ENTREVISTAS
The Astroboy
Máquina do tempo
· 11 Abr 2011 · 20:47 ·
© Adriano Borges
The Astroboy tem nova vida. E que vida: The Chromium Fence é o melhor regresso possível após algum tempo de pousio durante o qual Luís Fernandes aproveitou para dar de comer ao peixe : avião, um projecto que atingiu um reconhecimento muito interessante em Portugal e que lhe desviu atenções durante algum tempo. Mas no tempo que passou, Astroboy foi colhendo argumentos, pesquisando ora no passado ora no futuro, mergulhando nas maravilhas da ficção científica, e chegou a tempo de estrear a recentemente criada PAD, uma editora partilhada pelos membros dos peixe : avião. Depois de A Derrota da Engrenagem (2007) e 090309 (2009) , The Chromium Fence mostra um Luís Fernandes cada vez mais certo do caminho a seguir, inspirado pelo krautrock, certeiro na gestão de influências e recursos. Para perceber o que move Luís Fernandes, alinhamos numa entrevista que muito revela acerca do processo e da natureza do projecto The Astroboy e da cidade em que se move, Braga.
Passou algum tempo desde o teu disco de estreia enquanto The Astroboy. Porquê?

É verdade. Desde o lançamento do meu primeiro disco fui acumulando outros projectos musicais e com isso deixei deliberadamente de prestar atenção a The Astroboy. Foi algo premeditado pois sentia que o tempo de pausa resultaria numa abordagem mais fresca e clarividente quando decidisse voltar a trabalhar como The Astroboy.

Como foi chegar a este disco? Foi difícil chegar a ele, ou quiseste demorar o teu tempo?

Aconteceu de uma forma muito natural. Durante o período de pausa não deixei de trabalhar em composição no campo da electrónica. Foi até um período fértil no que toca a aprendizagem de novas metodologias e técnicas. Tudo isso contribuiu para eu acumular esboços dessas mesmas aprendizagens e foi por aí que começou a aparecer este The Chromium Fence, principalmente a partir de gravações que vinha acumulando com sintetizadores analógicos. A partir desses esqueletos e da estética que tinha definido como fio condutor do disco construí os temas em relativamente pouco tempo.

© Adriano Borges

O que é que a experiência com os peixe : avião mudou na forma como pensas e vives a música?

O facto de me proporcionar mais tempo passado em concertos e em estúdio, com meios aos quais normalmente seria difícil ter acesso de outra forma, tem sido muito enriquecedor. Tem-me permitido também tocar em palcos bem maiores do que aqueles aos quais estava habituado antes dos peixe : avião existirem. Todas estas experiências levam inevitavelmente a que encare a minha faceta de músico de outra forma, seja no processo de composição, na performance e na forma como penso a música de uma forma geral. A partilha desta experiência com os restantes elementos da banda é também algo que me tem feito evoluir pois todos têm um talento especial com o qual posso sempre aprender um pouco mais.

Alguma vez imaginaste que a banda pudesse ter tanto sucesso?

Gosto sempre de ser ambicioso quando integro um projecto e no caso dos peixe : avião não foi excepção. Por ambicioso refiro-me a querer construir algo que nos deixasse satisfeitos artisticamente e não mediaticamente. Desde que começamos temos focado a nossa atenção essencialmente na música, sem fazer concessões e mantendo sempre a nossa independência total. O melhor exemplo disso é termos decidido criar a nossa própria editora em vez de assinarmos um contrato com uma editora major. A única coisa que não podíamos prever era a reacção das pessoas e foi bom perceber que o público nos acolheu bem.

© Adriano Borges

Com este disco de The Astroboy, até onde queres chegar? Quais são os planos para este disco?

Quero dar a conhecer o meu trabalho ao público que se interessa por esta vertente musical e assim cimentar bases para trabalhos futuros. Gostava também de dar alguns concertos.

Esperas que o facto de fazeres parte dos peixe : avião te traga novo público para The Astroboy ou gostas de manter as duas coisas separadas?

Não tenho intenção de promover The Astroboy utilizando directamente a minha ligação aos peixe : avião embora também não sinta que o deva esconder. O público dos peixe : avião é diverso. Provavelmente haverá pessoas que irão gostar de The Astroboy e outras não irão gostar nada.

Tens agora uma nova editora em conjunto com os restantes músicos de peixe : avião, a PAD. Quais são os objectivos desta plataforma?

Tudo começou com a edição do Madrugada, o último disco dos peixe : avião. Sentimos que a criação de uma editora própria poderia servir, no mínimo, para albergar os nossos projectos paralelos no futuro. A ideia foi crescendo e ganhando cada vez mais sentido. O objectivo principal da PAD é criar um grupo de artistas forte, que veja as suas edições e as suas carreiras potenciadas pelo know-how mútuo.

O que me dizes acerca dos destinos do Theatro Circo? Como é que vês toda a evolução do caso?

A única coisa que eu posso dizer sobre o Theatro Circo é que é lamentável a quebra qualitativa (e até quantitativa) da programação. É triste ver um espaço com tanto potencial ser tão mal aproveitado. O mais triste é que não me parece que o problema seja do programador.


Achas que Braga já teve piores ou melhores dias no que toca à música, a espaços onde tocar, a público para ver esses projectos?

Braga continua a viver um período fértil em termos de produção musical. Já não é só a cidade dos mão morta. Há um conjunto de bandas que conseguiram alcançar alguma exposição mediática nacional como os peixe : avião, Smix Smox Smux e Long Way to Alaska. Todas elas conseguiram isso com mérito próprio e porque produzem musica interessante. Isso é enriquecedor e potencia o aparecimento de novas bandas. Em termos de espaços para tocar o panorama continua a não ser muito animador. O Theatro Circo é pouco acessível para a generalidade das bandas e não existe uma casa de média/pequena dimensão que tenha uma programação regular. Também não é fácil cativar o público para concertos mas com dedicação e trabalho acredito que não faltará público a ninguém.

Achas que existem mais oportunidades agora em Portugal para projectos como The Astroboy? Ou achas que a internet tornou tudo mais possível em qualquer parte do mundo?

Acredito que em qualquer parte do mundo, incluindo Portugal, há publico interessado nesta vertente musical. No entanto, por cá talvez ainda sejam poucos os promotores e programadores a apostar em projectos como The Astroboy, o que torna difícil a marcação de concertos. A focalização de um projecto como The Astroboy deve ser global, utilizando a internet como ferramenta de divulgação. Há publicações orientadas para todos os nichos de ouvintes. Basta procurar e estar atento. Se a música for apelativa acredito que não será ignorada.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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