ENTREVISTAS
AJM Collective
Racional colectivo
· 11 Out 2010 · 20:48 ·
Vêm de Coimbra e são uma das grandes revelações nacionais dos últimos tempos. O AJM Collective tem mostrado nos palcos portugueses uma música exploratória onde encontramos a energia da improvisação livre e a comunicação do jazz, mas que não se deixa fechar em géneros. Esta música aberta, em permanente construção, tem ao vivo o apoio de um interessante complemento visual trabalhado em tempo real. Numa altura em que acumula imensa experiência ao vivo nos palcos nacionais, o AJM Collective prepara-se para as primeiras experiências internacionais, com a participação no Cork Jazz Festival e concertos em Dublin com músicos da cena local. O grupo prepara-se também para passar por outra interessante montra, o festival barreirense Out.Fest, partilhando o palco com o saxofonista inglês Lol Coxhill e o Rodrigo Amado Motion Trio. O grupo de José Miguel (JM), Marcelo dos Reis (MR), Manuel Ara Gouveia (MAG), Kátia Sá (KS), João Apolinário e João Camões falou ao Bodyspace, antecipando este período de efervescência criativa.
O AJM Collective começou como trio (AJM é o acrónimo de João Apolinário, José Miguel e Marcelo dos Reis) mas entretanto a formação tem crescido e neste momento são um sexteto (com Manuel Ara, João Camões e Kátia Sá). Vocês são um colectivo aberto, um “work in progress”?

JM: Começámos como uma livre associação de indivíduos com o objectivo de tocar, ainda antes de se impor a inevitável escolha de uma denominação para o grupo. Não sabíamos, à partida, que música saíria dali, sequer se sobreviveríamos mais do que alguns encontros... O Manuel Ara Gouveia foi um dos fundadores do grupo, pese embora a sua ausência (esteve fora do país) no line-up de muitos dos concertos que demos em 2010, assim como a Kátia Sá tem sido parte efectiva do nosso trabalho ao vivo, virtualmente desde o primeiro minuto. A questão formal da “pertença” ou não do João Camões aos AJM Collective é importante, já que traz consigo dúvidas acerca da orgânica do colectivo. Neste momento, ele é mais do que um convidado, pelo menos da minha perspectiva.

MR: Enquanto colectivo, queremos partilhar experiências com outros artistas que nos sejam próximos quanto à visão artística. No João Camões encontrámos essa relação, e acima de tudo o fortalecimento de laços não só musicais, como pessoais. O mais importante é desenvolver a conexão musical entre nós, e se possível, com outros músicos.

MAG: O conceito inicial sempre foi um colectivo e não um grupo, seguindo o conceito de Ba, deste modo, a dinâmica de grupo causaria um efeito de remoinho, atraindo pessoas criativas que procuram interagir com outros indivíduos, num contínuo processo de criação de conhecimento, indepedentemente das linguagens utilizadas.

A vossa música assenta na improvisação livre, mas muitas vezes descobre ligações ao jazz. Como classificam o vosso som?

JM: A recusa da classificação não pode ser encarada como um comodismo ou como equivalendo a uma recusa a pensar sobre a música. Admito que, para quem ouça os AJM, as filiações com o jazz e com a livre improvisação possam vir à ideia.

MR: O jazz é uma referência e gosto comum aos membros integrantes do grupo, mas julgo que os revestimentos que lhe têm sido acrescentados acabam por ter um maior peso sobre aquilo que tocamos. Julgo que a experimentação musical é o que mais pretendemos fazer, e decerto que isso nos vai trazer novos caminhos, longe de grandes pretensões ou grandes expectativas.

MAG: Como foi dito, o jazz é uma referência, no entanto a nossa música tem uma tendência natural para ser transversal, pois não há uma restrição das linguagens abordadas, até porque o contraponto sempre é dado caso a monotonia se instale. Concordaria com a classificação experimental, mas recuso associar a nossa música com um conceito artisticamente estanque como é o jazz.


Será que conseguem indicar meia dúzia de referências, que sejam comuns a todos os elementos da banda?

JM: Continuando a ideia que passava na última questão, as referências parecem-me estar na interacção dos signos jazzísticos aquando da recepção desta música pelos músicos europeus durante a década de 60. A AACM (embora nela predomine a composição), a free improv britânica... Será difícil negar a forte impressão deixada pelas ideias musicais avançadas por estes músicos e movimentos.

MR: Eu gosto de música, seja ela de que tipologia for, penso que como músico, devo pensar de um forma global, e não apenas em improvisação ou seja lá o que for, trata-se de dizer algo e andar para a frente, não viver de saudosismos, penso que essa é a nossa maior influência.

MAG: Claro: Bach, Stockhausen, Mingus, Braxton, Evan Parker e Bob Marley.

Uma das características das vossas actuações é a vertente visual, da responsabilidade de Kátia Sá, que trabalha as imagens em tempo real, em improvisação. Esta componente visual funciona como mais um instrumento?

KS: Sim, a componente visual acaba por funcionar como mais um instrumento. A imagem, embora partindo de uma base pré-estabelecida (diversificada), procura a sua improvisação nos modos como se gera em dialogo com a música. Há sempre uma resposta ao input sonoro que intervém na geração dos visuais, ou na captação de imagem em tempo real, estabelecendo-se assim uma conversa permanente com os instrumentos musicais. Deste modo, podemos entende-la como mais um instrumento, ainda que visual!

Vocês têm acumulado muita experiência ao vivo. Têm notado evolução de concerto para concerto?

JM: Cada um de nós vai mudando, dado que todos pesquisamos (de alguma forma) os instrumentos que tocamos. A sonoridade global alterou-se significativamente ao longo do último ano à custa de muitas actuações e sessões (chamar-lhes ensaios será correcto?), sem “grandes planos”, apesar de haver algumas (raras) conversas de fundo sobre a “natureza” da nossa música.

MR: Tocar ao vivo amadurece qualquer músico, óbvio que a maturidade e identidade enquanto grupo se notifica de concerto para concerto, e claro, o “trabalho de casa” de cada um oferece um input e uma maior oferta de possibilidades musicais. Sem dúvida que a pesquisa individual se reflecte no trabalho global, sem pesquisa e dedicação, julgo que tudo se torna mais difícil.

MAG: Eu quando termino um concerto prefiro não pensar mais nessa experiência passada, o que foi criado é um objecto estático e imutável temporalmente, não há mais nada que eu ou os outros intervenientes possam fazer e prefiro afastar-me da obra criada. Mas o inconformismo é sempre presente e a progressão desejada. É o momento que é ambicionado, não o objecto.

Alguns dos vossos concertos enquadram-se no conceito “double bill”, em que os convidados da primeira parte se juntam a vocês na segunda parte. Como têm corrido estas experiências? Quais foram aqueles que deixaram melhores memórias?

JM: O “Double Bill” é um ciclo de música improvisada que tem como objectivo criar laços com outros improvisadores (portugueses e estrangeiros), ao mesmo tempo que tentamos criar um ambiente propício a que o maior número de pessoas possa ver/ouvir estes concertos e se possa sentir interpelada por aquilo que vê/ouve, sem quaisquer laivos de intelectualismo ou trejeitos “arty”.

MR: O “Double Bill” ciclo de música improvisada, é uma plataforma tão importante que deveria existir em todas as cidades onde há improvisadores em actividade, claro que exige algum esforço para que aconteça, mas se não forem os músicos a esforçarem-se por fazer subsistir a sua actividade comum, quem será?... Em Portugal existem tão poucos apoios e locais para desenvolver músicas avançadas, que penso que temos de ser nós os primeiros a fazer com que algo aconteça, julgo não haver espaço para grandes egos e alienações do mundo em que vivemos.

Uma “facção” do AJM Collective (Reis, Miguel e Camões) acaba de criar um novo projecto, o Open Field String Trio. De onde surgiu a necessidade de criar este projecto autónomo?

JM: Um trio de cordas é um trio de cordas.

MR: Para além deste trio, têm resultado outros encontros, recentemente o João Apolinário juntou-se aos Diatribes na Suiça e o João Camões iniciou um duo com o Manuel Ara Gouveia, este trio nasce do gosto por um formato acústico e camerístico, e claro, por todos tocarmos cordofones. Penso que o que existe de melhor nesta música é exactamente isto, a criação de novas partilhas.

MAG: É um spin-off normal decorrente da dinâmica criada pelo colectivo.


Há planos para a edição de um disco?

JM: Gravar, sim. Editar, somente se houverem fortes razões que o justifiquem.

MR: Planos existem sempre, julgo que quando a maturação atingir o seu estado pleno, pensaremos seriamente sobre isso.

MAG: É um desafio para um estágio de maturação mais avançado com o atraente de haver todo o processo de produção para explorar. Todos os nossos recursos estarão concentrados na criação de uma obra que tenha a capacidade de surpreender cada vez que é tocada. Não é uma obsessão é uma ambição.

Vocês vão actuar em breve no Guiness Cork Jazz Festival, na Irlanda. Quais são as vossas expectativas para esta experiência internacional?

JM: A estadia na Irlanda vai-nos permitir tocar também em Dublin, no “Hello Operator” (tudo indica que com a participação de músicos irlandeses). Em Cork, actuaremos por duas ocasiões, a mais importante, sem dúvida, será no Triskel Arts Center, como parte do programa do Cork Jazz Festival.

KS: Acumular e partilhar experiências, conhecendo pessoas que procuram estar na música desta mesma forma e testemunhar como, presentemente, se tecem e se dinamizam este tipo de eventos um pouco por todo o mundo.

MR: Eu pessoalmente tenho mais curiosidade sobre o concerto em Dublin no Hello Operator, já que iremos partilhar o palco com músicos Irlandeses da cena improvisada, vejo o concerto no Cork Jazz Festival como meio para alguma divulgação internacional, o que é bom.

MAG: Um evoluir de perspectivas comuns e um aumento de oportunidades inesperadas.

O que vamos poder ver na apresentação ao vivo no Out.Fest, no mesmo dia de Lol Coxhill e Motion Trio?

JM: O nosso concerto no Barreiro será, como habitualmente, uma apresentação intermedia. Da música/imagem que surgirá pouco podemos adiantar... O formato quinteto tem permitido explorar diferentes possibilidades, desdobramentos em duos e trios, pesquisas tímbricas e o prazer infantil de construir “muralhas de som”.

KS: Um apontamento de improvisação musical e visual, reflexo do background de cada um e da tendência desse momento.

MR: Um momento de improvisação intermédia, que para nós será especial, e que esperemos que seja para todos.

MAG: Ainda não sei, mas sei que estarei em boa companhia e só coisas boas poderão daí surgir.

Quais são os vossos objectivos, enquanto banda?

JM: Os objectivos dos AJM encontram-se expressos no caminho percorrido até agora, nomeadamente com a organização do “Double Bill”. Um improvisador “precisa” de outros, acima de tudo quando se tratam de pessoas novas que questionem a nossa forma de tocar no próprio acto de improvisação. Os objectivos dos AJM estão cumpridos desde a nascença. Temos parceiros (e amigos, ainda por cima) com quem tocar, o que é, sem qualquer exagero, um privilégio!

MAG: Provocar individualmente o nirvana a todas as pessoas que nos vejam/escutam.

MR: Tocar, partilhar experiências com outros artistas e desenvolver o nosso eu colectivo, é importante sermos felizes com o que tocamos.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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