ENTREVISTAS
Mão Morta
Revisitada
· 28 Fev 2011 · 00:00 ·
© Nuno Borges de Araújo
Em semana de Fantasporto (dia 25 marcou o arranque oficial do emblemático festival de cinema fantástico da Invicta) e uns dias após o seu clube ter dado novo passo em frente na Liga Europa, o Bodyspace apresenta um exclusivo com Adolfo Luxúria Canibal. O carismático vocalista dos Mão Morta, que comemoraram as Bodas de Prata no ano passado com o lançamento de Pesadelo em Peluche, falou de tudo um pouco até ficar quase sem bateria no telemóvel, numa conversa em que não se deu pelo passar do tempo. Como no palco, limitou-se a seguir uma regra simples: não deixar nada em suspenso, assumindo as suas posições e respectivas consequências. Falou de música e chegou a Budapeste; passeou-se pela actualidade internacional e partilhou gostos pessoais, até chegar à actividade como jurista apaixonado pela área do ambiente. Talvez uma das mais extensivas entrevistas concedidas pelo multifacetado músico, que ao fim de décadas de carreira mantém intacto o impulso criativo.
Os Mão Morta vão dar um concerto no Rivoli, inserido no programa que lança o Fantasporto. Que memórias guardas da sala portuense?

Nós já tocámos várias vezes no Rivoli. Recordo-me sobretudo de dois concertos. Um foi o lançamento do nosso primeiro álbum, em 88, tocámos com os Pop Dell'Arte, e outro foi a primeira parte que fizemos para o Nick Cave, na primeira vez em que ele e os Bad Seeds vieram a Portugal.

Deve ter sido um prazer especial abrir os concertos para o Nick Cav, que era uma referência para vocês.

O Nick Cave era e continua a ser uma referência para nós. Essa foi uma situação muito agradável para nós, não só porque estávamos todos satisfeitos por fazer as primeiras partes da primeira vinda dele a Portugal, mas sobretudo pela surpresa de, ainda em Lisboa, o Mick Harvey e o Nick Cave terem ido de propósito ao nosso camarim cumprimentar-nos e dizer que tinham gostado muito do concerto, que tinham ficado embasbacados. Estavam em tournée, tinham feito os Estados Unidos e outros países e não tinham encontrado uma banda tão boa como nós. Claro que isso nos deixou todos embevecidos e orgulhosos.

Voltando ao concerto que vão dar no Rivoli – "Mão Morta no País do Fantástico". Porquê a homenagem a algumas figuras míticas do cinema fantástico?

É uma forma indirecta de homenagear o Fantasporto, que é uma referência do cinema fantástico em Portugal e no estrangeiro. Houve muita coisa que descobrimos através do Fantas e aproveitámos esta oportunidade única para homenagear o festival.

Tu ou outros elementos de Mão Morta têm algum fascínio especial pelo cinema fantástico e respectivo imaginário?

O cinema fantástico é um termo muito vasto, e a própria programação do Fantas espelha bem isso. Há coisas de que não gosto particularmente, como os filmes mais de terror psicológico, mas há outras coisas que acho fabulosas. Acho piada a algumas coisas do gore, pelo lado excessivo, como a algumas coisas de mortos-vivos.

Tens alguns realizadores ou actores de referência na área do fantástico?

Não tenho propriamente. O Romero tem um filme excepcional, que é A Noite dos Mortos-Vivos, mas o resto da sua filmografia não é nada de especial. E isso é um bocado o espelho do género. Há realizadores que fazem um filme fabuloso e depois o resto já não é muito interessante. E há realizadores de outras áreas que fazem um filme fabuloso no campo do fantástico, mas não são propriamente referências do fantástico. Aquele que está no campo do fantástico, embora já nas periferias do género, e tem uma actividade mais regular e com uma qualidade consistente será, provavelmente, o Tim Burton.

É um realizador que te agrada?

Eu gosto de grande parte dos trabalhos dele, mas nem de todos. Por exemplo, achei o Alice muito fraco, mas tem belíssimos trabalhos, como o Eduardo Mãos de Tesoura, por exemplo.

Os Teratron também vão actuar no Rivoli nestas noites que antecedem o Fantas. Entusiasma-te este novo projecto?

Sim, eu gostei da ideia que me apresentaram, do lado multidisciplinar que queriam para este disco, e era um desafio novo escrever uma história com um número determinado de capítulos que pudesse ser desenvolvida em letras e abrir espaço para a criação duma banda-desenhada e um filme. Embarquei na história com todo o prazer e embrenhei-me nela intensamente. Gosto muito das ilustrações do João Maia Pinto, vi ontem a estreia do filme e achei-o interessante. Achei, também, interessante a maneira como os diversos letristas e vocalistas trabalharam a história, imprimindo uma densidade psicológica aos diversos momentos do personagem. Acho que o projecto foi muito bem conseguido.


De Ballard a Budapeste


Vocês costumam ter capas com imagens apelativas. Como surgiu a ideia para a capa do Pesadelo de Peluche?


Trabalhando o Ballard, e sendo este contemporâneo da Pop Art, fomos à procura de imagens que permitissem fazer uma espécie de colagem que jogasse com as ideias da Pop Art. De repente, no meu arquivo de fotografias de telemóvel, encontrei esta fotografia duma montra dum grande armazém de Paris, transformada em quadro natalício em movimento como forma de atrair as famílias e, sobretudo, as crianças. Aquela foto tinha em si as ideias da Pop Art, as cores, a plasticidade, e jogava com a ideia das pinturas clássicas da Capela Sistina, tal como foram reavivadas na grande recuperação feita pelos americanos nos anos 80, um bocado ao que era o gosto dominante do público na época, com essa grande vivacidade de cores.

Pegando na questão das capas, como encaras o "regresso" do vinil?

Acho importante ele ter ganho o seu estatuto de nicho de mercado, até porque o vinil, reproduzido nas mesmas condições dum cd, tem muito melhor som do que um cd. Em relação às capas, já homenageámos as capas em vinyl quando lançámos a edição especial do "Mutantes S21" com banda-desenhada. A capa do vinyl é (ou pode ser, pelo menos) uma obra de arte pelo tamanho que tem e as possibilidades gráficas que dá. Na caixa dum cd precisamos sempre duma lupa.

Como já referiste, o "Pesadelo de Peluche" teve como fonte de inspiração o Athrocity Exhibition, de J. G. Ballard. Como surgiu isso?

O Ballard já era uma referência; aliás, já o tinha trabalhado nos Mécanosphère. Quando decidimos partir para este novo disco tínhamos uns timings muito apertados e precisávamos dum parâmetro onde nos pudéssemos envolver, apesar da nossa separação geográfica. O Ballard surgiu logo como a coisa mais fácil por estar por dentro da escrita dele e ter esse livro – que não está editado em Portugal e consiste em pequenas narrativas, "romances condensados" como ele lhe chama, que giram em torno das alterações psicológicas provocadas pela linguagem de massas e a vivência altamente tecnológica do mundo moderno – como uma grande referência. Ainda por cima, é um livro de meio de carreira que condensa os outros livros do Ballard. As sementes e as ideias estão todas ali.

Os Mão Morta focam muito o tema da força dos meios de comunicação social e da manipulação mediática. Consideras que o quarto poder é mais um poder ao serviço dos poderes ou um contra-poder?

Se fores à História da imprensa tens exemplos de denúncia de situações e casos de concentrações dos media nas mãos de grupos económicos, que fazem reflectir a voz do dono, o que cria uma barreira difícil de transpor, apesar da suposta liberdade de imprensa.

Muitas vezes vocês partem de conceitos literários ou filosóficos, o que confere aos álbuns de Mão Morta um carácter de certa forma conceptual…

Isso tem a ver com uma questão prática. Como estamos dispersos geograficamente, trabalharmos uma matéria comum ajuda a anular essa dispersão. Trabalhando cada um no seu canto, haver um livro, ou um autor, ou uma obra que todos conheçam ou percebam ajuda a que não exista essa dispersão e todos trabalhem na mesma sintonia de onda. E é mais fácil trabalhar coisas externas à música, porque assim não se arrisca fazer decalques sobre a matéria-prima ou o modelo.

Vocês recorrem muito à tecnologia para compor, uma vez que estão separados geograficamente?

Sim, actualmente compomos à distância, trocando ficheiros pela net, e quando temos as coisas quase em maquette é que vamos para estúdio. Quando começámos a ensaiar este último disco, já ele estava gravado e editado.

Destacas outros livros do Ballard, além do Athrocity Exhibition?

O "Aparelho Voador a Baixa Altitude", do qual foi feito um filme duma realizadora luso-sueca, Solveig Nordlund; e há coisas mais recentes, a ver com a revolta da classe média em estâncias balneares, ou entre os inquilinos de condomínios fechados de Londres, com todos os massacres que se dão. É um novo passo na perspectiva da psicose que o mundo moderno traz a pessoas à partida insuspeitas, neste caso indivíduos de classe média e alta numa vivência quotidiana de bairro ou de férias.

Podes dar-me alguns exemplos de outros livros ou escritores de eleição?

Se começasse, nunca mais acabava!... (risos). Além dos que já referenciámos em discos ou canções, há um autor egípcio, editado em Portugal pela Antígona, Albert Cossery, que tem uns livros passados no bas fond egípcio, sobretudo do Cairo, que são duma grande riqueza de vida e humor sarcástico e a sangue-frio fabulosos. Quando vejo o que se está a pensar no Egipto, estas manifestações, lembro-me sempre dele. Nos livros dele há pequenos actos de revolta pública que têm um bocado a ver com esta forma como se põe em causa o Mubarak e o poder ditatorial egípcio. A relação entre arte e realidade é sempre muito estranha.

Como olhas para o que se está a passar no Egipto?

Eu acho óptimo o que se está a passar no Egipto e no Norte de África na generalidade; o que se passou na Tunísia… Olho para aquilo, e de certa forma faz-me lembrar o nosso 25 de Abril ou a queda do fascismo noutros países. São regimes ditatoriais apoiados pelo Ocidente porque interessa uma estabilidade na religião e, sobretudo, uma espécie de escudo contra o aumento e domínio do fundamentalismo islâmico e, portanto, não se importam de apoiar regimes ditatoriais. O Ocidente tem um certo receio de um eventual vazio de poder nesses países. O mesmo medo que se tinha em Portugal quando caiu o fascismo. Como se esses povos brutos e iletrados não soubessem viver em liberdade e precisassem dum ditador. Existe esse risco de se aproveitarem do vazio do poder e surgir uma ditadura islâmica, como acontece no Irão, mas prefiro, ainda assim, que haja esta libertação, este experimentar a liberdade que está acontecer.

Passando do Cairo para Budapeste, que já visitaste várias vezes e foi homenageada num "hino" dos Mão Morta. Que impressões tens desta cidade?

Budapeste é considerada a Paris do Leste. É uma cidade bonita, sobretudo o lado de Peste. Após a queda do Muro de Berlim, que foi a primeira vez em que a visitei, estava ansiosa pelo Ocidente e importou tudo ao mesmo tempo, estilos musicais diversos sem fazer distinções. A noite de Budapeste já funcionava com bares, concertos. Passavam tudo, de todas as épocas, e era muito engraçado. Havia uma grande vontade de fazer coisas como Londres, Nova Iorque, Paris e Berlim. E as coisas muito naif mas muito criativas. Agora Budapeste está muito no espírito de Berlim, com bares cheios de criatividade, ocupação de edifícios devolutos, velhas fábricas, decoração feita de materiais ad hoc reutilizados com muita imaginação, nos tectos, nas paredes, fora do seu uso habitual. Transformar uma cadeira numa escultura, por exemplo, é quase como transformar um urinol numa escultura. Budapeste tem muito isso, e continua a ter bastante rock, embora agora também tenha música de dança e já se distinga mais quem segue cada um dos diferentes estilos. Em 89/90 era tudo juventude sequiosa de Ocidente e não havia classes nem sectarismos.

Regressando ao Pesadelo de Peluche, o tema "Teoria da Conspiração" contém muito o impulso urgente do punk. Foi quase um regresso aos tempos em que viste os primeiros concertos em Lisboa, na António Arroio e nos Alunos de Apolo?

É mais techno-punk, do início dos anos 90. A ideia deste disco em termos musicais, como estávamos a tratar o Ballard e ele fala da homogeneização e dos ícones mediáticos, dos gostos dominantes, passou por concentrarmo-nos em algumas tipologias típicas do rock, e fomos jogar com esses clichés e tipologias. A "Teoria da Conspiração" é um exemplo, mas quase todas as canções deste álbum são brincadeiras sobre diferentes clichés e tipologias do rock nos últimos 20/30 anos.

Ainda a propósito deste tema, como é que se consegue manter esta voltagem ao fim de tantos anos?

Como nós estamos na música por prazer, e esse prazer é mantido por uma procura e uma descoberta constante, isso reflecte-se na composição da nossa música. Acho que é isso que nos mantém de certa forma relevantes. Não nos repetimos, não fazemos as coisas só por fazer, porque está na altura de fazer um novo disco, porque é preciso mais lenha para alimentar concertos. Fazemos as coisas porque temos necessidade de as fazer, de procurar novas coisas, de encontrar novas formas de trabalhar. Isso reflecte-se na urgência e frescura do que fazemos.

Nesta fase o que te dá mais gozo: o estúdio ou os concertos?

A mim dá-me prazer tudo. A diferença não é bem entre gravações e concertos, tem mais a ver com os momentos. Há dias em que tenho um concerto e estou com outras preocupações, por isso apetecia-me fazer tudo menos um concerto. Acontece. Mas há dias em que um concerto é a melhor coisa que me podia acontecer e vou para o concerto cheio de prazer e vontade, e não havia nada que me apetecesse mais no mundo do que dar um concerto. Em estúdio é a mesma coisa. É um trabalho mais frio, mas dá-me um gozo muito particular. Não propriamente aquelas longas sessões de espera pela nossa vez para pôr a voz ou coisa parecida, mas o lado mais bricolage de estar a construir um tema, a fazer uma letra, ver como aquilo fica a soar. E, se pudesse, também passava a vida nisso. Noutras vezes não me apetece nada ir para o estúdio. Está um dia bonito, não apetece enfiar-me entre quatro paredes escuras e estar lá a ouvir sons. Apetecia-me era estar cá fora, a apanhar Sol ou a beber uma cerveja.


E depois há ainda a parte da composição…

É aquela parte que a gente só faz quando lhe apetece mesmo. Por isso dá sempre gozo. Recebo hoje o ficheiro da base duma música para fazer, por exemplo, uma letra e, se naquele dia não me apetece, não faço. Faço no dia seguinte. Aí sento-me, começo a ouvir e a ter ideias e começo a escrever; e as coisas começam a sair bem ou a sair mal. Mas todo esse lado criativo, de sentir que está ali qualquer coisa a ser formada, é uma coisa que também me dá muito prazer.

A adrenalina dos concertos leva por vezes a situações-limite, quer por parte de quem toca quer do público. Como se reage quando uma fã sobe ao palco e destapa os seios ou nos tenta fazer sexo oral, ou como é que és levado a tomar certas atitudes?

O palco tem uma regra muito simples: não podes deixar nada a meio. Tens que assumir as coisas. E isso tanto é válido para um erro, num solo de guitarra ou numa vocalização, como para qualquer acontecimento exterior. As coisas não podem ficar no ar, sem sequência. A partir do momento em que se cumpre essa regra, nunca se sabe quais são as consequências finais a que isso nos pode levar. Mas ao menos temos a certeza que as coisas ficam intensas. O momento dum concerto é um momento colectivo e essas consequências são sempre colectivas.

Podes partilhar alguns concertos que viste e te tenham marcado especialmente?

Muita coisa, E nem sempre é pela qualidade da música. O concerto de estreia dos Xutos, em 79/80, em Lisboa, foi excepcional, não pela qualidade da música ou encenação, mas pela adrenalina e abismo. Foi daqueles que me ficou para o resto da vinda. Ainda hoje falo nisso. Das bandas estrangeiras, os concertos do John Cale são happenings autênticos, apesar de ele tocar praticamente as mesmas músicas há anos. Ouvi-lo a solo a atingir o orgasmo é qualquer coisa inesquecível. São pessoas que se dão a 100% em cima do palco. Os concertos são muito mais do que mera audição de música. Já vi concertos de músicos que adoro, e chego ao fim e foi muito bem tocado, o som estava óptimo, não houve enganos, mas o concerto deixou-me um certo vazio porque não aconteceu nada. O artista limitou-se a reproduzir fidedignamente e com as melhores condições possíveis a música que já tinha gravado. Chego ao fim do concerto e quando me perguntam se gostei, digo: «Foi belíssimo, óptimo, muito bem tocado… mas já me esqueci!».

Quais são as maiores diferenças que encontras entre os concertos em Portugal de há umas décadas atrás e os de agora?

As maiores diferenças são de carácter técnico. Deixaram-se praticamente de fazer concertos em pavilhões, que ofereciam na maior parte condições acústicas terríveis, e no equipamento, que agora é muito melhor. Isso permite perceber muito melhor o que se está a cantar e a tocar. Quanto aos concertos em si, a maior diferença é que antigamente havia uma maior virgindade do público português relativamente a concertos, de maneira que havia uma maior euforia. Hoje há uma maior habituação, por isso as pessoas não ficam eufóricas por dá cá aquela palha.

Pegando noutra faixa do último álbum, a letra do "Tiago Capitão" é sobre oportunismo político?

É um bocado. Os maoístas eram mais moda do que trabalho político estruturado e, com o avançar da história, muitos desses antigos maoístas viraram dirigentes de partidos mais da direita ou do centro. Há um percurso típico dum ex-maoísta que sublinho nesse início.

Como te posicionas hoje, politicamente falando?

Posiciono-me à margem! (risos)

Votaste nestas últimas presidenciais?

Não, e pelos visto se quisesse também não conseguia… (risos)


Música Portuguesa – do boom dos anos 80 à fase actual

Se calhar, desde a altura do boom inicial da música moderna portuguesa nunca se voltaram a viver tempos tão ricos, em quantidade e qualidade, como agora. Concordas?

Sim, em termos de pop/rock, há muito tempo que não havia. Nos anos 80 houve um grande boom criativo, nos anos 90 esse boom criativo foi-se por água abaixo, mas por outro lado ganhámos uma grande consistência em termos técnicos. E os tempos actuais são um bocado síntese disso tudo. Há criatividade e sustentabilidade técnica. Actualmente vivemos numa boa altura.

Existem alguns projectos actuais que te agradem particularmente?

Existem, inclusive cá de Braga, como os peixe : avião. Também muita coisa de Coimbra – os projectos do Paulo Furtado são muito interessantes.

Qual é a tua opinião sobre esta nova vaga de cantautores nacionais, como o B Fachada, o Samuel Úria, o Tiago Guillul?

Passa-me um bocado ao lado. São um fenómeno um bocado lisboeta, empolado pela comunicação social, que está toda em Lisboa. Se fosse em Leiria ou em Setúbal, ninguém iria ouvir falar disso. Tiveram a felicidade de estar em Lisboa, senão não tinham o impacto que têm.

Como é que olhas para programas como o "Ídolos" e o "Portugal Tem Talento"? Podem ser um ponto de partida para os músicos ou é construir uma casa a partir do telhado?

Aquilo são programas de entretenimento, não são programas de música. Podem criar portas para intérpretes, boas vozes, mas não criam músicos. E nem há muito espaço no panorama musical português para intérpretes. A maior parte dos nossos músicos são compositores e intérpretes.

O que tens ouvido e comprado mais recentemente?

Sobretudo coisas mais antigas, para preencher lacunas e também porque normalmente têm preços mais acessíveis. Quanto às coisas actuais, prefiro deixar assentar a poeira para decidir se vale ou não a pena ter. Embora não seja uma descoberta assim tão recente, os Black Angels foram a última grande descoberta do que se vai fazendo actualmente. O último disco deles, embora não seja para mim tão interessante como o anterior, continua a ser um grande disco. Tenho andado a ouvir colectâneas, de novidades para 2011, dos melhores do ano passado e de blues.

A Cidade dos Arcebispos já não vive à sombra de Deus

Foste e continuas a ser um músico de vanguarda na conservadora Cidade dos Arcebispos. Como é que vês a evolução de Braga desde os tempos em que começaste na música até agora?

Braga mudou muito, cresceu imenso. Apesar de continuar a ser uma cidade cheia de igrejas, já não é aquela pequena cidade que vivia à sombra de Deus. Tem muita gente vinda de fora, muita gente vinda do Interior. De maneira que não é uma cidade cosmopolita, cheia de cultura, mas não tem nada a ver com aquela pequena cidade onde toda a gente se conhecia.

Os Mão Morta ensaiam no Estádio 1º de Maio, em Braga. Como vês essa possibilidade que é dada às bandas locais para terem um sítio onde ensaiar e partilhar experiências?

Isso foi das melhores iniciativas da Câmara Municipal de Braga. Aproveitar o facto de ter um estádio vazio para lhe dar algum uso, e pensar que sob as bancadas podiam ser criadas salas de ensaios para bandas, que não tinham outros sítios com condições onde ensaiar. Neste momento há filas de espera enormes com pedidos de salas.

Isso também mostra que a cena musical em Braga está efervescente…

Está. É engraçado… entra-se na sala de ensaio e está sempre alguém a ensaiar. As pessoas encontram-se nos locais comuns, trocam-se ideias e surgem grupos – peixe : avião, por exemplo, surgiu numa dessas salas de ensaios pelo contacto de membros de diversas bandas que lá ensaiavam. As coisas acabam por dar o seu fruto.

Por falar em estádios, o Miguel Pedro (bateria) é Presidente da Assembleia Geral do Braga. Ligas alguma coisa ao futebol?

Sim, gosto de futebol, como gosto de outros desportos, nomeadamente ténis, e ligo ao Braga. Gosto que ganhe e gosto de ver as festas que acontecem quando ganha.


Faceta profissional & last few words

Passando da faceta musical para a profissional. Especializaste-te em Direito do Ambiente. Houve alguma razão para te especializares nesta área?

Foi um mero acaso. Fui para o ambiente porque o meu pai trabalhava nessa área, como administrador florestal, e tinha contactos; e o primeiro trabalho que arranjei foi no ambiente. Gostei de trabalhar na área e o gosto já vinha de trás. Vivi em Vieira do Minho, estava ligado às questões da conservação por intermédio da família. Era uma área para a qual eu já tinha alguma sensibilidade. Para mim, este não é um emprego como outro qualquer. Gosto daquilo que faço e acho importante o que faço, os princípios que o regem e para os quais dou o meu contributo. A questão ambiental é a questão fundamental dos nossos tempos, a questão da água, por exemplo, a conservação do planeta nas suas diversas facetas.

Como é que vês a realidade do ambiente em Portugal?

Eu estou mais ligado à área da conservação da natureza. Portugal avançou muito desde que comecei a trabalhar na área, nos finais dos anos 80, mas num país que tem problemas de desenvolvimento económico esta área é sempre o patinho feio das políticas governamentais. Se não houvesse uma Comunidade Europeia que pugna pelo cumprimento de certas regras mínimas, acho que essas regras mínimas nem seriam cumpridas porque na perspectiva governativa há coisas mais importantes do que proteger espécies e habitats.

Continuas a pensar que a arte ou é revolucionária ou não é nada?

Sim, não há sombra de dúvidas. Mas não na perspectiva de militante ou propagadora de ideias sobre a revolução. Revolucionária porque vem introduzir alterações à disciplina, fazendo-a avançar. Se não trouxer nenhuma novidade, nenhuma mudança de enfoque, não é arte, limita-se a repetir um cliché.

Achas que o Joaquim Pinto tem cara de baixista?

O Harry Crosby dizia que sim. Mas com cara de baixista ou sem cara de baixista, o certo é que pegou num baixo e formou uma banda que ainda dura.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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