ENTREVISTAS
Emmy Curl
A beleza dos contrastes
· 05 Abr 2010 · 16:53 ·
Apesar da sua tenra idade, Catarina Miranda já construiu um mundo só para si. Chamou-lhe Emmy Curl. Nasceu num ambiente artístico, aprendeu a tocar guitarra muito cedo, descobriu a sua voz e percebeu o que poderia criar se juntasse as duas. Tem hoje vinte anos e a canção está-lhe nas veias. Nasceu em Vila Real e fez disso uma vantagem; descobriu a internet, descobriu as regalias de viver fora dos dois grandes centros urbanos do país. Pode parecer que aconteceu tudo demasiado rápido, mas Catarina não se sente de forma alguma uma artista precoce. O EP Ether, com 11 canções, e o seu myspace, mostram uma voz estranhamente segura para a sua idade, dada a movimentações etéreas e a cenários de profunda beleza – que não a assusta. Em “Like the Rain” descobrimos até uma Emmy Curl emocionalmente envolvida com batidas electrónicas, à procura de novos rumos; descobrimos que o vem aí pode e deve ter contrastes. E porque quisemos descobrir mais (muito mais), fomos falar com Catarina Miranda para nos acercarmos um pouco de Emmy Curl e entrar lentamente no mundo que existe entre ambas.
Nasceste num ambiente descrito como artístico. O que é que nos podes contar acerca desse teu crescimento entre as artes?

Nos meus longos nove meses na barriga da minha mãe já estava a ser cultivada com música. Os meus pais fazem canções antes da minha existência, durante e ainda hoje, tanto que ainda mal sabia falar e o meu sonho era ter uma máquina de gravar voz em cassete (que cheguei a ter no meu 4º aniversário mas veio estragada)! Acho que tinha oito anos quando tive uma pela primeira vez, desde aí era viciada em gravar tudo, inclusive as minhas aulas da primária! Nunca tive jeito para matemática nem ciências, todas as minhas boas notas desde que me lembro foram derivadas das aulas de EVT, Música, Expressão Dramática e tudo que incluísse mãos (menos educação física). Levava sempre no bolso cadernos para pintar com aguarela, e ficava horas a ver as flores e a tentar desenhá-las. Nas montanhas há sempre vistas maravilhosas das varandas, Vila Real é um sítio muito bonito para contemplar e talvez me tenham feito uma pessoa ainda mais sensível. Antes a minha mãe fazia umas misturas em tela com flores e frutos secos e o meu pai desenhos geométricos e tracejados, por isso tinha o bichinho dentro de mim e muitos pincéis e acrílicos pela casa com pó de saudade que me chamavam baixinho. Ora eu lá fazia umas pinturas oníricas cheias de ornamentos que ainda hoje as trago comigo, e foi há muito pouco tempo que comecei a trabalhar a óleo... E foi das coisas que mais me surpreendeu.

Sei que o que descobriste em 2001, com 11 anos, mudou muita coisa para ti. Eu sei o que é porque li, mas a maior parte das pessoas não sabe. Podes dizer-nos o que foi?

Aos 11 anos experimentei a guitarra do meu pai e descobri que até me safava! Comecei primeiro por tocar as músicas dos meus cantores favoritos, a cantá-las, a saber as letras em inglês, depois experimentei criar as minhas próprias melodias. Usava o estúdio dos meus pais para gravá-las, e ouvia-as um milhar de vezes cada uma com o motivo de encontrar defeitos até chegar a detestá-las. Como ainda não tinha internet (e talvez seja uma das coisas que agradeço por não ter tido) o tempo era todo meu, a obsessão de gravar aquilo que eu queria ouvir de mim mesma era enorme e ainda persiste. Desde essa altura tenho mais de 40 gravações completas de canções, não é só um vício da música, penso eu, mas sim de a fazer melhor.

És muito crítica com o teu próprio trabalho? Sentes que às vezes tens de mandar algumas canções para trás ou até agora não sofreste ainda de bloqueio criativo?

Não há ninguém mais crítico que nós quando se trata de avaliar o nosso trabalho, e eu faço-o de forma as vezes cruel, tanto que passo a odiar uma música que fiz pelo simples facto de a criticar até à exaustão... Por vezes nem volto a pegar nelas, ficam presas no tempo, como uma tentativa falhada que serviu de veículo para algo mais evoluído. Mas nunca sofri um bloqueio criativo, o que não gosto deito para trás e tento fazer melhor quase todos os dias!

Não te sentes um pouco precoce às vezes? Dá a impressão que começaste a fazer muita coisa numa idade muito tenra. Achas que perdeste ou ganhaste alguma coisa com esse “avanço”?

Não acho nada precoce, tive sorte em ter uns pais dedicados à música com um estúdio para eu "brincar"! Sinto-me é afortunada, porque se todos os músicos tivessem, em tenra idade, oportunidade de gravar as suas próprias melodias e ouvi-las as vezes que quiser até aprender a não cometer os mesmos erros, estávamos num mundo mais competitivo do que a própria internet! Como tenho dezanove anos sinto que ganhei muito tempo.


Como foi descobrir a música em Vila Real? Sentes que perdeste alguma coisa pelo facto de estares fora dos grandes centros urbanos ou achas que a internet hoje em dia encurta essas distâncias?

Pelo contrário, Vila Real foi um ninho muito primaveril para a minha personalidade, e pela exacta falta de ligações para o exterior fez com que crescesse completamente ingénua do pessimismo português. Nunca ninguém me disse em pequena que não poderia ser Compositora de canções por não ganhar dinheiro, ou porque simplesmente ser de uma pequena cidade longe do circuito urbano que nunca iria ser ninguém...Também não me disseram o contrário...penso que sabiam que já nasci predefinida para ser quem quisesse ser. Não ser de Lisboa só começa a ser um incómodo quando tudo aquilo que tenho para fazer em Trás-os-Montes está feito, como agora mesmo, é impossível chegar às montanhas e não fazer uma música... É quase como um chamamento da Natureza, mas se não lanço as minhas 13 ou 14 últimas criações vou acabar por não me identificar mais com elas e é ai que a Internet entra, nunca ela foi tão precisa e tão preciosa para os artistas de todo o mundo como hoje em dia!

Aprecias essa liberdade que a internet te possibilita? Quando e como é que começaste a mostrar as tuas canções online?

Só comecei a ter internet aos dezassete, só passaram três anos desde que criei o meu myspace e é incrível como em tão pouco tempo obtive tantos contactos e concertos. Ao início nem sabia que o myspace existia, foi o meu tio avô que me disse para cria-lo (é bizarro ter sido o meu tio avô a dar-me este conselho, mas até a minha avó tem facebook!), acho que foi com a sua criação que me deu mais vontade ainda de fazer mais musica e mostrá-la ao mundo.

Sei que frequentaste o Conservatório Regional de Vila Real por três anos em guitarra clássica e um ano de iniciação em Canto Lírico. Tudo o que aprendeste aí é valioso ou sentes por outro lado que tiveste de perder alguns vícios que muitas vezes se adquirem no ensino musical e que impedem de certa forma, muitas vezes, alguma criatividade?

Concordo plenamente contigo, mas os três anos de guitarra não me deram tempo para criar vícios mas sim para aprender as técnicas mais essenciais, como o dedilhado que uso bastante, ou um ritmo ou outro, que estavam todos dentro de mim à espera de ser lembrados. O ano de iniciação em canto lírico foi preciosíssimo, por mim foi o suficiente, visto que felizmente aprendo rapidíssimo na área da imitação das técnicas vocais.

Pretendes continuar esse ensino musical académico a alguma altura ou achas que já aprendeste tudo o que tinhas a aprender para criar?

Essa é uma questão que tem dois lados... Porque por um não há necessidade de aprender mais do ensino académico musical porque aquilo que consigo fazer já me faz muito feliz, por outro nenhum saber vem em demasia, quanto mais soubermos melhor, temos é de ser inteligentes e condicionar essa sabedoria de forma a não nos controlar.


Estás a estudar neste momento? O quê, se podemos saber?

Neste momento não estou a estudar. Tinha entrado para cinema no Porto mas desisti do curso e estou neste momento a fazer teatro em Aveiro.

Voltando à música propriamente dita, pelo que li acerca de ti tens uma escrita muito frutífera. Sei que tens já contigo algumas dezenas de canções escritas. É fácil para ti escrever canções?

Sim, na verdade as letras das minhas canções começam com vogais e sibilantes que encaixem nas notas (sim porque faço a música primeiro) depois começam a sair palavras da minha boca que condizem com as harmonias e daí começa a surgir a letra ao todo e o tema em si.

Quais são as tuas vozes de eleição? A quem é que depositas toda a tua crença na canção?

Hum... Eu não tenho ídolos, nem muito menos vozes de eleição. Gosto de coisas particulares em cada vocalista, oiço muito de tudo, adoro Little Dragon que me têm inspirado muito, gosto de Zero 7, José Gonzalez, The Vanduras, Andrew Bird, etc.

Tens viajado com a tua guitarra, chamada Óscar, por Portugal nos últimos tempos. Como é e o que é para ti dar concertos, apresentar as tuas canções ao vivo? É um processo natural, com o qual te sentes à vontade?

O Óscar está reformadíssimo, portanto o meu novo companheiro chama-se Artur e é um senhor muito simpático que se estreou num dos meus grandes concertos no festival Vagos em Acústico. Dar concertos para mim é o processo mais nato da música, é como descobrir o amor e dar à luz um filho, sinto-me mais à vontade a dar concertos do que a cantar karaoke! Na verdade é o que me dá mais prazer, mostrar no imediato as canções que estão guardadinhas no nosso ser e sentir o silêncio de delícia das pessoas que me vêm ouvir.

Uma última pergunta: quão diferente é a Catarina Miranda da Emmy Curl? São em algum momento a mesma pessoa?

Emmy Curl é a minha personalidade exteriorizada, ou seja, aquilo que eu quero que seja visto, quase como uma máscara do teatro pintada de branco com contornos sépia. Se as pessoas quiserem ver quem eu sou realmente ouçam a minha música.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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