ENTREVISTAS
Orelha Negra
Como carne para canhão
· 06 Dez 2010 · 22:55 ·
São uma das grandes surpresas nacionais de 2010. Nasceram quase de um dia para o outro, ou então confundimos a data de nascimento com o furor da chegada, e assinaram um dos discos mais surpreendentes do ano no que toca à música portuguesa. Mas não se ficaram por aqui. Recentemente, Dj Shadow, certamente uma referência para este clube dos cinco, elogiou de forma bastante convincente o trabalho dos, podemos dizer agora, Orelha Negra. Apesar da ascensão meteórica, os Orelha Negra são mais do que a soma das suas partes. Chamam-lhe supergrupo e com razão; Francisco Rebelo, João Gomes (Cool Hipnoise), Sam The Kid, Fred (Buraka Som Sistema) e DJ Cruzfader (que é como quem diz Cruz (DJ/ scratches), Ferrano (bateria), Gomes Prodigy (teclados, sintetizadores, composições), Mira Professional, (sampler de voz/MPC, composição, sintetizador) e Rebelo Jazz Bass (baixo, guitarra)) são os nomes por detrás das máscaras que, em boa homenagem à nobre tradição de sleeveface, se podem ver nas fotografias promocionais que servem o disco de estreia, homónimo, que apresenta um resultado entusiasmante de uma busca pela soul e funk dos 60s e 70s que é como carne para canhão. Mas sempre sem esconder uma saudável portugalidade. Fomos descobrir mais acerca dos Orelha Negra numa entrevista que esclarece tudo e mais alguma coisa.
Há quanto tempo andavam a magicar este encontro? O que nos podem contar acerca do nascimento dos Orelha Negra?

Ferrano: Os Orelha Negra nasceram durante a digressão de promoção do álbum Pratica(mente) do Sam the Kid. Durante os concertos e ensaios de som fomos fazendo umas jams. Quando acabou a digressão fizemos uns ensaios e as coisas começaram a definir-se. Depois surgiu o nome, as músicas, começámos a tocar ao vivo.

Os Orelha Negra são também a celebração do crescer de uma certa música urbana em Portugal?

Ferrano: Nunca pensamos nas coisas dessa forma. Todos nós temos ligações ao Hip Hop e a outros géneros que são considerados música urbana.

Rebelo Jazz Bass: Penso que todos nós, ao longo das nossas carreiras como músicos, durante estes últimos 10, 15 anos, entre discos, concertos e outras iniciativas onde fomos estando envolvidos, ajudámos e demos passos importantes na construção de uma ideia de música urbana neste país. Os Orelha Negra são mais um passo nesse sentido.


Sentem que há mercado para os Orelha Negra em Portugal? Têm tido feedback positivo nesse sentido?

Ferrano: Ter uma banda instrumental, num país que nunca teve muito essa tradição, por vezes pode ser complicado. Nós, felizmente, temos tido sempre um grande feedback, quer nos concertos que temos realizado como em críticas ao disco. Se por um lado nos parece que o público ainda acha um pouco estranho estar num concerto sem vocalista, por outro parecem ter vontade de se envolverem e descobrirem o que queremos dizer com o disco. Ao vivo já sentimos que há pessoal que conhece as músicas, que dança e até canta algumas vozes dos samples…

Como foi o processo de gravação do disco, foi difícil apurar este som ou existiu desde cedo uma intensa empatia musical? Já disseram que terá começado tudo na gravação do último disco do Sam the Kid…

Ferrano: Já nos conhecíamos todos de nos termos cruzado por outros sítios. Desde que começámos a tocar com o Sam The Kid surgiu uma empatia entre nós, pelo que todo processo construção deste disco até foi fácil, temos todos personalidades musicais complementares... Mais complicado foi talvez o processo de gravação, principalmente os beats com as baterias, queríamos que não se sentissem muitas diferenças e que ambos tivessem força. Com a ajuda do Hugo Santos, do Nelson Carvalho e do Zé Nando Pimenta conseguimos chegar ao que pretendíamos.

Rebelo Jazz Bass: Este talvez tenha sido, de entre os discos em participei, o mais fácil de fazer de todos. O processo foi muito intuitivo e á medida que íamos decidindo os temas, fomos sempre encaminhando as coisas para um tipo de arranjos e instrumentações, que nos permitissem tocar os temas ao vivo facilmente. Fomos sempre fazendo as coisas em conjunto, tocando os temas do princípio até ao fim, que é normalmente o processo que qualquer banda de rock’n’roll utiliza. Não quisemos entrar na onda do sequenciador e depois indo fazendo experiências com rato e Midi. Criámos os temas a tocar em grupo, e arrancámos para o showbizz com o concerto do Musicbox. Uma semana depois começámos a gravar em estúdio as bases de bateria, baixo, teclas e sampling, e depois em função de cada música acrescentámos o que achámos que poderia complementar o arranjo e conceito sónico e estético para cada tema.

Ouvi dizer que gravaram 80 canções antes de surgir esse disco. Foi fácil o processo de selecção, de escolhas? O que pretendem fazer com o que restou?

Gomes Prodigy: Na verdade eram uns 80 esboços de temas, não "canções". Desses 80, escolhemos uns 12 para trabalhar, com o objectivo de os transformar em canções. Temos essas gravações guardadas, e nunca se sabe, pode ser que qualquer dia façamos alguma coisa com elas, mas parece-me que da próxima vez que nos juntarmos para compor, vamos é fazer mais umas 80.

As vossas fotos promocionais usam o Sleeveface como elemento estético, que esconde as vossas caras. Apreciam essa ideia de semi-anonimato, por achar que cria um distanciamento das pessoas e uma aproximação mais directa da música?

Gomes Prodigy: Exactamente! É mesmo isso. E sublinhamos isso, escondendo-nos atrás das imagens da música - as capas de discos. O Sleeveface é uma coisa a que nós sempre demos atenção. Seguíamos alguns sites de sleeveface, que é algo muito espontâneo, e achámos que faria sentido aparecer dessa forma, para que as pessoas, nesta primeira fase, ouvissem a música primeiro e depois nos vissem a nós, uma vez que todos tínhamos um passado na música. Foi um grande trabalho do Pedro Cláudio e, ainda hoje, recebemos tantos elogios ao trabalho gráfico do disco como ao musical.


Essa escolha será também uma forma de promover o regresso do vinil? Sentem essa missão, sentem que isso é mesmo possível?

Gomes Prodigy: Hoje em dia, já se vê mais gente interessada no vinil, porque os amantes desse formato são, de uma forma geral, pessoas que dão muito mais importância à música do que o habitual comprador de CDs. Se as vendas de CDs, nos últimos 10 anos caíram a pique, os fãs do vinil mantiveram-se fieis, depois da grande quebra com a transição do vinil para o CD. Claro que não imaginamos que o vinil volte a ser o principal formato, por nós, só queremos ter a oportunidade de o continuar a comprar e usar. Isso, sentimos que é possível, e nesse sentido é de facto um tributo que fizemos ao vinil.

Ferrano: A música é um pouco por ciclos, agora está a voltar aquela onda dos anos 60/70, aquele som retro, e mais edições e re-edições em vinil. Por sermos todos amantes de vinil, decidimos fazer nos dois formatos, sendo que vinil foi uma edição limitada.

Foram samplar o Henrique Mendes, Fernando Tordo e o Júlio Isidro em vez de irem samplar a Nina Simone ou a Fontella Bass. Quiseram assumir essa portugalidade de forma afirmativa e convicta?

Gomes Prodigy: Não. Gostamos de usar samples tugas, porque são referências que fazem parte do nosso mundo musical, e que nós gostamos de elogiar. Tal como as referências á música negra, e um sem número de "tools" que usamos para fazer a nossa música, que podem vir de qualquer lado desde que nos sirvam naquele momento. Somos Portugueses, de uma cidade chamada Lisboa, num continente chamado Europa, num planeta chamado Terra.

Se tivessem de escolher amanhã entre gravar discos e dar concertos, o que escolheriam? Onde está para vocês o maior interesse entre os dois?

Ferrano: Acho que escolhíamos gravar um disco ao vivo. São duas coisas completamente diferentes. Existe uma enorme magia na criação de um disco, todo o processo de criação, gravação e mistura é uma coisa especial, mas tocar ao vivo é igualmente especial. São dois lados distintos, que se completam um ao outro.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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