ENTREVISTAS
Black Mountain
Fé que move montanhas
· 02 Nov 2010 · 20:37 ·
Ao terceiro disco, os Black Mountain afirmam-se como um dos nomes maiores de um certo rock devoto e apaixonado pelos riffs de grande porte nascidos algures entre o final dos anos 60 e uma boa parte dos anos 70. Cada vez mais dedicados à canção enquanto motor de arranque para explorações maiores (onde cabe naturalmente o psicadelismo), os canadianos conseguem com o recentemente editado Wilderness Heart (com selo da Jagjaguwar) abrir o cabaz sonoro da banda sem lesar a sua identidade e sem ocultar influências notórias e outras fontes de inspiração. De Vancouver para o mundo, a banda liderada por Stephen McBean está a tentar unir as pessoas através da música (ou o rock como fé), ao mesmo tempo que se entregam a questões sociais e políticas que lhes valeram as conotações hippies que agora tentam destruir. E este novo disco é um excelente passo para atingir esse objectivo. Sem papas na língua, Matt Camirand respondeu a todas as perguntas que o Bodyspace achou por bem colocar neste momento e agora e revelou o bom coração dos Black Mountain.
Está a tornar-se mais fácil para vocês fazer discos? Ou é sempre algo complicado começar a trabalhar num novo disco?

Tornou-se mais fácil em termos de custos. Nestes dias que correm uma criança de cinco anos que consiga utilizar um computador pode fazer gravações de classe mundial em casa por zero dólares. No que diz respeito a começar novos álbuns em termos de inspiração, assim que te apercebes que não precisas de inspiração para começar a fazer um disco torna-se fácil. Tens simplesmente de o fazer.

Como é que sentes este novo disco? Achas que este álbum é o seguimento lógico e natural dos outros dois discos?

Sim, sinto o disco dessa forma. No primeiro disco gravamos e misturamos nós mesmos, no segundo nós gravamos mas o John Congleton misturou e neste terceiro apenas tocamos música e o Dave e o Randall fizeram o resto.

Neste disco não existe nenhuma “Bright Lights" ou algo similar. Sentes falta de fazer essas longas explorações ou este novo disco é declaradamente e assumidamente mais baseado em canções?

Não, não sinto falta de canções como essa porque sei que podemos fazer coisas desse género sempre que quisermos, talvez no próximo disco, talvez não. Este álbum foi definitivamente consciente no que toca a ser mais baseado no formato canção.

Neste novo álbum trabalharam com D. Sardy (que trabalhou com nomes como os Nine Inch Nails e os LCD Soundsystem) e o Randall Dunn (que trabalho com os Sunn 0))) e os Boris). Quando pensaram neles, estavam a pensar em algumas mudanças particulares que queriam alcançar neste disco em termos de som?

Nós queríamos simplesmente ser capazes de tocar e escrever e não termos de nos preocupar com coisas como os gravadores se estragarem ou colocar os microfones no sítio certo todo o dia até ao ponto de não teres sequer tempo de realmente carregar no “record” e fazer música. Também, nós estamos perfeitamente à vontade num estúdio de gravação mas eles os dois sabem mesmo mesmo trabalhar num estúdio de gravação. Sentimos que precisávamos de ajuda para chegar exactamente ao som que queríamos retirar do estúdio para este disco.

Não sei que têm lido a opinião dos críticos em relação ao vosso novo álbum, sobretudo no que toca às influencias do Physical Graffiti dos Led Zeppelin neste disco. Concordas com essa referência? O que é que achas desse disco que, na minha opinião, mudou tudo para os Led Zeppelin?

Bem, eles estão provavelmente a referir-se apenas à "Hair song", em que, não vou mentir (pelo menos no departamento do baixo), estava a canalizar o meu eu-John Paul Jones de dentro porque eu não toco baixo como ele de forma alguma mas ele é um baixista monstruoso por isso, quando o senti a bater-me no ombro por essa canção, prestei atenção à mensagem.


Alguma vez sentes que o legado de bandas como os Black Sabbath, Led Zeppelin ou Deep Purple foi de alguma forma arruinado? Se sim, sentes que os Black Mountain estão de certa forma a tentar mudar a história nesse sentido?

Não, não sinto as coisas dessa forma. Não tenho bem a certeza do que queres dizer com isso. Se queres dizer que existem demasiadas bandas merdosas que copiam a vibração deles tenho a certeza que existe muita gente por aí que acha que nós somos parte desse problema também. Eu sou da opinião que se há alguma coisa que gostas realmente, deves ouvir isso, se odeias, deves ignorar a sua existência…

Mudando de assunto, ouvi dizer que vocês andavam um bocado fartos das conotações hippies que sobrevoam os Black Mountain. Podes contar-nos como começou tudo isso e quais são os vossos planos para acabar de uma vez por todas com isso?

Tudo começou com o Black Mountain Army que eu via mais como uma espécie de coisa para-militar humorística mas que de certa alguns jornalistas conseguiram transformar numa coisa comunal de paz e amor. Sinceramente é-me absolutamente indiferente de qualquer das formas a não ser ter de falar sobre isso nas entrevistas. Era uma piada, agora é uma piada que já não tem mais piada…

Li no outro dia que alguns membros da banda fazem trabalho social no vosso país, ajudando os pobres. O que é que nos podes contar acerca disso? Alguma vez trazem esses temas para a música?

Bem, não os trazemos para a música, mas no ano passado levamos música até eles. Demos um concerto gratuito ao ar livre nas ruas onde eles vivem para chamar a atenção para o facto do governo canadiano estar a tentar varrê-los para debaixo do tapete num esforço para fazer com que eles se vão embora sem fazer alguma coisa apara os ajudar.

Também ouvi dizer que tiveram de deixar os vossos próprios empregos para se dedicarem à música. Está a ser fácil atingir esse objectivo? Sentem a obrigação de andar muito em digressão e gravar muitos discos?

temos vindo a descobrir que fazer discos e andas em digressão ao nível que andamos deixa-nos pouco tempo quando estamos em casa para descomprimir e estar com as pessoas que amamos, por isso em vez de trabalhar quando chegamos a casa escolhemos passar o tempo a descomprimir. Não é fácil mas é necessário.

Sentem que o vosso disco de estreia é um disco especial? É verdade que o segundo disco é um disco difícil de conseguir? Acreditam nisso?

Sempre ouvir dizer que era o terceiro disco que era difícil de fazer… Eu acho que nós não ficamos stressados quando começamos a fazer um disco, talvez devêssemos ficar mas normalmente esquecemo-nos simplesmente das digressões e das multidões e dos concertos e das expectativas e apenas fazemo-lo.

Como é que explicas esta grande explosão de bandas que chegam ao mundo vindas do Canadá nos últimos, vá lá, dez anos? Ou achas que foi sempre assim e só agora é que o resto do mundo reparou nisso?

Acho que isso é cíclico com as cidades e com os países. Quando existem muitas boas bandas, é tudo óptimo e toda a gente repara em ti mas eventualmente torna-se tudo quase demasiado bom. As pessoas deixam de ir ver essas bandas e a cena more uns bons anos até uma nova banda boa chegue e inspire outros a começar novas bandas e começa tudo de novo. Não acho que Vancouver esteja tão bem agora como estava há, diria, seis ou sete anos em termos de música. Na verdade, acho que uma nova explosão está quase para acontecer. O Canadá é um país massivo por isso quando vives aqui e tens dez boas bandas no país não sentes necessariamente como se fosse uma explosão. Mas podes sentir se estiveres a ver a coisa por fora.

Achas que a música é a melhor forma de unir as pessoas? Sentem isso nos vossos concertos?

Concordaria absolutamente com isso e é verdade que o sinto nos nossos concertos. Estive recentemente num concerto do Tom Petty e não poderias nunca enfiar mais amor naquela sala.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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