ENTREVISTAS
Rita Redshoes
Eternamente insatisfeita
· 06 Abr 2011 · 20:53 ·
© Paulo Segadães
Com o segundo disco de originais, intitulado Lights & Darks, Rita Redshoes dá um passo em frente no que toca a assumir a influência que vem de território norte-americano – a música folk e country – na construção das suas canções e do seu próprio imaginário e espaço de criação. Está também, e ao mesmo tempo, muito mais próxima de não ser um fenómeno exclusivamente nacional e de dar o passo em frente porque a sua música, graças à santa universalidade da música pop, pode ser abraçada de forma fácil por virtualmente todas as pessoas neste mundo. Rita Redshoes quer abrir todas as portas, Europa fora, por esse mundo adiante. E quer escrever canções. Todas as que forem possíveis. Quer sonhar, passear pela beira das canções, estar com elas o máximo tempo possível e oferecê-las ao mundo. E depois deixam de ser só suas para serem de quem as quiser. Ao Bodyspace, tratou de dizer que é uma eterna insatisfeita, entre outras coisas que permitem uma entrada favorecida no cosmos que Rita Redshoes quis construir para si.
Como sentes “cá dentro” este novo disco, intitulado Lights & Darks? É um disco que te satisfaz totalmente? Quantas vezes já o ouviste depois de ser lançado?

Este disco foi e continua a ser surpreendente para mim. Foi feito, ao contrário do meu primeiro disco, em poucos meses durante os quais trabalhei das 11 da manhã às 9 da noite praticamente todos os dias. As canções foram aparecendo sem que eu tivesse bem noção para onde estava a ir e por isso mesmo acho que ainda me estou a adaptar a ele. Mas sinto estas canções mais maduras e assumidas o que me agrada no meu processo de crescimento enquanto compositora. No fundo, sinto-me orgulhosa por me conseguir pôr em sítios novos e ir para fora de pé. Talvez nunca venha a ter um disco que me satisfaça totalmente porque sou uma rapariga insatisfeita por natureza e não gosto de me ouvir, portanto não oiço mais os discos a partir do momento em que as misturas estão fechadas.

Quais são os acontecimentos que marcaram de forma decisiva este disco? Consegues traçar esses momentos, consegues retirar do disco esses elementos?

Hum...acho que houve momentos e ambientes que me conduziram a este disco, anteriores à composição propriamente dita. Duas viagens, uma às Maldivas e outra a Florença de onde retirei imensas imagens, umas com um lado mais sofisticado e europeu e outras com um outro mais primário e ligado a uma espécie de pulsação terrestre. Depois, livros...Pela Estrada Fora, O Homem que Morreu e alguns escritos da Anais Ninn.

Sentiste alguma vez que escrever o segundo disco poder-te-ia levar a um bloqueio criativo? Alguma vez temeste a dificuldade secular de chegar ao segundo disco?

Sim, claro. Aliás as duas primeiras semanas foram angustiantes. Não sabia por onde ir e tinha o peso de o meu primeiro disco ter corrido bem. Temi durante algum tempo que já não tivesse mais nada para dizer. Depois deixei-me disso. Deixei-me ir, deixei as imagens e frases aparecerem e as canções começaram a nascer. Se Deus quiser ainda farei muitos discos, daí relativizar o segundo.

O dia em que terminaste o disco, em que deixou de depender de ti; lembras-te desse dia como um dia feliz ou um dia tenso, levemente angustiado?

Eu tenho um funcionamento estranho em relação a isto dos discos. Para mim é um processo semelhante ao de dar à luz um filho. Há o tempo de o sonhar, como é que ele vai ser, a gestação de meses equiparado à parte das maquetas e gravação e o parto propriamente dito. A questão bizarra aqui é que o disco sai logo com 18 anos, vai à vida dele. Portanto tenho um processo de adaptação a essa realidade, uma pequena depressão pós parto. Passando esta fase é pacífico, adoro perceber que as pessoas se apropriam das canções.

© Paulo Segadães

Este é um disco que, musicalmente falando, sobrevoa muitas vezes o território norte-americano e as suas músicas. Andaste por lá com a cabeça nestes últimos tempos?

A folk e o country sempre me ocuparam muito a cabeça e os ouvidos portanto creio que é normal aparecer influências destes dois géneros. No Golden Era já lá estavam mas neste disco acho que são mais claras. Talvez por ter crescido no campo estas sonoridades me pareçam familiares e inevitavelmente me saiam das mãos.

Imagina que tinhas a oportunidade recolocar uma das tuas canções deste disco naquela cena incrível daquele filme que é um dos teus favoritos de sempre. Qual seria a canção, a cena e o filme?

Humm... Tudo o que me ocorre parece-me demasiado lamechas, portanto vou optar por imaginar o Poirot com o seu andar único a caminhar por uma praia com mar das Caraíbas ao som do “It´’s a Honeymoon”. Pode ter vestida uma camisa com flores.

Alguma vez deixas que as tuas canções sejam muito íntimas? Alguma vez sentiste que podiam ser demasiado íntimas e tiveste de voltar atrás?

Acho que não penso muito sobre isso. Vou escrevendo aquilo que me aparece e acho que as letras são uma grande mistura de coisas, pessoas, histórias, sensações, não exactamente algo concreto sobre mim. Mas não me aflige a intimidade exposta musicalmente.

Como é que foi a experiencia na Suécia? Como te sentes a cada vez que se abre uma porta nova na tua carreira?

As minhas experiências fora de Portugal têm sido muito positivas e importantes a vários níveis. Quer seja por perceber que há público para a minha música, quer seja pela aprendizagem de como fazer ou não fazer as coisas. A Suécia tem sido o país onde mais coisas têm acontecido e até agora tem sido bom. Sou uma pessoa ambiciosa e como tal espero vir por aí abaixo, pelo resto da Europa fora, a abrir todas as portas possíveis. Gosto muito de tocar e é isso que quero fazer, logo quanto mais portas se abrirem mais feliz me torno, acho e espero eu!

Qual é para ti a maior recompensa que alguém que grava discos e faz canções pode ter? Há algum episódio recente ou nem por isso que te tenha feito feliz por ter a tua vida ter tomado este rumo?

Para mim as duas coisas que mais me fazem sentir realizada em todo o processo é ter uma sala cheia de pessoas à procura das minhas canções e é muito bonito quando recebo e-mails de pessoas que me dizem que lhes fiz ou faço muita companhia. Ainda esta semana recebi um, comovo-me sempre. Esta sensação de partilha e de entendimento é como uma injecção de certeza em relação ao que se faz.

Já pensas em novo disco? Como combates a ânsia de lançar um disco após o último?

Sim penso, aliás quase mal tinha saído o disco e já estava com ideias de fazer músicas novas. Os concertos acalmam essa ânsia porque as canções começam a ganhar nova vida ao vivo e isso preenche o lado criativo por algum tempo.

Há alguma coisa que gostasses mesmo muito de dizer neste momento que eu não te tenha perguntado? Algo urgente?

É um bocadinho tarde e se me dás licença vou-me retirar porque sou uma rapariga madrugadora.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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