ENTREVISTAS
Arborea
As paisagens do Maine chegam a Serralves
· 23 Mai 2011 · 01:11 ·
Os Arborea (dupla constituída pelo casal Shanti e Buck Curran) vêm do Maine, Estados Unidos da América. Praticam uma pop/folk delicada, por vezes etérea, com a voz de Shanti Curran a envolver-nos os sentidos – como algodão que limpa feridas abertas no espírito –, pairando sobre uma filigrana instrumental. Vão aterrar no Porto, num concerto Bodyspace integrado no Serralves em Festa que se realizará no próximo dia 28. Oportunidade para se ouvirem, entre outras, composições de Red Planet, lançado este ano. Uns dias antes do concerto, fomos falar com Buck Curran. A conversa andou à roda da fogueira musical, claro, mas não só: paisagens, paralelismos históricos e viagens foram alguns dos outros temas que estiveram em cima da mesa.
A vossa música transmite uma sensação de paz interior, no sentido de ventre materno, e ao mesmo tempo revela uma ligação quase umbilical à Natureza – presente também em vídeos vossos. Isto faz algum sentido para vocês?

A nossa música é inspirada por lugares em que estivemos ou momentos importantes que temos partilhado juntos: os nossos improvisos, a nossa poesia, fotografia, as paisagens do Maine... as nossas viagens na Europa, a nossa vida familiar e os nossos dois filhos. Durante a nossa digressão no ano passado, pudemos finalmente pegar numa pequena câmara de filmar para criar vídeos para a nossa música. Juntamente com a fotografia e música, com o acréscimo da produção dos vídeos somos capazes de realizar em pleno a nossa visão artística. A música também pode ser a nossa fuga da correria louca da vida. A alma da nossa música é realmente sobre Shanti e eu nos juntarmos para criar... em busca duma rara beleza, com muito espaço e uma atmosfera surreal.

Existe alguma ligação entre ambos os conceitos? A Natureza transmite-vos serenidade e inspira-vos ao mesmo tempo?

Existe uma ligação profunda entre a Natureza e a nossa música. A Natureza inspira a nossa criatividade, que se manifesta através da nossa música, filmes e fotografias. Não diria que é a serenidade existente na Natureza que nos inspira, mas os seus ciclos... com toda a sua complexidade e nuances... e os ciclos da vida. A vida nas cidades pode ser tão dura e ruidosa... com os sons de máquinas e veículos em todos os lugares, as pessoas a falar, todos a deslocarem-se daqui para ali... isto pode causar uma sobrecarga dos sentidos ou mesmo uma perda de sensibilidade, se perdurar por muito tempo. Nos bosques e montanhas, existe actividade a todos os níveis... mas os sons que o vento ou a chuva fazem, os insectos e os animais... tudo é muito mais dinâmico e único. Na praia... o som e a sensação das ondas, da água e da areia. A beleza destes lugares é que neles os teus sentidos podem realmente funcionar num nível totalmente diferente. Outro aspecto é que visitar a natureza funciona como uma pausa agradável em relação à vida urbana, mas viver no meio da Natureza é muito duro e precisas de ter grandes recursos para sobreviver... principalmente para te alimentares e te manteres aquecido durante o inverno. Estar no meio da Natureza faz-te realmente pensar sobre o passado e a nossa ligação com a vida selvagem.


São sobretudo inspirados pelas paisagens do Maine, ou existem outros locais especiais para vocês?

Existem muitos lugares especiais no Maine, mas os dois lugares mais especiais são as terras dos avós da Shanti nas montanhas do Oeste do Maine... é o lugar onde muita da nossa música foi criada e gravada… e o outro lugar é a costa escarpada do Maine, o primeiro lugar onde o Sol nasce no nosso país e onde apreciamos o poder e a majestade do oceano. A arte gráfica da capa dos álbuns House Of Sticks e Red Planet resultou de fotografias tiradas nos nossos lugares favoritos na costa do Maine.

Por vezes gravam numa casa (construída pelo bisavô de Shanti durante a Grande Depressão) no meio da montanha. A música aí surge com uma intensidade diferente?

A pequena casa é uma cabana de caça junto a um lago (ou lagoa, como são chamados no Maine) nas montanhas. Lá estamos livres do barulho das cidades e da vida moderna, e temos mais tempo para nos concentrarmos na música sem distracções. Quando estás lá podes sentir o tempo a abrandar. Helena Espvall e Derek Moench (que tirou as fotos que usámos para a arte da capa do Red Planet) viajaram para o Maine no Verão passado para gravar connosco na cabana. As partes de violoncelo da Helena em “Spain” e “Arms and Horses” foram gravadas lá... mas também passámos tempo a tocar e improvisar e a divertirmo-nos. Também foi muito bom, porque foi em Julho, no pico do calor, e fizemos pausas para nadar ou andar de canoa. À noite podíamos ouvir os sapos a coachar e os mergulhões com os seus chamamentos de caça que ecoam pelas montanhas... tudo isto se transforma numa sinfonia.

Por falar na Grande Depressão: vocês não viveram esses tempos, como é óbvio, mas terão recebido ecos desses anos negros. Agora que estamos às voltas com uma grande crise económica, nos E.U.A. sente-se receio de voltar a bater tão no fundo económica e socialmente? De que modo têm vivido esta época?

Em países como o nosso, que têm um mercado livre, temos a sorte de ter acesso aos bens materiais e outros luxos, mas parece que a vida hoje é conduzida pela necessidade de alcançar ou manter esses bens materiais... carros, casas, alimentos. Os nossos avós viveram a Grande Depressão... e eu sei, por conversar com a minha avó, que eles tinham que viver com pouco, mas ela sempre falou desses tempos como se fossem melhores, menos complicados, com menos distracções. A Shanti e eu realmente não temos conhecimento de outra forma de vida. Passamos a vida a trabalhar no duro e com muito pouco dinheiro. Acho que as pessoas que estão com medo são os que têm medo de perder as coisas que possuem... a maioria dos quais são extremamente ricos. Há e sempre existiu uma enorme clivagem entre ricos e pobres. Levar uma vida baseada no excesso de dinheiro e de consumo geralmente traz à superfície o pior da natureza humana.

A música acaba por ser algo que pode ajudar a combater este clima de ansiedade e insegurança, dando algum conforto e bem-estar às pessoas no seu dia-a-dia?

A música é muito importante e dá mais sentido à vida. Ela transpõe as barreiras de língua, raça, cultura, etc.. A música é a linguagem universal por excelência.

Encontro uma certa dicotomia na vossa sonoridade, entre o brilho e a sombra, como na capa de Red Planet, rasgada por um feixe de luz que rompe com a escuridão. De onde vem isso?

Não há dúvida que existe brilho e sombra na nossa música, e tal vem directamente de todos os elementos em que nos concentramos na criação da nossa música e arte. Ao envolveres-te em fotografia e cinema... percebes que a luz natural e a sombra são tudo. Tal como sucede com a natureza e as paisagens, o cinema e a fotografia também inspiram a nossa música. Há também a alegria da nossa vida familiar, a alegria da criação e da beleza da vida... mas há também a escuridão da vida e a tristeza de quando se perde alguém que se ama. “Arms and Horses” é uma canção que a Shanti escreveu ao reflectir sobre a perda do pai, que morreu inesperadamente alguns anos atrás. Essa música foi escrita durante uma caminhada com a nossa filha. A letra da canção reflecte a fragilidade da vida... e, ao mesmo tempo, coisas como a queda de neve e a sua beleza única e fragilidade. A parte final da letra veio de algo que a nossa filha disse durante caminhada. A certa altura, ela envolveu os braços de Shanti e disse: "Os nossos braços são as rédeas e os nossos corpos são os cavalos". Nessa altura, a nossa filha andava fascinada por cavalos e estava sempre a falar neles... então ela pensou em Shanti e em si mesma como cavalos selvagens galopando através da neve. Outro exemplo é a letra que escrevi para a música “A Little Time”... reflectindo sobre o quão rápido o tempo passa. Começa com a imagem de um floco de neve numa janela e passa para uma jovem mulher, o nascimento de uma criança, o crescimento dessa criança, uma mãe a fazer tartes, e termina com a imagem do floco de neve, antes que derreta.

Arborea é uma comuna italiana da região da Sardenha, de economia muito rural. Foi aí que se inspiraram para o vosso nome?

O nome Arborea vem do latim e está relacionado com as árvores. Eu fiquei inspirado para usá-lo porque quando morava em Dublin, na Irlanda, no final dos anos 90, havia um colectivo de músicos incríveis que se chamavam Arborea. As suas músicas e performances ao vivo combinavam elementos de teatro, rock, música irlandesa tradicional, folk e rap. Quando a Shanti e eu pensamos no nome, ele remete-nos para criatividade ilimitada, arte, música e cinema. Quando ouvi pela primeira vez o nome ele fez-me pensar na beleza intensa e surreal da Aurora Boreal, que vivenciei numa viagem pelo Círculo Polar Ártico quando era mais novo. Como a nossa música é tão intimamente ligada às paisagens do Maine, que é composta principalmente de floresta e da costa escarpada que faz fronteira com o Oceano Atlântico, Arborea parece ser o nome perfeito para a música que a Shanti e eu fazemos juntos.


Não é a 1ª vez que vêm a Portugal. Que recordações guardam do país e quais são as expectativas para esta viagem, não só para o concerto em Serralves como para a estadia?

A Shanti e eu adorámos as nossas breves visitas a Portugal. As pessoas e as paisagens de Portugal são lindas e a vossa cultura é tão rica e cheia de alma. A Shanti e eu tivemos a sorte de celebrar o nosso 10º aniversário de casamento em Lisboa no final de uma digressão europeia. Temos uma pequena mas interessante memória sobre Lisboa: conhecemos um taxista que tinha estado no Maine, e tivemos uma conversa muito agradável com ele sobre a nossa terra enquanto nos dirigíamos para o hotel. Embora tenhamos ido a Lisboa algumas vezes ainda não tocámos lá. Tínhamos um concerto agendado durante a nossa primeira digressão em 2007, mas surgiram complicações e não chegámos a tocar. Tocámos no Fundão e em Faro, em Dezembro de 2008, e foi uma experiência maravilhosa em que conhecemos óptimas pessoas. A gastronomia local das duas cidades também era excelente. Uma coisa muito interessante sobre a nossa vinda a Portugal... depois dos concertos foi-nos dito que a nossa música tem cores e sentimentos semelhantes aos do Fado, de que na altura nunca tínhamos ouvido falar! A Shanti e eu estamos ansiosos para ouvir mais Fado e descobrir mais música portuguesa nesta viagem! Também estamos muito ansiosos para conhecer o Porto. Ouvimos coisas maravilhosas sobre o Porto de outros amigos que tocaram lá.

Sendo americanos, qual é a vossa opinião sobre a morte de Bin Laden? Foi feita justiça, como disse o Presidente Obama, ou o terror alimenta-se de terror?

A política e as agendas das corporações são coisas que tentamos evitar. O que importa para nós são os direitos humanos, a compaixão e a empatia... criar amizades e trabalhar duro para ajudar a construir uma comunidade global melhor. A compilação Leaves of Life, que criámos, é apenas uma maneira de utilizar a música para ajudar os que têm grandes necessidades. Como vemos ao longo da História, as pessoas notáveis e os políticos são uma parte da experiência humana, mas nunca devemos deixar essas coisas consumirem as nossas vidas ou manter-nos afastados das coisas que importam de verdade. Estas coisas que vemos na televisão ou ouvimos falar nas notícias são utilizadas para destruir a nossa individualidade e criatividade. E repara como ano após ano, década após década, nos deparamos com os mesmos cenários. As caras e os tempos mudam, mas os problemas fundamentais parecem sempre os mesmos. A maioria das coisas que vemos na televisão ou nos jornais não passa de uma grande encenação, com a agenda financeira algures nos bastidores a manipular e a ditar a acção.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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