ENTREVISTAS
Sir Alice
Alice no País das Maravilhas
· 05 Out 2009 · 18:33 ·
Não parece haver já distinção entre a persona e a pessoa no caso de Alice Daquet. As diferenças foram-se esbatendo com a criação. Ela é um dos nomes grandes do selo Tigersushi e uma eterna surpresa sempre que sobe a um palco. É conhecida por ter cantado no projecto Nouvelle Vague mas diz nada ter a ver com esse mundo; prefere rasgar caminho próprio, quer se agarre à música por si ou a todos os mundos que giram à volta dela. É uma mulher de fusões e artista que quer explorar tudo o que uma vida dedicada à arte pode proporcionar. Ela é também um dos nomes grandes da 4ª edição do festival TRAMA mas quando lhe perguntamos como seria a sua actuação, no próximo dia 10 de Outubro, soltou um “bem” reticente e misterioso e ficou-se por aí – não quis contar mais. E isso obriga todos aqueles que queiram conhecer melhor Alice – com prefixo Sir ou sufixo Daquet - a descobrir tudo e mais alguma coisa no próximo sábado na TRAMAda cidade do Porto.
Começo com uma pergunta simples mas directa. Quão diferente é ser Sir Alice e Alice Daquet?

Ainda pergunto a mim mesma. Sir Alice deveria ter sido como um projecto, ou o nome de uma banda mesmo que eu seja o único membro. Agora parece que é mesmo eu…

As coisas aconteceram muito rápido para ti. Aos 23 anos já davas grandes passos na tua música, no teu trabalho. Alguma vez sentiste que perdeste algo de importante durante esses anos ou estás apenas feliz com toda essa urgência?

Não, nunca perdi nada. Estou feliz. Estou a viver a música que escrevo, o projecto que tenho. Esta é a melhor coisa que me poderia ter acontecido. Viajo muito sozinha, é certo, poderia ter sido difícil estar longe a toda a hora, mas eu sou uma solitária por isso tive aquilo que esperava, de certa forma. De qualquer das formas, mesmo que não tivessem lançado os meus discos teria continuado a fazer esta música, e a fazer o que faço agora, as performances, os vídeos, as fotografias. Lançarem os meus discos é apenas a parte industrial do meu trabalho. Estou a viver da minha arte desde há alguns anos, como é que me poderia queixar?

Como é que te sentes por teres a oportunidade de fazer arte do principio do dia ao seu fim? Tens outras actividades não artísticas de relevo, para além da rotina diária?

Não, até mesmo o dia-a-dia parece uma aventura. Comprar tomates poder-me-ia fazer pensar muito! Eu não diria que a minha vida é arte, apenas continuo a pensar constantemente em novos projectos e às vezes gostaria de desligar o meu cérebro.


Tendes a misturar música com performance, body art, pesquisa Sonora. A música por si mesma não é suficiente para ti? Precisas de a confrontar com outras realidades?

Eu apenas faço as coisas em que estou a pensar e devo ter muitas coisas para dizer porque eu faço muitas coisas. Estou a trabalhar noutros projectos media mas a música permanece como uma parte importante do meu trabalho, sozinha ou dentro de outro projecto. Por exemplo, eu escrevo a parte musical ou faço o desenho do som do meu vídeo por mim mesma e é uma parte importante da peça. Baixo profundo, ruído louco, ritmo, voz, as palavras dizem mais do que a imagem em si. Tenho sorte de ter a oportunidade de fazer tudo, assim posso ir mais longe, ser mais profunda, mais louca…

Alguma vez separas a performance da própria música? Ou para ti são apenas duas caras do mesmo conceito?

Já fiz performances sem música e música tocada por ensembles de música contemporânea ou escrita para coreógrafos. Não estou sempre em palco para fazer performances. Não defendo nenhum tipo de particularidade na arte, sou uma intelectual exigente do caralho e defendo muitas coisas, mas aqui tenho de aceitar que não posso desenhar um conceito que diga respeito à parte media da minha arte. É difícil desenhar um conceito na própria arte por isso se começamos a formalizar a forma como a fazemos, é melhor parar… De outro modo, não estou pela multimédia, acho que é uma forma falsa de definir alguém, e os artistas precisam de pertencer a alguma coisa, ou o público falar acerca do que viram ou perceberem o que se passou. É inútil. Para resumir: just do it (Nike significa vitória)


Li no outro dia acerca de ti alguém dizer que tu eras a “melhor encarnação da esquizofrenia na música da Tigersushi”. Achas que isto é a melhor coisa que alguma vez alguém escreveu sobre ti?

Não, há muito melhor do que isso.

Olhando para tua discografia, quando sentes que deste o teu maior passo criativamente falando? Que disco te faz sentir mais orgulhosa e feliz?

Nenhum deles, senão terminava de fazer discos para sempre. É verdade que prefiro as coisas mais recentes do que aquilo que fiz antes, e acho que vai ser sempre assim, acho eu. Às vezes sinto-me orgulhosa das cenas antigas, contente de me ver em performance. Odeio algum do trabalho que fiz considerando-o como experimental.

Mudando completamente de assuno, ou nem por isso, participaste no álbum de estreia dos Nouvelle Vague. Como é que foi essa experiência, considerando que a banda segue um caminho bastante diferente do que tu segues?

É realmente anedótico. O Marc Collin descobriu-me a mim pela minha música e não começou com o projecto Nouvelle Vague nessa altura. Ele queria uma editora de música electrónica para trabalhar com ele e por isso lançaram-me metade na editora dele, chamada Kwaïdan, metade na Tigersushi. Depois fiz um Maxi EP. Depois e apenas depois disso, ele chamou-me porque havia uma canção num projecto em que ele estava a trabalhar, que ninguém era capaz de cantar. Fi-lo e ficou feito. Por isso a minha participação nos Nouvelle vague foi de apenas um ou duas horas da minha vida. Depois de ter recusado entrar noutras canções de outros discos dos Nouvelle Vague por ser tão distante daquilo que eu estou a fazer, eu dizia ao Marc que ele não tinha encontrado nada para mim… Eu tenho uma voz “quebrada” e baixa (eu tenho um buraco nas minhas cordas vocais). Bem, tu percebes, não tenho nada a ver com Nouvelle Vague. O Marc e eu andamos a ouvir os projectos um do outro, respeitamos o trabalho de ambos e ainda trabalhamos juntos em projectos, mas nada que tenha a ver com Nouvelle Vague ou Sir Alice.

Passaste dois anos no IRCAM, Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique. Quais foram as tuas descobertas mais recompensadoras durante esses tempos?

Passei mais de dois anos, quase quarto… E existem imensas coisas loucas, ideias, que provavelmente vão ficar para sempre agarradas e presas no pequeno mundo da pesquisa. A coisa realmente revolucionária que vi foi acerca da espacialização do som e chama-se WFS (Wave field synthesis).

O que é que nos podes contar acerca do projecto que vais trazer ao festival TRAMA no Porto?

Bem…
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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