ENTREVISTAS
Stereolab
O Tímido por trás da melodia dos Stereolab
· 24 Mai 2010 · 22:40 ·
Stereolab é um daqueles grupos que surgiram de fininho nos anos noventa de dance music e grunge à fartazana, e que acabaram por marcar a década no melhor sentido. Mostraram com um conjunto impressionante de grandes obras, que a música era algo muito mais complexo e abrangente, que havia toda uma história de grandes sons esquecidos, que era urgente recuperar, reciclar, homenagear. Algo que a banda de Tim Gane e Laeticia Sadier fizeram com distinção. Numa altura em que ainda não era moda, recuperaram com novas leituras o krautrock e o easy-listening nas suas mais diversas ramificações, pondo muita gente a ouvir coisas do arco da velha, vasculhando fundos de baús sonoros como nunca antes. Depois, veio o século XXI. E poucas bandas pop estavam preparadas para ele como os Stereolab estavam. Porque 2000 e qualquer coisa são datas que eles já visitavam em máquinas do tempo conduzidas por Lucia Pamela e afins. E facilmente os Stereolab voltaram a convencer com discos de fino recorte, representantes de uma evolução na continuidade que trilha o espaço criado de forma marcante por esta banda, tanto, que agora por vezes, enquanto antes eram os Stereolab que soavam sempre a alguma coisa, agora há inúmeras bandas que soam a Stereolab. Chemical Chords foi o último disco e mote para tentar em 2009 uma entrevista com o mentor melódico dos Stereolab, Tim Gane. Entrevista conseguida infelizmente só muito mais tarde. Em pleno 2010, Maio, o que encerra algumas vantagens, nomeadamente novidades mais frescas, embora nada em aberto em relação a um novo disco. No calendário Stereolabiano, estamos num ano de transição e de pausa, por isso é uma oportunidade para saber mais sobre os anos pré e extra Stereolab, incluindo os obscuros Uncommunity. Eis o recatado Tim Gane para o Bodyspace:
Antes dos Stereolab, o Tim esteve envolvido nos McCarthy. Sei que esteve envolvido na sua última compilação “best of”, That’s all very well..., já agora, um disco maravilhoso...

Bem, estive envolvido em todos os best of, compilações e reedições até agora. Ajudei a compilar as faixas e a remasterizar as gravações. O John é que verdadeiramente junta a coisa, mas sim, ajudámos todos no processo.

E que tal esses tempos? Esquecidos, apagados, ou ainda ouve por vezes algumas dessas canções?

Lá para o meio e finais dos oitentas eram tempos excitantes, bem longe da terrível e negra imagem que muitas pessoas pintam da época. Acima de tudo, era espectacular estar por dentro do que se estava a passar e pertencer a uma banda da altura e participar na sua evolução, activamente, a escrever músicas, fazer discos, tocar ao vivo... Quanto às músicas, sim, de vez em quando ainda oiço alguma velha canção dos McCarthy mas a verdade é que raramente oiço coisas antigas que tenha feito, seja de que banda fôr. Estou muito mais numa de ouvir coisas novas.

Para um fã como eu, fica a noção de que procura há muito a perfeição pop. Pensa que já alcançou isso alguma vez em alguma das suas músicas, McCarthy incluídos? Na minha modesta opinião, acho que o fez, com o distante single "Lo-fi", por exemplo. Mas lá está, sou apenas um fã, e não quem faz as músicas...

Não penso que esteja na corrida à perfeição pop. Os meus gostos pessoais sempre foram demasiado fora para isso, mas posso concordar que com os McCarthy realmente procurei um certo pop nirvana. Contudo, com o Malcolm a cantar sobre AntiAmericanCretins e Stock Exchanges, o pop nirvana foi sempre um lugar difícil de chegar.

E com os Stereolab? Bem, com os Stereolab houve sempre objectivos musicais e artísticos bem mais complicados a atingir. Para mim, a melancolia é o leme da pop e esta nunca será perfeita sem esse elemento. Neste momento não me faz sentido a melancolia, soaria-me a falso como um bonito manequim.

Voltando às raízes dos Stereolab, sei que os McCarthy tiveram algum sucesso em França nos oitentas. Laeticia era de alguma forma, uma fã da banda? Como é que se conheceram?

Por acaso, num concerto que fizemos em Paris. Ela ouviu-nos e veio-nos ver é certo, mas não tenho a certeza se ela era uma fã daquelas tipo número 1.


Stereolab começou nos noventas. Obviamente envelheceram desde essa altura, mas e no que toca à banda? Amadureceram também, ou é o oposto, os Stereolab estão cada vez mais novos e jovens de espírito?

A natureza da nossa música é fresca, o seu perfume é fresco, por isso acho que sim, é o oposto.

Os McCarthy tinham letras muito políticas, do tipo extrema-esquerda-vegetariana. Stereolab, sobretudo no início, eram também muito assim, mas com o tempo, tornaram-se muito mais livres, num estilo de improvisações e jogos de palavras sem tanto significado politico. Porquê? Tornaram-se burgueses?

Malcolm não era vegetariano! Acho que até posso dizer que ele os desprezava. Também não acho que ele fosse muito extremista. Ele era de observar mais o que estava a acontecer na altura e comentava isso nas músicas. No que toca a mim, nunca escrevi uma letra que seja na vida, a mim interessa-me única e exclusivamente a roupagem sonora. Eu até podia ser um completo fascista mas nunca mexeria nas letras e no seu conteúdo. Aí vais ter de perguntar à Laeticia.

Que tipo de música ouvias nos oitentas e nos noventas que fez mudar tanto o som entre os McCarthy e os Stereolab? Ou foi apenas uma questão de liderança, tipo, agora nos Stereolab tens o contrôle total e antes não?

Eis uma questão cuja resposta é longa e na qual me posso perder, mas vou tentar ser sucinto. Antes dos McCarthy tive uma banda chamada Uncommunity. Tocávamos electrónica pesada e noise, muito influenciados por Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire, Whitehouse, Nurse With Wound e afins. Eu era muito influenciado também por 60’s garage punk, Velvet Underground, The Residents, Krautrock (sobretudo Faust) e Pós-Punk. Eu mandava no som dos Uncommunity mas nos McCarthy eu era apenas 1 de 4 pessoas e todos tínhamos mais ou menos decisão na matéria. O “som” acabou por ser sem dúvida muito pop, mas eu também queria explorar isso e comecei a incorporar nas minhas ideias de composição, elementos de pop contemporânea como Felt, Go-Betweens, Primal Scream do início, para além de bandas mais antigas como os The Byrds, Beach Boys, Zombies… No fim dos McCarthy a minha ideia era seguir em frente e fazer pop, tal como agora mesmo, e incluir todas as minhas influências do início. Conhecer mais sobre o meu primeiro grupo Uncommunity explicará melhor a transição em termos de som entre as duas bandas posteriores.

É famoso por ser um coleccionador ávido de discos. Quantos tem neste momento? Coisas raras e estranhas?

Eu não os conto mas tenho certamente uma grande parede cheia deles. E tudo isso seria um terço apenas do que poderia ter se não tivesse vendido nenhum na minha vida. Tive de vender para comprar mais, entende? Quanto aos que tenho, sim, muitos são raros e música estranha, sem dúvida! Mas honestamente não acho de todo interessante ter carradas de discos pela fama de os ter. Eles acumularam e coleccionei-os porque tinha curiosidade neles, em ouvi-los, e depois apaixonei-me por eles. Quando digo discos, digo vinil claro, porque na altura era a maneira de arranjar música. Ainda compro vinil, aliás, hoje por acaso comprei 8 discos, mas apenas porque quero ouvir música com boa qualidade e porque quero ajudar como posso as editoras que sejam interessantes, as lojas de música que sejam interessantes. Mas atenção, não sou apenas um bom rapaz, porque depois vou guardar egoistamente o que achar mais precioso.

Sei que é um pouco uma pergunta cliché, mas tem algum disco preferido dos Stereolab?

Single: "Fluorescences". LP: Sound Dust. 12": Simple Headphone Mind (com Nurse With Wound)


E haverá outra vida depois dos Stereolab? Já pensou no fim da banda? Ou serão eternos? E um disco a solo de Tim Gane, já pensou nisso?

Tim Gane a solo, nunca! Não gosto de discos a solo. Quanto aos Stereolab, o grupo está a tirar um tempo por enquanto, o futuro veremos depois, de queremos continuar. Eu quero tentar outras coisas. Mas nada a solo!

Como é que foram parar à 4AD com Chemical Chords? Por causa de melhores condições, dinheiro, ou porque são fãs do catálogo 4AD?

Posso adiantar que já não estamos mais com eles. Tínhamos assinado com a Beggars Banquet e eles é que nos puseram na 4AD.

E porquê gravar Chemical Chords num estúdio, Instant Zero, em Bordéus? Por causa do vinho? Estou a brincar. Mas porque trocaram Inglaterra?

Bem, o estúdio mudou novamente e agora é parte em Londres e parte em Berlim, onde vivo. Neste momento estou a responder-lhe no próprio estúdio, que não me parece nada de especial, mas está reservado só para mim para poder fazer música e só isso já é algo de especial, uma sensação boa.

Há muito tempo atrás, perdi o vosso concerto fim de tarde - hora de jantar no Festival Sudoeste (vocês mereciam bem mais). Quando é que regressam a Portugal para um concerto (esperemos com muito melhores condições)?

Tenho pena, mas penso que não tão cedo.

Também temos muita pena.
Nuno Leal
nunleal@gmail.com

Parceiros