ENTREVISTAS
Gutta Percha
Em câmara lenta como na TV
· 07 Out 2010 · 23:19 ·
Sob o pretexto de gravarem um álbum de versões de velhos temas televisivos, os dois irmãos Hibbett (Gutta Percha) transformaram a televisão na âncora afectiva desse enorme barco que é a nostalgia. É essa uma das conquistas de Tube Overtures, álbum que sugere a revisão dos anos distantes tendo como ponto de referência a omnipresente televisão. Situado algures entre o sinfónico grandioso e a melancolia contida, Tube Overtures, o tal disco de estreia na emergente The Land Of, reflecte alternadamente o aborrecimento de quem teve demasiado tempo para ver televisão e o entusiasmo passageiro proporcionado por alguns episódios. E cedo se percebe que há por aqui também uma espécie de MacGuffin, mecanismo narrativo "Hitchcockiano", que torna irrelevante a obsessão inicial de alguns filmes, da mesma forma que inutiliza a identificação das séries no meio de toda esta calorosa névoa analógica. Mas os Gutta Percha criaram um daqueles discos intrigantes que apetece mesmo interrogar. Toda esta curiosidade recaiu sobre Ryan Hibbett, o arquitecto destas canções, que acedeu a uma longa conversa entre os escritórios do Bodyspace e o Illinois profundo.
Atendendo a que este é o vosso álbum de estreia, devo começar por perguntar: quais são os vossos antecedentes como músicos e que factores levaram a que fizessem música juntos?

Eu tinha uma banda de garagem há mais ou menos quinze anos. Tal como meio mundo, tocava guitarra, um instrumento que agora evito tocar ou escutar, muito por causa do domínio indesejável que alcançou na música popular. Andávamos a escutar bandas como Pavement e Uncle Tupelo, e foi então que descobri Sebadoh e remeti todo o meu interesse para a lo-fi. O Lou Barlow e as suas gravações caseiras foram uma grande influência nesse sentido, permitindo que uma geração de miúdos indie explorassem a sua criatividade mesmo quando não tinham acesso ao melhor equipamento. Eu e o meu amigo Jeremy gravámos uma série de cassetes e um sete polegadas como Turtleneck. Ironicamente, a tecnologia permitiu-me colaborar mais facilmente com o meu irmão, apesar de vivermos a três horas um do outro. Posso enviar-lhe coisas para escutar e receber o feedback num piscar de olhos. Provavelmente a nossa maior plataforma de colaboração incide nas memórias que partilhamos. Ao partirmos para Tube Overtures, trocámos impressões sobre certas séries de televisão, até descobrirmos que a relação com cada uma dessas era semelhante, porque tinha acontecido no mesmo contexto. É, por exemplo, provável que achemos uma série deprimente porque era transmitida na noite de domingo, quando estávamos horrorizados com a ideia de ir para a escola no dia seguinte.

É curioso mencionares Sebadoh como uma influência na tua viragem para a lo-fi. Sou um grande fã de Sebadoh e consigo descortinar alguns paralelos entre os momentos mais baços de Bubble & Scrape e as vossas cenas. Mas acho que a forma como o Eric Gaffney manipula as fitas nas canções ainda é um pouco esquecida em comparação com o crédito que dão ao Lou Barlow. Sabes ao certo que disco de Sebadoh determinou esse teu gosto pela lo-fi?

É também engraçado dizeres isso acerca do Eric Gaffney, porque eu concordo plenamente. O que fazia naqueles discos de Sebadoh era fantástico. Ainda que o Jason Lowenstein seja incrível, fiquei com saudades do Gaffney quando saiu. O primeiro disco de Sebadoh que escutei foi o Bakesale, mas os meus favoritos são o Bubble & Scrape e o Smash Your Head on the Punk Rock. Fiquei agora com uma certeza ainda maior de que continuam a influenciar o que fazemos.


Devo admitir que nem sempre fui capaz de corresponder os temas das séries às faixas do álbum, mas dá para entender que flutuam algures. Sentem que, ao distorcer completamente um pedaço de música, conseguiram estimular aquela parte da memória que recorda vagamente a série? Esse era um dos vossos objectivos?

A criação de um disco conceptual comporta algumas desvantagens. Neste caso, julgo que quem escuta pode ficar desanimado por não identificar as músicas que trabalhámos. Mas o álbum não procura ser uma colectânea de temas de abertura televisivos, o que podia tornar-se bastante parvo – procura, em vez disso, proporcionar uma experiência atmosférica que sugere a recuperação da nossa relação com a televisão, assim como o seu papel na banda sonora doméstica das nossas infâncias. Queríamos tornar algo familiar em algo pouco familiar, e utilizámos até alguns temas de séries que provavelmente pouca gente conhece.

Quais serão os grandes benefícios de fazer música com um irmão? Mantêm geralmente uma noção apurada do que cada um quer oferecer às composições ou são obrigados a várias conversas de preparação?

A relação é de enorme confiança mútua, na medida em que raramente nos desentendemos em relação ao que soa bem. O meu irmão é quatro anos mais velho e sempre foi bom a pensar em termos mais amplos. Os sons que saíam do seu quarto eram sempre mais interessantes do que aqueles que eu andava a ouvir. Isso levava a que eu passasse de uma banda ranhosa de metal para algo como os Dead Milkmen. Era assim que eu entrava na onda dele, mas ficava também a saber como estabelecer algumas distinções entre música com mérito artístico e o lixo em geral. Ele continua a desafiar-me dessa maneira. Ele pegou no trompete há alguns anos apenas, e eu adoro escutar o instrumento surgido de um ponto cru, destreinado e sincero.

E como repartem as tarefas enquanto preparam as músicas que acabaram no Tube Overtures?

Sou o responsável pela aglomeração de todos os sons – um pouco como se fosse o arquitecto. O meu irmão contribui com o trompete de bolso, a corneta e o fliscorne, dependendo de cada peça, e é também o meu conselheiro no progresso das músicas ao longo de uma série de esboços. Estou constantemente a rever as coisas, e às vezes é difícil ditar a conclusão de uma peça e seguir em frente.

”Detoured Highway to Heaven” é certamente uma das faixas mais ambiciosas no disco. Terias ido ainda mais longe no acrescento de instrumentos se isso estivesse ao teu alcance?

Adoraria acrescentar mais instrumentos no futuro, e tenho vários à minha disposição através da família e amigos sempre dispostos a ajudar. Por acaso, o riff de quatro notas de “Little House” é da responsabilidade da minha cunhada Katherine Swope. É bem provável que venha a compor mais momentos orquestrais.


Recordas-te de quais foram as primeiras reacções da The Land of ao escutar o disco?

Enviei apenas uma faixa ao Justin da The Land Of, e ele pediu-me mais logo de seguida. Revelou enorme entusiasmo por lançar o disco. Tem sido fantástico trabalhar com ele, e a label costuma caprichar no aspecto dos seus lançamentos.

Até que ponto estarias disponível para colaborar com outros músicos?

Julgo que estou bastante receptivo. Seria lisonjeador ter alguém interessado. Mais uma vez devo referir que a tecnologia permite colaborações que anteriormente eram quase impossíveis.

Mudando agora de assunto, devo dizer que sou muito curioso em relação aos efeitos do fenómeno Twin Peaks em cada país. Lembras-te da reacção das pessoas naquela altura? Que tipo de impacto teve em vocês?

Sou obrigado a admitir que nunca vi um episódio. Lembro-me de ter sido parodiado no Saturday Nigh Live, e tenho uma vaga noção da série como um trabalho altamente artístico e estranho. Alguém a quem enviei uma demo recentemente disse-me que lhe parecia uma banda sonora do David Lynch. Tomei isso como um elogio. Vi recentemente o Veludo Azul e o Mullholland Drive, que são, como é óbvio, fascinantes.

Acaba por ser inevitável colocar a seguinte pergunta: que séries vos “agarraram” ao longo dos tempos?

Não sei se alguma vez fiquei “agarrado”, pelo menos durante a infância. Vivi intensamente algumas séries através da minha família: a minha irmã a ver The Brady Bunch e I Love Lucy Show depois da escola; a minha mãe e o meu irmão a curtirem A Ilha da Fantasia e O Barco do Amor à noite; e o meu pai a ver MASH quando eu já estava na cama. Lembro-me da família ser obrigada a fazer escolhas, como o Alf ou o MacGyver nos serões de segunda. Acho que nunca dediquei muitas energias às séries de televisão, por isso parecem-me quase sempre algo em segundo plano, vivido aos poucos.

Podes adiantar alguma coisa acerca do vosso próximo álbum A Crawlspace Companion? Obrigou-vos a explorar diferentes métodos e instrumentos?

A Crawlspace Companion consiste em cinco faixas com o total de cerca de sessenta e cinco minutos. Lida com a relação entre o consciente e o inconsciente, e é capaz de ser um pouco mais negro que o Tube Overtures. O trompete mantém-se, e estou a desenvolver uma composição orientada pelo pastiche que inclui muitos fragmentos. Estou entusiasmado, e creio que beneficiará da experiência acumulada no primeiro disco.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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