ENTREVISTAS
Easyway
A vida num só dia
· 04 Abr 2005 · 08:00 ·
Ao contrário do que o nome possa fazer crer, nem sempre tem sido fácil. Há que suar o soalho do palco, cumprir o período de maturação nas primeiras maquetas, manter bem vivo o espírito de equipa que inspira cada um (os quatro músicos e colaboradores) a operar o seu domínio na primeira pessoa. Goste-se ou não, Forever in a day é um triunfo certeiro na área do punk rock mais melódico. Tiago canta como sente. Dá voz ao coração ardente que um dia bateu, com semelhante intensidade, à direita do peito dos Samiam, Bodyjar ou – numa toada mais “goofy” e recente – Midtown (nome que o baixista Miguel envergava na t-shirt que trazia vestida num concerto). Não significa isto que os Easyway sejam farinha de um mesmo saco. À sua maneira, avançam rumo a um sol sequestrado à Califórnia. Num dia igualmente solarengo, o Bodyspace contou com o religioso conhecimento de uma acérrima e genuína fã, e foi tentar compreender o método Easyway.
Como correram as coisas por França?

Tudo correu pelo melhor, não foi a primeira vez que fomos tocar a território francês, mas foi definitivamente das melhores tournées que já tivemos. Nesta tournée deu para perceber que a França tem uma grande e forte cena underground, bem construída, com bastantes bandas, concertos e principalmente muito apoio por parte das pessoas. A resposta do público foi simplesmente espectacular. Inclusive, havia sítios em que nunca tínhamos tocado e já havia gente a cantar as nossa músicas, para além disso todas as bandas com que tocámos terem feito com que nos sentíssemos em casa, especialmente os Twisted Minds - a banda Francesa que nos acompanhou nesta odisseia galesa.

Que expectativas em relação à aventura alemã?

Algumas expectativas... Sempre nos disseram que na Alemanha havia uma forte "cena" underground, e não só. E é isso que vamos descobrir! Além disso, é um dos países onde o álbum está à venda, e ainda não tocámos; portanto, só podemos esperar coisas boas! Se correr tão bem como no resto da Europa, então estamos bem!

Qual foi a dimensão do passo entre a maquete Choose the easyway e o álbum Forever in a day? O que mudou?

A passagem de uma demo para um álbum foi algo inesperado... Inicialmente iríamos gravar um EP! Surgiu a oportunidade de se fazer um álbum, e nós aproveitámo-la! Da demo para o album mudou muita coisa... Um elemento da banda - o Danilo - entrou para o grupo. Esse facto, por si, muda muita coisa! A mentalidade da banda relativamente ao nosso trabalho, e profissionalismo mudou muito também... Começámos a levar as coisas mais a sério, e a trabalhar com mais empenho, digamos... Todos a remar na mesma direcção!

Que novidades trouxe o Miguel à banda?

Quando o André tomou a decisão de sair da banda, ficámos um tempo a tentar decidir o que fazer relativamente a um novo baixista... Mas a dúvida nunca se pôs sobre a pessoa certa - o Miguel era um amigo de longa data, inclusivamente já tinha tido uma outra banda - com o Danilo - anterior aos EASYWAY, portanto nunca sentimos um choque tão forte como seria de esperar com a mudança!

Forever in a day pode ser visto como um conjunto de singles ou resulta apenas quando escutado na íntegra?

O álbum Forever in a Day é quase como um Best Of... Ou seja, todas as músicas que se encontram no disco fazem parte da história da banda, daí algumas músicas da maquete terem sido re-gravadas. O objectivo do nosso trabalho foi fazer um disco que agradasse à banda. Por isso, acho que é um álbum que se deve ouvir na íntegra, pois reflecte um pouco da história da banda.

No que diz respeito a promoção / booking, onde termina o vosso contributo e começa o trabalho da editora? Há cooperação?

Falando da Raging Planet, que é a editora que lançou o álbum em Portugal - a nossa promoção passa sempre por nós... Tentamos fazer o máximo que podemos como banda, tanto em termos de composição, como de tudo o resto que está implícito quando se tem uma banda. A promoção da editora é limitada, é de relembrar que não estamos a falar de uma "major"... A RP é uma editora independente que faz o melhor que pode, com os meios que tem! Ajudamo-nos mutuamente!

Revêem-se na categoria de “self-made band”? Dão valor ao controlo criativo de quase todos os aspectos?

Nós somos uma banda que gosta de trabalhar na nossa produção, na nossa imagem, etc... Daí gostarmos de ser sempre nós a tratar de quase tudo que seja relacionado directamente connosco. Dentro da banda temos um produtor (o Miguel, guitarrista) que tem um estúdio de gravação, temos um produtor de vídeo (o Danilo) que nos realiza e edita os vídeos e temos um Designer (o Miguel, baixista) que acaba por tratar dos nossos posters, flyers, capas, etc... Nós para além de banda e grupo de amigos, somos uma equipa de trabalho. Daí gostarmos de ter controlo criativo sobre as nossas coisas.

Agora que já passaram pelos lugares cimeiros da MTV Hit List, não ponderam reformular a letra de “Model Rockstar”?

Obviamente que não... O facto de estarmos nos "tops" da MTV não significa que nos revejamos na letra que fizemos. Essa letra é uma critica à falta de personalidade de certo tipo de pessoas, e nós não encaixamos nessa descrição! Na nossa opinião, a MTV é um meio de promoção tão valido como as rádios, a imprensa escrita, ou os concertos...! Ter um vídeo no top não significa que temos falta de personalidade, até porque se estamos lá, é porque as pessoas votaram em nós. Portanto à resposta à questão é NÃO!!

Sentem-se imunes à acusação “lá-lá-lá-lá”? Reivindicam o direito à melodia?

Nós temos um som melódico, catchy, "easy listening" e, infelizmente, muitas pessoas acusam-nos de sermos "lálálá". Eu acho que cada banda faz o som com que melhor se identifica, se por ventura o som for mais catchy, as pessoas não podem por logo de parte por ser mais melódico e catchy. As pessoas têm de ver a banda pela qualidade dela mesma, a melodia é um direito tal como a música pesada também o é. Se em vez de se acusar tanto, se apoiasse mais, seria mil vezes melhor a cena portuguesa.

Quais das três hipóteses vos parece a mais lógica e apetecível: “vá para fora cá dentro”, “venha de fora cá para dentro”, “vá para fora cá de dentro”?

Arrisco-me a dizer: a ultima e a primeira! Nós adoramos estar em tour... São oportunidades únicas de tocar para outros públicos, outras culturas, outros lugares... É irreal chegar a um sitio em que não conhecemos ninguém, onde não há amigos para ir aos concertos dar aquele apoio, e ter centenas de pessoas num concerto para nos verem!! Em Portugal, ainda há muito aquela mentalidade de "o que vem de fora é que é bom...", que, felizmente, está lentamente a mudar. Na minha opinião, cada vez mais há mais e melhor cá dentro!

Que diriam a uma participação no próximo Deconstruction?

Como é óbvio, víamos com bons olhos a hipótese de participar num dos melhores festivais de punk-rock do Mundo. Um dos objectivos da banda é continuar a crescer para, quem sabe um dia, participar numa tournée deste género. Se formos convidados, aceitaríamos de bom agrado. Se não formos, iremos certamente continuar a trabalhar para isso.

Há vitalidade na “cena” actual?

Não tanto como houve nos anos 90... Mas sim, e cada vez mais! Têm surgido mais projectos com mais qualidade, editoras interessadas em apostar nas bandas, e uma série de outros eventos que apoiam o que se faz por cá! Parece-me que falta público a comprar CD's, que é muito importante, porque isso justifica a continuidade das editoras e das bandas. Mas todos sabemos como hoje em dia é fácil (ou difícil) com a internet... E por ultimo, há uma grave falta de espaços com boas condições para as bandas tocarem, especialmente em Lisboa!

Que impressão guardam do Joey Cape?

O Joey foi impecável. Desde o momento em que o abordámos com a proposta de participar no álbum, até ao momento em que nos despedimos. Foi extremamente aberto em relação à ideia de participar num álbum duma banda que tinha acabado de conhecer. Fez-nos vários elogios relativamente à musica que fazíamos, e à nossa postura como banda! Ainda tivemos a oportunidade de ir jantar com ele... E foi realmente daqueles momentos que não poderíamos imaginar que viessem a acontecer.

Que discos alheios ao punk-rock reúnem consensos entre os quatro membros dos Easyway?

Dentro da banda existem inúmeras influências diferentes, cada membro tem o seu género de som preferido: o Tiago é mais EMO, o Miguel S. M. é mais Rock'n'Roll, o Danilo é mais metaleiro e o Miguel P. M. gosto muito de punk mais clássico, emo, screamo e hardcore, por exemplo. Álbuns alheios ao punk-rock que alcançam algum consenso... Lembro-me agora do Apetite for Destruction dos Guns n'Roses, do Black Álbum dos Metallica, os álbuns de Pantera e Sepultura, e muitos mais que não me recordo de momento.

Fazem ideia se o Paulo Gonzo gostou da vossa versão de “Jardins Proibidos”?

Não tenho dúvidas que o Paulo Gonzo tenha gostado da versão, caso contrário não nos teria cedido os direitos da mesma. Eh eh.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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