ENTREVISTAS
Delorean
Acordar nu na praia em Ibiza em 2010
· 20 Set 2010 · 10:51 ·
Ninguém diria que eles já existem há dez anos, mas é assim que se escrevem as melhores páginas na música. Dotados de conhecimento pop e de um grande sentido de perseverança, os Delorean tomam para si a cabeça do movimento que aposta em recuperar o som balear de outrora, movimento esse onde as melhores tentativas até são suecas (Air France, jj, anyone?). Após a edição de Subiza, vieram a Portugal para se estrearem como headliners pela primeira vez. Local da consagração: Milhões de Festa, Barcelos. O Bodyspace falou com Igor Escudeo e Ekhi Lopetegi para saber se eles pretendem realmente viajar até ao futuro ou se o passado lhes assenta melhor.
Vocês estão agora numa tour pela Europa, não é verdade?

Ekhi Lopetegi - Pela Europa e pelos Estados Unidos, sim.

Que tem tem corrido? Tem sido uma viagem agradável, ou têm tido alguns problemas?

EL - Não, problemas não. Temos tido espectáculos maioritariamente em Espanha, mas em vez de fazer uma digressão nacional, decidimos ir primeiro à costa oeste, Canadá, depois à costa este.

Já tinham sido cabeças-de-cartaz antes?

Igor Escudeo - Não, é a primeira vez.

Estão nervosos?

EL - Nem por isso... é normal. Encaramo-lo como qualquer outro espectáculo.

Encaram-no como algo que já merecessem, virtude das boas críticas que tem tido Subiza?

EL - Sim, claro.

Que se pode esperar de um concerto de Delorean?

IE - Tentamos sempre fazê-lo da forma mais intensa possível. Gostamos de tocar alto, de forma intensa.

Vocês tem raízes na cena hardcore. Como é que de um minuto para outro desatam a fazer álbuns pop? Não foi um choque?

IE - Não. Quando tínhamos 15/16 anos, andávamos todos por bandas hardcore. Começámos os Delorean quando tínhamos 19. Foi como um novo desafio para nós.

Sei que vocês ainda se consideram punks...

IE - Sim, pela energia em palco, pela forma como pensamos. Acho que somos profissionais em muitos aspectos, mas ainda estamos bastante ligados ao D.I.Y.
EL - A questão do hardcore é algo que me choca um bocado. Toda a gente que conheço vem de bandas hardcore. Todos os meus amigos, Lemonade, Glasser, El Guincho, quase todos estiveram em bandas de hardcore. A questão é que nós estamos nesta banda há dez anos. E há uma diferença. As pessoas da nossa geração, quando lhes pergunto se já tocaram numa banda de hardcore, respondem sempre que sim. No outro dia estivemos com o baterista dos Beach House, e eu comentava com um amigo: "aquele tipo tem ar de quem já tocou numa banda hardcore". Fomos falar com ele, e era verdade!

Sim, mas convenhamos que para muita gente é algo chocante, dada a cena hardcore ser tão fechada em si. Há sempre aquela surpresa de ver alguém fazer bons álbuns pop e saber-se que vieram de um estilo completamente diferente.

EL - Sim, mas lá está, já temos dez anos. Podíamos ter mudado de nome três vezes e ninguém nos teria perguntado se já tínhamos estado numa banda hardcore. Mas como temos este nome há tanto tempo, concordo que as pessoas achem chocante... mas se pensarmos nisso, é algo normal.
IE - Acho que já ninguém ouve aquilo que ouvia há dez anos. Nem como ouvinte, nem como músico, toda a gente hoje é mais eclética no que gosta.
EL - Isso. Há que seguir em frente.


Os vossos primeiros álbuns antes do Ayrton Senna estavam muito mais próximos daquilo a que hoje se chama dance-punk. Corrije-me se estiver enganado, mas parece-me que decidiram arrancar os ritmos mais fortes desse som e adoptar um estilo puramente pop. Novamente, foi uma mudança radical?

EL - Não, só que estávamos um pouco fartos desse estilo de som. Ao início éramos bastante virados para o techno, para o house, e depois começámos a ouvir coisas mais melódicas, dentro da dance music. Acho que a principal diferença foi termos começado a usar um computador e a produzir aí. Passaram quatro anos entre o penúltimo álbum e o EP, e nesse período podemos mudar de perspectivas. Mas se prestares atenção, é na verdade a mesma coisa. O background é a música de dança, e o beat é bastante dançável, bastante house. Mas estávamos mais interessados na melodia e na pop.
IE - Mudámos o estilo de produção porque antes estávamos sempre a tentar soar mais electrónicos, mas com intrumentos tradicionais - baixo, bateria, o que seja. E apercebemo-nos de que era muito difícil soar electrónicos sem materiais electrónicos.

Vocês eram praticamente desconhecidos até à edição do Ayrton Senna. Como foi acordar um dia e descobrir que andavam a ser seguidos por bastante gente?

IE - Acho que o nosso primeiro passo na cena internacional foram as nossas remisturas. Fizemos algumas remixes para grupos como os Mystery Jets, as quais tiveram destaque na Pitchfork e na Fader. Foi aí que começámos o nosso caminho. Por isso, quando saiu o Ayrton Senna, as pessoas que aí escrevem já nos conheciam.
EL - Não foi surpresa, porque antes do EP já trabalhávamos muito em remixes. Todas tiveram críticas bastante boas, não podemos dizer que houvesse alguma expectativa.

Preferem as remisturas ou as vossas próprias produções? Que vos soa mais divertido?

EL - Foi um bocado frustrante com o Ayrton Senna, porque não trabalhámos nele da mesma forma que trabalhámos com as nossas remixes. E ficávamos sempre mais satisfeitos com elas do que com o EP. O que tentámos fazer para o álbum foi encará-lo da mesma forma com que encarávamos as remisturas.
IE - Com o Ayrton Senna ainda trabalhámos como uma banda.
EL - Sim, como uma banda de indie rock.
IE - Sim. Costumávamos juntar-nos e fazer umas jams.
EL - Não era tanto como produtores de electrónica.

O Subiza tem sido apreciado por muita gente, fãs e críticos, que o encaram como o disco pop deste verão. Concordam? Acham que é injusto etiquetá-lo como "álbum de verão"? Não acham que lhe atribui uma certa efemeridade, não preferiam que a vossa música fosse considerada intemporal?

EL - É muito fácil dar-lhe esse atributo de verão, porque é música bastante "iluminada", há muita luz no disco. Mas é música. Não te interessa saber a que soa na praia ou no teu quarto durante o inverno. Não acho que fazer bom tempo seja requisito para gostar do álbum. Acho que a música em si tem uma qualidade que lhe permite ser escutada no outono, se quiseres. Nós nem vamos muito à praia! Quando começámos a fazer o disco, começámos em Janeiro. As pessoas dizem que tem uma qualidade de verão, e tudo bem, consigo ver porquê, porque é música muito clara.

Acham cliché as pessoas encararem os Delorean como banda de verão?

EL - É um cliché, mas não está errado até certo ponto. Percebo que as pessoas o ouçam quando estão na piscina ou assim. Mas ao mesmo tempo acho que as canções são boas para que se possa ouvir todo o ano.
IE - Gravámos o álbum no verão passado, com o intuito de o lançar em Novembro.
EL - Em Novembro, que é quando é inverno.
IE - Exacto. O lançamento foi sucessivamente adiado, e agora estamos no verão... acho que foi só uma coincidência.
EL - Não pensámos no verão quando estávamos a gravar. Só em fazer canções pop de consumo imediato, música clara, luminescente.


De que canções se orgulham mais?

EL - A "Endless Sunset" é uma das minhas favoritas.
IE - A minha é talvez a "Stay Close".
EL - A "Stay Close"... acho que nesta se condensa todo o álbum.
IE - A "Real Love", também.
EL - A "Real Love" gosto, mas prefiro a "Grow". Talvez essas três sejam as principais, as que todos concordaríamos.

O vosso processo criativo consiste em cada um de vós criar umas coisas no computador e depois enviá-las para os demais, certo?

EL - Sim, trabalhamos de forma colectiva.
IE - Toda a gente tem o seu próprio estúdio, amplificadores, um sampler barato e um PC. Estamos constantemente a trocar pequenos projectos áudio.
EL - Todos puxamos para o nosso lado quando estamos a escrever canções. Às vezes há várias versões da mesma canção. Às vezes concordamos sem saber porquê...

É um processo bastante democrático...

EL - Não sei se será democrático... nós nunca votamos. É só trabalho. E quando trabalhamos de forma conjunta, chega a um ponto em que pensamos "sim, é esta a versão final". Não há discórdias, não precisamos de votar.

Disseram numa entrevista que a vossa maior ambição para a altura era tocar nos E.U.A.. Qual é a vossa próxima ambição, se é que existe?

IE - Acho que hoje em dia o nosso principal objectivo é viver da música, sem nos preocuparmos com o dinheiro.
EL - Sim. Gostava de tocar por todo o mundo e não perder dinheiro. Fazer tours decentes pela Austrália, pelo Japão... é muito stressante, nunca temos o dinheiro à vista. É uma espécie de maratona. Gostava de tocar em todo o lado e regressar a casa, ver as nossas namoradas...

Planeiam voltar a estúdio depois desta tour, ou vão descansar?

EL - Vamos guardar algum tempo para nós.

Ainda estão a cavalgar a onda Subiza?

EL - Sim, sim.
IE - Adorava voltar ao estúdio e começar a trabalhar em coisas novas. Todos gostamos. Por agora é impossível, pois estamos em tour, e quando regressamos a casa só queremos é descansar... temos quatro dias antes do próximo espectáculo, queremos descansar um pouco.
EL - Por agora é tempo de tour, quando acabarmos, talvez tenhamos algum tempo para escrever.

Já vos aconteceu entrarem em algum sítio e uma das vossas músicas estar a tocar? Se não, como reagiriam?

EL - Não... acho que ainda temos uma sonoridade muito próxima do indie rock. Talvez numa discoteca que passe indie... nas discotecas mais tradicionais só vejo espaço para as nossas remixes. Mas lembro-me de quando fomos pela primeira vez a Nova Iorque, entrámos num bar, e estava lá o nosso amigo Dean, da True Panther Sounds, a passar a "Stay Close" e eu fiquei meio "ei, o que é isto?". Foi um bocado estranho, sim.

A mais cliché das questões: a popularidade assusta-vos?

IE - Temos de ser nós mesmos, não pensar em nada. Quando alguém te pede uma foto ou assim, agir de forma tranquila. Estamos aqui para nos divertirmos.
EL - A popularidade não é nem será um objectivo nosso. Às vezes vamos a países onde nos pedem autógrafos e fotografias, e nós faze-mo-lo, porque gostam da tua música, tens de o fazer. Seria má-educação negar um autógrafo a alguém. Mas ao mesmo tempo é estranho... penso que aqueles pedaços de papel não são importantes. Mas percebo-os perfeitamente. Faz parte da cena.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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