ENTREVISTAS
Eddy Current Suppression Ring
Curto, duro e sim
· 13 Set 2010 · 20:46 ·
Quando mal aplicada, a teatralidade serve apenas para retardar a urgência que faz do rock a melhor música para que as pessoas se sintam pessoas. De há uns anos para cá, o rock deixou-se novamente atrair pelos conceitos grandiosos do progressivo da década de 70 e entretanto decidiu também recuperar o glam que levava David Bowie em viagens até Marte (pintando o rosto e colocando astros em todos os palcos). É óbvio que tudo isso serve para atrair atenção, ocupar as cabeças e gerar estrilho no programa de Jimmy Fallon, mas ninguém quer escutar canções sobre o sentido da vida enquanto aperta os botões das calças antes de sair para uma noite de copos. E a epidemia dos excessos alastrou-se de tal forma que passou a ser necessário ir mais longe para descobrir uma banda sem manias e pretensão.

Desta vez, é a Austrália que salva o dia com uns Eddy Current Suppression Ring, que não podiam ser mais directos na abordagem ao género: quatro gajos, que se conheceram numa fábrica de discos, escrevem canções sobre comida e stresses – o melhor é que fazem-no sem merdas e não costumam perder mais do que um ou dois dias a gravar um álbum inteiro. E já lá vão três discos irrisistíveis do homem comum para o homem comum. A falta de segredo nos Eddy Current Suppression Ring encurta, assim, o caminho entre quem precisa dos riffs e uma banda que os tem em abundância, e cada um mais eficaz que o outro. Sem fugir à regra, o mais recente Rush to Relax trata todos por igual com as suas jams objectivas (se é que isso existe). O próprio Eddy Current (guitarrista e teclista) falou com o Bodyspace sobre os hábitos e os episódios recentes do quarteto fantástico.
Como estás? Que tens feito ultimamente?

Está tudo porreiro. Ando completamente acelerado entre gravações e ensaios noutras bandas antes de partir para os Estados Unidos, onde vou passar o resto do ano.

Enquanto tocaram o Rush to Relax em digressão, sentiste que estas canções eram mais propícias a longas jams?

Acho que sim. Isso não significa que tenhamos tocado apenas músicas do novo álbum, ainda que o mesmo ofereça inevitavelmente mais soluções para melhorar um concerto. Fizemos um selecção equilibrada dos três álbuns. Posso dizer que as músicas mais longas e soltas do novo álbum são as que mais gosto de tocar ao vivo nestes dias.

A maioria das bandas costuma aproveitar os sete-polegadas para canções mais espontâneas, mas eu não reparo em grandes diferenças entre as faixas incluídas nos vossos álbuns e os singles lançados em vinil. Digo isto pelas melhores razões. Foi assim tão diferente gravar as músicas do Rush to Relax em comparação com as incluídas num sete-polegadas como Wet Cement?

Nem por isso. As últimas eram apenas canções que não se enquadravam no álbum. Isso não quer dizer que fossem piores que as outras, mas pareciam realmente mais apropriadas para um sete-polegadas e empatavam o fluxo do álbum. Costumamos gravar canções quando as temos e, no caso de terminarmos com sobras boas, tentamos usá-las. Não existe um plano prévio em relação ao propósito de cada uma. No que diz respeito aos primeiros sete-polegadas, essas eram as canções que tínhamos na altura, por isso não dispúnhamos de muitas mais hipóteses.


E, mesmo assim, costumam ter uma boa reserva de canções para splits e compilações. As que entram em compilações partem geralmente de antigas sessões ou é habitual gravarem uma compilação com isso em mente? Gravaram “Iraq (it’s on the map)” a pensar no livro The Lifted Brow?

A maioria é retirada de antigas sessões, mas algumas foram escritas com essa intenção. Eu acho divertido escrever uma canção com um objectivo. A canção “Noise in my head” foi escrita porque um amigo meu precisava de um tema de abertura para um programa de rádio com esse nome. Reservámos o nosso estúdio habitual, como acontece todas as semanas, e foi escrita e gravada numa só noite. A canção “Demon’s Demands” foi escrita para um documentário sobre trabalhadores e direitos laborais. O pedido surgiu de uns tipos com óptimas ideias e intenções, e foi um prazer fazê-lo. A canção já estava quase escrita e só tivemos de adaptar a letra ao tema. “Iraq (it’s on the map)” foi escrita a pensar no livro The Lifted Brow. Ficou escrita numa semana e gravámo-la na seguinte.

Gosto muito de como “Anxiety” e “Pitch a tent” parecem beneficiar de excelentes riffs para orientar as restantes partes das canções. Acreditas que um grande riff basta para que uma canção avance ou são às vezes obrigados a abandonar um riff de categoria?

Acho que escrevemos bem com essa orientação. Se a canção é palpável e apela a todos instantaneamente, é natural que tudo fique mais fácil. Não gostamos de insistir muito na escrita – preferimos explorar a nossa faceta mais instintiva. Por isso, riffs simples, repetitivos e imediatamente gratificantes extraem o melhor de nós. Espero que até hoje tenhamos abandonado apenas riffs medíocres e não os bons.

Como foi gravar com Mike McCarthy?

O Mike foi fantástico. Foi a primeira vez que deixámos alguém fora da banda participar no processo de gravação. Ele conhecia-nos bem e aprecia genuinamente a nossa música. Quando chegámos, ele tinha tudo preparado de maneira a funcionar connosco e foi perfeito. Os amplificadores e a bateria soavam impecavelmente. O gajo fez tudo para que nos sentíssemos confortáveis e tudo ficou arrumado em algumas horas, e é assim que gostamos de trabalhar. Foi uma óptima experiência e quem sabe se não será este tipo de mudanças aquilo que necessitamos para refrescar o quarto álbum.

Fiquei com a ideia de que estavam a curtir à brava com Thee Oh Sees naquela digressão pelos Estados Unidos. Que qualidades destacarias nos Oh Sees? Tens algum disco favorito?

Os Oh Sees são do caralho. Como banda e como pessoas, merecem todo o meu amor. Admiro a auto-suficiência e o controle total que têm sobre um som único. Eles exploram uma identidade sónica que faz com que tudo pareça bom. É como se tivesses ingredientes mágicos com os quais é impossível cozinhar uma má refeição! Também ajuda o facto do John Dwyer escrever excelentes canções e a restante banda tocar impecavelmente. Não existem características fracas naquela banda. O meu disco favorito deve ser o Sucks Blood.


As fotos da vossa digressão pelos Estados Unidos dizem-me que comer bem é também uma das vossas prioridades. Até que ponto são verdadeiros apreciadores de comida? A comida ainda é uma inspiração na escrita de canções?

Não é bem a minha cena. Eu gosto de comida, é certo, mas dou-me por satisfeito com uns burritos ou qualquer coisa. Mas, sim, aproveitamos as digressões como férias e é porreiro comer bem, dormir bem, aproveitar o turismo, viver um pouco. Acontece que a namorada do Danny é doida por comida e as fotografias da comida eram só para deixá-la a salivar.

Quantas digressões já fizeram mesmo pelos Estados Unidos? Sentes que as pessoas que assistem aos vossos concertos voltam sempre com mais amigos numa segunda passagem pela mesma cidade? Isso também aconteceu nos Estados Unidos?

Só lá estivemos duas vezes. A primeira vez foi discreta porque não tínhamos um disco lançado nos Estados Unidos, mas acho que nos safámos bem e a partir daí circulou a mensagem de que éramos uma boa banda ao vivo. Entre uma e outra digressão, a Goner lançou todos os nossos discos nos Estados Unidos e a nossa reputação cresceu um pouco. Por isso, sim, esta última digressão foi um passo na direcção certa. Por onde passávamos as pessoas tinham ouvido coisas positivas acerca dos concertos anteriores. Foi muito fixe.

Como é que acabam sempre a gravar os vossos vídeos na praia? Isso já é uma tradição?

Falta de ideias? Pá, nem sei bem. Para o vídeo de “Which Way to Go”, um amigo nosso andava a insistir para que tocássemos na sua casa de praia e achámos que era porreiro combinar as coisas, e então tocámos para os amigos, fizemos um barbecue e filmámos tudo. Eu esperava que o resultado se assemelhasse a um velho vídeo caseiro e fiquei muito satisfeito.

Para “Rush to Relax”, achei que a canção necessitava de uma atmosfera completamente oposta. Utilizar a praia novamente enquadrava-se no tema de descontracção da própria canção, que também é sobre o escapar ao ritmo da vida, trabalho e compromissos. Por isso fomos procurar uma praia com uma atmosfera industrial deprimente, com fumo e fábricas por toda a parte. Eu adoro aqueles primeiros vídeos dos Devo gravados em Super 8: têm aquele aspecto fantasmagórico e nós queríamos algo dentro desse estilo.

A escolha da melhor cerveja do mundo é unânime dentro da banda?

O Brad seria o gajo mais indicado para te dar essa resposta, mas acho que todos concordamos que Little Creatures é uma excelente cerveja.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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