ENTREVISTAS
Descendents
A travessura dos quarenta
· 20 Nov 2004 · 08:00 ·
Nem só de angústia juvenil se alimenta o punk. Ter de lidar com as contas da casa por pagar e o melhor rumo a dar à descendência directa pode também ser contra-cultura. É pelo menos bem mais sincero que as confissões amorosas "bubblegum" que hoje se fazem passar por punk. Após infinitésimos litros de cafeína e anos a fio passados em intermitência criativa, os Descendents cedem finalmente ao sedentarismo em Cool to be you. O Bodyspace voou até Los Angeles para recolher, em discurso directo, as impressões do homem que durante muitos concertos ao comando da bateria dos lendários Black Flag se viu obrigado a ver o rabo de Henry Rollins (Henry Galfield, nessa altura): Bill Stevenson, figura de proa do punk rock de velha guarda. Sem abrandar no "output" ou evidenciar cansaço (veja-se os projectos em que milita e os discos que tem produzido), Bill responde sem pensar duas vezes.
Acabou de regressar do espectáculo de 30º Aniversário dos Ramones, não é verdade? Que tal correu?

Cresci a ouvir Ramones. O simples facto de ter sido convidado é fantástico. Diverti-me imenso.

Com que outros músicos partilhou o palco?

Joan Jett, C.J. Ramone, Josh dos Queens of the Stone Age, Daniel Rey, Andrew W.K., Alan Vega.

Algum ponto alto?

Todo o evento foi um ponto alto para mim. Hmm.... A Joan partiu a loiça, e divertiu-se imenso com isso. Oh! E eu toquei baixo e cantei "I wanna be sedated" durante o ensaio enquanto Clem Burke tocou bateria. Isto também foi divertido.

Qual foi a importância do EP Merican como aperitivo para o álbum?

Não sei. Talvez ajude a "label" a aquecer os motores promocionais. Mesmo assim, é um CD porreiro.

Como se sentiu ao ver-se ao lado dos Descendents após oito anos?

Divertimo-nos sempre imenso. O Milo é o meu melhor amigo, e tem-no sido por muito anos.

No que diz respeito a Cool to be you, o resultado acabou por corresponder às suas expectativas?

Para ser honesto, não tinha expectativas concretas. A nossa banda rege-se pela individualidade das canções, e, por isso, é frequente sermos surpreendidos pelo resultado final dos nossos discos, porque permitimos que as canções ditem o resultado, em oposição a um processo de composição pré-determinado.

A Epitaph teve um excelente desempenho na promoção de Everything sucks. Quão diferente é ser-se lançado pela mão de um fã tão acérrimo como Fat Mike?

A Fat fez um bom trabalho, especialmente se tivermos em conta que ainda não demos um concerto sequer.

Como vão as coisas com os Only Crime?

Tudo tem corrido bem. Temos uma série de digressões planeadas, e o grupo está "cheio de pica" no que toca a levar as coisas a bom porto. As vendas têm sido significantes - à medida que as pessoas se habituam à ideia de que esta é uma banda verdadeira, e não um projecto secundário ou de um disco só.


E os Last?

Não me poupo a elogios sobre os Last. Eles são os maiores. Começaremos a gravar a 2 de Novembro, e estou muito entusiasmado. O Joe (Nolte) já conta com excelente material a trabalhar.

Já se passou bastante tempo e é provável que já tenha escutado esta questão centenas de vezes, mas não resisto a perguntar-lhe sobre a perspectiva que tem dos anos passados nos Black Flag?

Eu era muito jovem e ingénuo, daí que me preocupasse essencialmente em gozar a vida, armar-me em estrela de "rock" e tentar atrair as atenções. Mas aprendi música até mais não… Era muito cativante fazer parte de um grupo tão fantástico em tão tenra idade. Algo que muito me atrai nos Only Crime é a oportunidade de concluir determinados processos que tinha começado nos Black Flag. Explorávamos diferentes meandros musicais naquela altura, mas não fui muito bem sucedido em alguns deles. Nos Only Crime tenho improvisado muito na bateria - algo que já tentava nos Black Flag, mas sem particular sucesso, devido à minha inexperiência.

Após uma vista de olhos pela sua extensiva carreira como produtor, acabei a pensar em como teria "domado" os Zeke...

A que te referes com "domar"? Por ter sido o primeiro a gravá-los? Ou o quê? Eu adoro Zeke. O Marky é um excelente guitarrista.

Na minha colecção de discos, os Descendents encontram-se entre Desaparecidos e Desmond Dekker & The Specials. Que tal lhe parece a vizinhança?

Não estou suficientemente familiarizado com qualquer um dos grupos para fazer qualquer comentário relevante.

A cada dia que passa é frequente vermos a palavra "punk" no top justo de Ashlee Simpson na MTV. Isso aborrece-o?

Nunca fiz parte do clube - desde os meus tempos de estudante - por isso não me importo de estar fora dele. Não presto atenção ao que os yuppies vestem. Quem é a Ashlee Simpson? Uma daquelas barbies MTV? Não vejo MTV…

Vi os All na Deconstruction Tour e notei que hinos como "I'm not a loser" e "Rotting out" (ambos dos Descendents) arrancaram uma reacção intensa ao público. Qual é a sensação?

É divertido tocar qualquer coisa que agrade ao público, mas acho que te referes a... É estranho que gostem mais das músicas de Descendents do que das de All? Esse é um eterno problema. As pessoas estão mal habituadas. A verdade é que os All serão sempre a banda culpada por não ser os Descendents.

Agora que todos os membros da banda têm uma família e diversos projectos, podemos esperar que voltem à Europa? Há hipóteses de passarem por Portugal?

All? Sim, provavelmente. Only Crime integrará a Deconstruction do próximo ano.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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