ENTREVISTAS
YACHT
Marfa, Texas
· 03 Mai 2010 · 22:25 ·
Para os norte-americanos YACHT, é evidente que há um antes e um depois de Marfa, Texas. Jona Bechtolt não ousou sequer esconder este facto por entre revelações importantes acerca do sistema de crenças da dupla que se no seu núcleo fundamental completa com Claire L. Evans. Foi de lá que trouxeram em mãos o último disco que lhes conhecemos, See Mystery Lights (com selo da DFA Records); foi lá que descobriram como seguir em frente com os YACHT (tal como aconteceu com Travis em Paris, Texas). Esta é uma banda que precisa de impulsos para garantir a sobrevivência; e não tem medo de esconder aquilo em que acredita. Numa entrevista sumarenta ao Bodyspace, Jona Bechtolt mostrou dotes de profunda clarividência no que toca à evolução da música (e à sua possível vindoura gratuitidade), assim como uma visão ampla da forma como a vida se relaciona com a arte numa conversa cheia de imagens do futuro.
Dizem que os YACHT não são apenas uma banda, que é também um sistema de crenças e um negócio. A parte do negócio é fácil de entender, mas podes dizer-nos um pouco mais sobre o sistema de crenças?

Estamos muito contentes por teres perguntado isso. As bases fundamentais do sistema de crenças dos YACHT pode ser encontrada no nosso novo livro (lançado expressamente para cumprir este propósito), The Secret Teachings of the Mystery Lights: A Handbook on Overcoming Humanity and Becoming Your Own God. Internamente, referimo-nos a este tomo como a “bíblia” dos YACHT, mas é muito menos dogmática do que isso. Escrevemos o livro para que as pessoas fossem capazes de entender que o sistema de crenças dos YACHT é essencialmente não-religioso (ou seja, nós não somos um culto) e, na verdade, muito útil se implementada correctamente.

Encontram nesta banda uma auto suficiência ao mesmo tempo artístico e financeira? Acham que vão levar a experiencia YACHT através dos tempos, num longo percurso?

A auto-suficiência financeira não é tão importante como a auto-suficiência artística, mas é importante reconhecer que as finanças são parte integral de ter uma banda funcional. Sim, fazemos dinheiro. Não muito, mas é uma parte do processo. Desde que sejamos capazes de fazer o dinheiro suficiente para continuar a levar o nosso trabalho para o público – o que é caro, especialmente com uma banda – vamos continuar a fazê-lo.


O que é que mantiveram nos YACHT entre 2002 e 2008 ou o que é que tentaram negar nesta nova versão dos YACHT? Sentem essa necessidade em evoluir? Por exemplo, sei que o vosso álbum See Mystery Lights foi escrito e gravado no deserto do Texas. Acham que isso afectou o sentimento geral do álbum?

As mudanças nos YACHT através dos tempos têm pouco a ver com a intenção; foram causadas completamente de forma orgânica pela nossa experiencia partilhada de algo paranormal, as "Mystery Lights" de Marfa, Texas. São um fenómeno óptico que testemunhamos repetidamente no faroeste do deserto do Texas, onde gravamos o See Mystery Lights. As luzes reorganizaram completamente o nosso sistema de crenças, assim como o nosso entendimento ingénuo do Universo. Apercebemo-nos que durante séculos de civilização, até mesmo os fenómenos mais banais do mundo eram mistérios inescrutáveis, antes da “magia” caprichosa natural do mundo se ter tornado ciência. No nosso mundo corrente rico em informação, e para pessoas como nós que nasceram com acesso a computadores, cujas vidas inteiras foram influenciadas pelo constante acesso ao conhecimento, o mistério que as luzes de Marfa representa é muito poderoso. É uma experiência que muda a perspectiva. Os YACHT nunca poderiam ser os mesmos depois, por isso dedicamo-nos a fazer música que reflectisse aquilo que estamos a sentir, as coisas sobre as quais meditamos na presença daquelas luzes. Todo o sistema é devedor à experiência – e os elementos dos antigos YACHT que trabalharam bem com esta nova estética e ideologia, foram mantidos. Na verdade, adicionamos apenas a um contexto que existia já previamente, vida que respira e energia como o Frankenstein de Mary Shelley a acordar de um longo sono.

Como é que foi gravar o álbum lá? Sentem que também precisaram de um local diferente para criar música, um espaço novo e livre de experiências anteriores?

Gravar e trabalhar em Marfa foi uma experiência muito natural e intuitiva. Mudamo-nos para lá sem qualquer intenção de fazer música, apenas para experienciar o que seria viver perto de um mistério moderno real. Queríamos conhecer pessoas e escavar mais a experiência das luzes. No entanto, ao fim de dois meses, olhamos para as nossas mãos, e vimos que tínhamos feito um álbum, e é isso See Mystery Lights. Nem é preciso dizer, mas o nosso tempo lá foi profundamente transcendente para nós – sentimos como se estivéssemos a ser guiados por uma revelação.


Estas novas mudanças eram absolutamente necessárias para permitir que os YACHT continuassem? Os YACHT estavam a pedir por uma mudança?

Nunca ninguém sabe quanto precisa de uma mudança até que isso os atinge fisicamente na cabeça. Vimos o futuro abrir-se perante nós num instante breve quando estávamos no deserto do Texas e soubemos ali que direcção tínhamos de tomar. A oportunidade e o destino apresentou-nos uma porta, mas nós decidimos atravessá-la. Não nos arrependemos.

Mudando o assunto, ou talvez não, sei que acreditam que a música e a internet serão gratuitas um dia. Quanto tempo acham que irá demorar e quantos milionários irão à falência por causa disso?

Mudanças culturais massivas como a “internet gratuita” e "música gratuita" não acontecem porque as pessoas querem que elas aconteçam, ou porque alguém tenta com muito empenho que aconteçam. Elas acontecem organicamente, sem esforço, porque as forças de milhões de pessoas usando a informação de uma certa forma tem o poder de rearranjar completamente a realidade. As pessoas que pirateiam música, software, e informação não o fazem por malícia ou até pelo desejo de destruir o sistema: fazem-no porque querem viver para além dos seus próprios meios e participar na cultura. Querem ter participação nos filmes, na música, nos media, e estar envolvidos neste novo ambiente criativo gerador de media desta nova geração. E porque este desejo nunca desaparecerá nas pessoas, e nunca será saciado, a internet irá mudar-nos enquanto a utilizámos.


Porquê Young Americans Challenging High Technology para nome da banda? O que mais achas que os jovens norte-americanos deviam desafiar?

Quando usamos a palavra “desafiar”, não estamos a falar de lutar contra alguma coisa; em vez disso, nós “desafiamos” como uma forma de aprendizagem – discutir, debater, experimentar. Nós desafiamos a tecnologia ao utiliza-la de formas para as quais não foram criadas originalmente. Tratamos o computador como um instrumento de punk rock, andamos com ele aos pontapés. Fazemos vídeos em power point, imagens em programas para editar vídeo. Fazemos sites que são projectos de arte, e manipulamos as questões da percepção inerentes da tecnologia para nossa vantagem. Afinal de contas, vivemos numa era em que todas as mensagens dos media são recebidas da mesma forma: como imagens de duas dimensões num ecrã. Quem faz essas imagens não é sempre perfeitamente claro. Temos as mesmas ferramentas de software que as editoras maiores, as agências de publicidade, e podemos criar as nossas próprias identidades usando essas ferramentas. A tecnologia é uma chave para soltar o mundo. Nada precisa de ficar por desafiar.

Já disseste - e está escrito no vosso Myspace – que os YACHT não são um culto. O que é que querem que os YACHT signifiquem para as pessoas?

Somos bastante firmes acerca daquilo que os YACHT não são, mas estamos bastante abertos em relação àquilo que os YACHT podem ser. Honestamente, se as pessoas encontram algum valor em acreditar que os YACHT são um culto, então estamos felizes por elas dessa forma. Para que fique registado, esse não é o caso, mas a música tem tudo a ver com interpretação pessoal. Só podes amar alguma coisa se essa coisa significa alguma coisa pessoa para ti; essa é a grande subjectividade da música. Nós fazemos todos os possíveis para nos apresentarmos a nós mesmo exactamente da forma que queremos ser entendidos, mas no final, assim que fazes alguma coisa e a colocas no mundo, deixa de te pertencer. Praticamos uma espécie de separação. Esperamos e desejamos que as pessoas encontrem aquilo que precisam, aquilo que querem, aquilo que aspiram retirar dos YACHT.

O que é eu devia ter perguntado que não perguntei?

Fizeste um grande trabalho.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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