos disse, entre outras coisas, que a “poesia” é o que o move, a sua “razão de viver”. No próximo sábado Victor Herrero apresenta-se no Serralves em Festa pelas mãos do Bodyspace.
Entraste na música na tua infância no Vale dos Caídos, numa abadia em que os monges beneditinos te ensinaram o canto gregoriano e a música moçárabe. Que influência desempenha tudo isto na tua música hoje em dia?

Tive a grande sorte de poder aprender uma forte base musical e espiritual vivendo nesta abadia, tinha dez anos quando comecei. Desde então, essa base acompanha-me sempre na música e na vida.

Como foi a tua experiência nos Cicely? O que é que faltava na banda quando tudo se acabou?

Foram anos muito estimulantes, éramos quatro miúdos provincianos, da aldeia, que íamos viver para Madrid, a grande cidade, abríamo-nos ao mundo através da música, a poesia e a arte. De repente descobríamos que se nos abriam milhares de possibilidades, que qualquer um podia criar a sua própria realidade ou sonho. Os Cicely nunca acabaram, transformaram-se em diferentes células… Por exemplo o José Luis Rico, o percussionista é agora mesmo membro da Víctor Herrero Band junto com a Josephine [Foster].


Foi fácil para ti encontrar o teu lugar na música com o teu trabalho a solo? Foi fácil chegar ao som de Anacoreta?

Escrevo canções desde que era criança… Sou um canal, esse é o lugar que me foi encomendado naturalmente na música. Não saberia dizer em valores como é fácil ou difícil, o som de Anacoreta é a cristalização de toda uma experiência.

A música tradicional andaluza tem muita influência no teu trabalho? Como é que descreves a tua evolução em relação à tua relação com a música tradicional andaluza?

Tenho a grande sorte de ir redescobrindo Espanha acompanhado da Josephine. Alguém que descobre com novos olhos uma cultura, sem complexos ou preconceitos, isso ajudou-me a “reconectar” com a tradição e o rico substrato cultural, não apenas da Andaluzia como de todo o meu país. Nos próximos tempos vamos gravar uma nova colecção de canções populares espanholas que são de distintas geografias e tempos, canções muito belas. Neste álbum também toco algumas peças com guitarra portuguesa, já agora.

Pode-se dizer que conhecer a Josephine Foster e tocar com ela foi uma das melhores sortes que o teu trabalho musical conheceu? Como tem sido a experiência até hoje?

Conhecer a Josephine é uma das melhores sortes. A experiência é maravilhosa, musical e vitalmente. É uma grande lua-de-mel cheia de episódios extraordinários.

Li algures que tens um novo disco de canções de autor com influência de música latino-americana em perspectiva. O que é que nos podes dizer sobre isto?

Vou gravar o disco em Agosto em Puerto de Santa María com o Paco Loco. A Josephine [Foster] vai responsabilizar-se pela produção. Não sei dizer muito sobre o disco, não sei muito bem falar de música, o melhor é ouvi-lo quando estiver terminado.


O que é que fazes para além de fazer música? Quais são as tuas outras razões de viver?

É a poesia que me impulsiona e a razão de viver.

O que é que pensas sobre os manifestantes que estão neste momento na Puerta del sol em Madrid? O que pensas da Europa, do rumo que leva a Espanha? Acreditas que temos todos de encontrar uma nova forma de viver no futuro?

Penso que temos de encontrar uma forma mais saudável de viver o presente. A questão dos manifestantes parece-me bem, mas não podemos esquecer que o mais poderoso está nas acções individuais do quotidiano. Tudo está ligado e todos responsáveis.

Tens muitas expectativas relativamente ao concerto no Serralves em Festa? O que é que podes prometer às pessoas?

Às pessoas não posso prometer nada, apenas oferecer a música. Encanta-me Serralves, já lá estive com a Josephine [Foster] há um par de anos. Parece-me um dos melhores festivais, é fantástico e estou muito agradecido de poder participar nele outra vez.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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