ENTREVISTAS
Dreams
Na Praia Internacional
· 02 Set 2010 · 19:56 ·
© Sara Couto
João Chaves é Dreams. Ouviu Washed Out e teve uma epifania: não sabia bem o quê, mas algo o atraía no som sonhador do americano (e noutros cultores da baixa fidelidade). Ganhou confiança e decidiu juntar a sua voz, enfiada em reverberação, nas canções pop que começou a compor com samples, teclados e guitarra. Se falarmos em chillwave já sabem do que estamos a falar: música que evoca memórias das férias grandes e músicas pop de outros tempos, que noutras eras o livrinho vermelho do indie desprezaria. Se falarmos em chillwave feito em Portugal já sabem do que estamos a falar: Dreams.
Quando é que te lembraste de montar Dreams?

Dezembro de 2009, mais coisa menos coisa.

É um projecto com uma estética muito definida. Quando começaste, o que é que tinhas em mente?

Tinha muita coisa em mente, por acaso, e ainda andei perdido durante algum tempo. Tinha vontade de fazer algo diferente, a pensar já que se pudesse transpor para o palco. Entretanto comecei a ouvir Washed Out, Wavves, Vivian Girls, Dum Dum Girls e, por conseguinte, tive que voltar a Ariel Pink. Todos eles tinham uma baixa fidelidade e crueza que me agradava imenso. Mas ainda não sabia muito bem o que queria, andava ali no meio perdido. Até que uma vez me pus em frente ao PC com vontade de criar algo diferente. Estava a ouvir Washed Out. Aquelas melodias suaves e simples afectaram-me, e comecei a criar a [canção] "In Dreams". Entretanto, pus-me a fazer experiências com filtros e outros equipamentos para tentar recriar um som "velho", "estragado", "saturado". Não sei se é aquilo que transparece, mas, quando lá cheguei, o tipo de som agradou-me e ficou assim. Entretanto, fiquei empancado na "In Dreams", porque eu já queria de antemão um vocalista. Era complicado ter um vocalista sempre que eu queria ou quando tinha uma ideia que queria desenvolver com a ajuda da voz. Experimentei cantar eu... saiu muito mal, mas entretanto comecei a adicionar delays e reverbs (fui tirar a ideia a Washed Out) e a coisa até ficou agradável. Acabou por ficar assim.

Na "Eating Us" nota-se um universo um pouco diferente, foi a minha tentativa de recriar Wavves, quando ainda n sabia muito bem o que queria, mas até gostei, porque ficou completamente diferente e até se enquadra no meu universo. Se tinha algo específico que queria criar? Não sei, penso que não, apenas parti de Washed Out e fui vendo no que dava.

Quando falamos pela primeira vez assumiste logo essa influência de Washed Out. Geralmente os artistas dizem que nunca ouviram aquela banda a que toda a gente os associa. O que é que te levou a assumir?

Assumi, pois é muito provável que eu tenha começado a fazer este tipo de sonoridade por influência dele. Obviamente que ele não é exclusivo e não é o único presente, mas é uma peça importante do puzzle. E também assumi porque é verdade, não tenho nenhum problema em assumi-lo.

Como o Washed Out, pegas em samples de outros contextos (reconheci "10538" dos Electric Light Orchestra na abertura da "Step 1 (Preparation…Good old days/Some nostalgia)". Como é que escolhes? Navegas pelo YouTube ou pegas em coisas escondidas na tua memória?

Às vezes na memória, outras vezes navego pelo YouTube, mas sinceramente nunca encontrei nada lá que me agradasse, grande parte das vezes vou a lojas de discos e vou procurando e ouvindo. Se me interessar aponto e venho para casa ver se há para download, visto que não tenho material para converter o vinil. Às vezes compro o disco, obviamente, mas tem que valer mesmo a pena.

© Sara Couto

Conta-nos um pouco sobre como é o teu processo de criação.

É magia [risos]. É uma pergunta complexa. Geralmente parto de samples, que são desconstruídos posteriormente, sobre onde, depois, vou trabalhando a parte harmónica em volta do tom desse sample. Outras vezes parto do zero e sou eu que construo o som como quero. Agora vai ser um pouco diferente. Como vou trabalhar com o Ricardo, na guitarra, o processo vai mudar um pouco. Ainda não sabemos em que sentido, mas vai mudar.

A pergunta maldita. Faz sentido falar em chillwave para artistas como tu, Washed Out e Toro Y Moi? Encontras pontos em comum com essa malta ou isto é tudo uma piada?

São rótulos que as pessoas fazem, neste caso os blogues. Há necessidade desse pessoal de agrupar as coisas. O que nós fazemos é música pop - claro que para as pessoas pop não chega, é muito geral, há necessidade que criar um nome fancy que cause um certo hype. Encontro pontos em comum com eles, sim. Comecei em grande parte por causa deles, por isso, haverá sempre pontos em comum, nem que seja por fazer música no meu quarto. Se para as pessoas faz sentido falar de chillwave, que seja, não me importo.

A Praia Internacional [maravilha arenosa que une o Porto e Matosinhos e paraíso das escolas de surf nortenhas], na capa da cassete Forgotten Thoughts, é um cenário chillwave de excepção?

Nem sequer sabia que se chamava Praia internacional, foi uma foto que vi no Facebook da Elisabete e achei que se enquadrava de alguma maneira no EP e no conceito dos "pensamentos esquecidos". Praia e nostalgia de mãos dadas. Perguntei-lhe se não se importava e assim foi.

© Sara Couto

Como tem sido a transposição de Dreams para os palcos? Nem sempre é fácil para artistas com forte dose de samples ou que usem o computador como instrumento.

É um pouco confuso ter que se estar a fazer muita coisa em sintonia, mas, ao fim de algum tempo, as coisas ficam mais fluidas e agora com o Ricardo e o Igor desfaço-me de algumas tarefas, e vai-se tornando mais fácil.

Como estás em termos de edições?

Até agora editei o EP Simples Steps e editei outro EP, Forgotten Thoughts, em formato cassete pela SVN SNS RCRDS, que podem comprar enviando um e-mail para dreamsdontloveyou@gmail.com (estão disponíveis 30 cassetes, mas estamos a ter alguns problemas na recepção, pelo que ainda não podemos enviar). Edições futuras, ainda não sabemos. Estamos a pensar noutro EP ou até um LP, mas sem certezas, estamos ainda à espera de propostas e interessados.

Tens tido uma reacção bastante simpática em muitos blogues estrangeiros. É a tua Praia Internacional.

Tem sido bastante boa até. Temos mandado o Forgotten Thoughts para alguns blogues e dizem-nos bastantes coisas boas. Temos recebido também algumas propostas de editoras, através dessas plataformas, mas ainda está tudo muito verde. Podem é, desde já, esperar duas músicas exclusivas para duas compilações de duas editoras muito interessantes.
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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