ENTREVISTAS
Botswana
This rock of ours
· 15 Mar 2011 · 00:37 ·
Da mesma maneira que o Botswana país tem vivido um crescimento económico constante desde que se tornou independente do Reino Unido, os Botswana banda têm crescido desde que se tornaram independentes dos projectos dos quais desbocam os cinco membros que constituem este grupo com sede na cidade Invicta, a saber: ALTO!, Throes, Dreams, Green Machine e Crisis. Mas tal como o Botswana é ainda membro da Commonwealth, também os Botswana não se apartam definitivamente destes projectos; antes, encontram neste novo grupo, como nos explicam, uma forma de libertar impulsos criativos distintos. Attila Atlas, EP de estreia que pode ser ouvido e adquirido de forma digital no Bandcamp dos senhores (e senhora), traz de imediato à cabeça o rock segundo a instituição que são os The Fall - especialmente os da década de 80 -, mas não pode nem deve ser reduzido a essa comparação. Prestes a seguir viagem pela estrada, e estreando-se na capital no próximo dia 19, concerto esse que servirá também de apresentação do seu primeiro trabalho, os Botswana, na pele de Marco Castro e João Chaves, respondem às perguntas do Bodyspace e dão-se a conhecer melhor, pouco mais de um ano depois de terem decidido juntar o seu nome à lista de bandas portuguesas a seguir com atenção.
De certeza que já vos fizeram esta pergunta muitas vezes, mas porquê o Botswana?

Marco Castro: É daquelas coisas que não tem grande explicação. Surgiu mesmo antes de termos ensaiado e foi magicado pelo João Pimenta. Acho que todos gostámos imediatamente da entoação do nome e acabou por ficar.

João Chaves: O João Pimenta foi o mentor do nome e quando eu entrei isso já estava escolhido. Não costumo perguntar o porquê dos nomes das bandas, apenas me soou bem.

Cada um de vós tem currículo em várias outras bandas. Que levou a que se juntassem?

MC: Aconteceu depois de Throes ter aberto um concerto de ALTO!, em Vale de Cambra. O João gostou do que fizemos por lá e decidiu combinar uns ensaios por e-mail, trazendo a Sofia a bordo, também. O Chaves acabou por entrar mais tarde na formação, mas integrou-se na perfeição. Acho que se juntou malta que faz coisas muito diferentes umas das outras nos projectos individuais, mas acabou por resultar bem.

JC: Eu acabei por conhecer o Marco porque ele estava à procura de alguém para dividir a sala de ensaios e eu precisava de uma para ensaiar com Dreams. Conhecemo-nos, e algum tempo depois ele disse-me que curtia o meu trabalho e perguntou-me se estaria interessado em adicionar teclados aos Botswana. Experimentámos e deu certo.

É difícil conciliar o que fazem nessas bandas com o que estão a fazer agora nos Botswana?

JC: Não. É algo que se consegue repartir. Quando não estamos a ensaiar com Botswana, há sempre algum tempo para ensaiar com as outras bandas. Existe alguma flexibilidade.

MC: Acabo por ecoar um pouco o que o Chaves disse. E acho positivo uma pessoa ter projectos diferentes, permite libertar impulsos criativos distintos. Há coisas que funcionam para Botswana e não para Throes, e vice-versa. Certamente que sentimos todos um pouco isso, nos projectos individuais.


Nessa mesma onda, poder-se-á dizer que vocês apareceram enquanto Botswana praticamente da noite para o dia - acham que esse "currículo" que já tinham foi essencial para que tenham desde logo causado algum burburinho?

JC: Não me parece. A banda já anda em ensaios desde Fevereiro de 2010 e o EP é editado em Fevereiro de 2011 - um ano depois. Houve bastante trabalho depositado na banda e não foi uma coisa da noite para o dia. Dá essa sensação, porque só nos "mostrámos" recentemente, mas foi algo que nós queríamos... aparecer quando já tivéssemos algo sólido.

MC: A verdade é mesmo essa, a banda existe há um ano e pouco. Houve muito trabalho para encontrar um patamar comum entre todos e um som que fosse mais unânime, algo que não aconteceu nos primeiros meses. Mas também acredito que o facto de já todos termos projectos vindos de trás ajudou na forma como conseguimos propagar as músicas e o nome. Ainda está tudo numa fase muito inicial nesse aspecto, não dá para analisar em grande detalhe para já.

Quase que parece que a OU! Records foi criada de propósito para editar o vosso EP. Era uma ideia traçada à partida, ou foi falta de confiança noutras/por parte de outras editoras?

MC: A ideia nasceu do João Pimenta, a editora é dele. Era algo que ele já queria experimentar há algum tempo e nós achámos por bem apoiar a ideia. É uma experiência que está a correr bem. Já temos os discos nas lojas e nos concertos e temos uma agenda que vai começando a ficar preenchida. Nos dias de hoje é perfeitamente possível qualquer banda fazer isto e nós quisemos experimentar, o que não invalida que se trabalhe com outros meios no futuro. Existem pessoas que trabalham muito bem nesses campos, não se trata de falta de confiança ou interesse.

JC: O João já andava com a ideia de formar uma editora há algum tempo. As coisas aconteceram naturalmente, não se trata de falta de confiança. Como diz o Marco, há pessoas que fazem um óptimo trabalho neste campo e não estamos alheios a isso.


Contem-me como foi o processo de gravação. Sei que foi gravado no Porto e masterizado em Londres. A quem pertence a maior parte das ideias presentes no EP? Há alguma coisa que repesquem dos vossos outros projectos?

JC: O EP foi gravado nos Estúdios Sá da Bandeira, pelo Diogo Oliveira e misturado pelo João Brandão. Em estúdio há sempre ideias a flutuar à medida que se vão gravando as diferentes partes. Cada um contribuiu com a sua, todos fomos falando sobre o que deveria ou poderia ser e foi-se experimentando de maneira a chegar àquilo que realmente pretendíamos. Há sempre influências dos outros projectos, ainda que inconscientes ou subtis, mas que acabam sempre por se adaptar ao trabalho de Botswana.

MC: É exactamente o que o Chaves disse. Houve um espírito colaborativo entre todos. Cada um dá opiniões e ideias sem grandes problemas. Há abertura para corrigir e ouvir o que os outros dizem. Não é o projecto de ninguém, é colectivo. Pessoalmente, tentei distanciar um pouco o som de Botswana do de Throes, uso uma afinação diferente e uma abordagem oposta, mas é óbvio que acaba por cair sempre algum floreado aqui ou ali. Faz parte da pessoa, é normal.

O engenheiro de som que tratou do vosso EP em Londres, o Stuart Hawkes, tem um longo percurso de trabalho, especialmente com artistas de vertente mais electrónica. Ficaram satisfeitos com o resultado final?

JC: Muito. Apesar da sua vertente mais electrónica também já trabalhou com Super Furry Animals e These New Puritans, o que nos impressionou bastante. No final de tudo o resultado foi o pretendido e estamos bastante satisfeitos.

MC: Ficámos satisfeitos. Trabalham de uma forma muito profissional e conseguiram moldar as coisas da forma que pedimos. É sempre bom poder trabalhar com pessoas que já lidaram com artistas que respeitamos e de que gostamos imenso.


Quais são os planos imediatos dos Botswana, a seguir ao lançamento da edição física do disco? Já se pensa em LP?

MC: Para já pensamos em ir para a estrada, ganhar coesão em concerto e dar o melhor espectáculo possível. Mas a verdade é que já pensamos em fazer um álbum. Estamos a apontar para o final do ano, em princípio. É algo que ainda está dependente de muitas coisas. Tanto pode ser adiantado como adiado, mas penso que será uma inevitabilidade.

JC: Acho que não preciso de responder, o Marco disse tudo.

Sentem que, com todas as bandas que têm surgido e festivais que têm tido relativo sucesso, esta é a melhor altura para se fazer música em Portugal?

MC: Creio que é uma óptima altura para se fazer música por cá. É mais fácil de divulgar, é mais fácil de tocar e é mais fácil de atraíres um determinado público. No entanto, ainda acho que seja algo efémero, a maioria da malta faz as coisas por amor à camisola. Ainda é complicado tirar dividendos que permitam que um gajo se dedique por completo a isto.

JC: Acho que a melhor altura é quando tu quiseres desde que haja trabalho e dedicação. É certo que estamos numa altura em que se consome mais música feita em Portugal, mas também grande parte dela apenas é consumida por "likes", porque no que toca a concertos e compra de álbuns a coisa já não é bem assim.

E, claro está: imaginam-se a tocar no próprio Botswana?

MC: Claro que não. Ainda éramos devorados por tigres. Se bem que até soa engraçado.

JC: Óbvio que não, se bem que com tudo pago não me importava.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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