ENTREVISTAS
Sizo
De dentes cerrados
· 09 Set 2009 · 22:57 ·
Já ouvíamos falar deles por causa da fama dos concertos incendiários e do rock sem rede de segurança. Os Sizo fizeram-se no Porto e agora querem mais; e com Got to Love People Who Set Themselves Up for Disaster estão um passo mais perto de o conseguir. Rápido, furioso e curto, o primeiro disco dos Sizo - chamam-lhe EP mas não há sinais disso no artwork que lhe calhou - lança óptimas pistas para quem quer seguir os Sizo até ao palco, onde tudo acontece com mais intensidade. Os Sizo valorizam ambas as faces desta vida - os palcos e o estúdio - mas parecem apreciar mais a primeira e tem sido aí que conseguem mais adeptos. João Guedes é o frontman da banda e desta entrevista, que esclarece demoradamente o que são os Sizo e para onde querem ir. Daqui a algum tempo trataremos de lhes encontrar o rasto.
À luz dos dias de hoje, qual foi a importância do lançamento do vosso disco de estreia e até do EP Short-Term Position? Indicou-vos pistas suficientes para o futuro?

Em relação ao EP foi importante percebermos o que estávamos a fazer naquela altura, perceber como soávamos. Foi o primeiro registo, e era aquilo que tínhamos para mostrar. Ajudou a perceber o que gostávamos ou não. A formação era outra, mudamos bastante como banda, mas foi importante passar por ali. Percebemos qual o caminho que não queríamos seguir. O Nice To Miss You, foi um disco gravado num dia, numas horas. Montamos tudo num bom estúdio, não tínhamos dinheiro para mais do que esse dia de gravação. O Jorge Coelho, que produziu o disco, já nos tinha visto ao vivo e queria que a atitude e o registo fossem esses. Tocámos as músicas ao vivo e escolhemos os melhores takes. O disco foi lançado no nosso site com download gratuito, e foi a maneira de tocarmos em bastantes sítios sem ter uma edição física. Permitiu que muita gente nos conhecesse, e acabamos por tocar bastante. Isso foi importante.

Em que momento perceberam definitivamente que valia a pena apostar nos Sizo? Algum concerto em especial, o lançamento do disco de estreia?

Para mim foi no primeiro concerto que demos, no Mercedes. As músicas podiam não ser as “certas” mas a atitude ou a “energia” estava lá. Penso que ficamos surpreendidos connosco, com a reacção das pessoas, com o facto de termos dado um bom concerto, com o facto de todos termos sentido que havia ali qualquer coisa. Conhecíamo-nos na sala, mas aquele momento fez-nos ver que havia ali assunto. O facto de não termos uma edição física do disco e irmos tocar aos Açores, ir a Espanha, passar por festivais que foram importantes para nós como Paredes de Coura, fizeram com que essa opinião ganhasse alguma consistência.

© Inês d'Orey

Este novo disco, Got to Love People Who Set Themselves Up for Disaster é bastante curto. Tem 6 temas apenas. Qual é a vossa explicação para isto?

Gostamos de ir mostrando o que vamos fazendo, é normal veres algumas bandas a fazer isso. Vão lançando EPs à medida que têm algo novo para dizer. Não nos preocupámos se o disco tinha de ter 13 músicas ou se tinha de ter X tempo. Era altura de termos um disco cá fora, algo nosso, e essas eram as músicas que tínhamos. Optamos por masterizar novamente o álbum anterior, e juntá-lo à edição, como bónus. Foi uma forma de dar vida a uma edição que apenas foi lançada na internet. Corria-se o risco de ficar perdido por lá. O disco são seis músicas que representam aquilo que somos agora, em contraste com aquilo que fomos em 2007.

Como é que sentem este disco? Foi fácil chegar a este resultado?

Foi natural. Tocamos regularmente e acabamos por chegar a coisas que nos fazem sentido. Não foi nada sofrido, talvez a grande mudança tenha sido menos pedais e menos efeitos em tudo, mais directo.

Fundir os Sonics com os Suicide pode ser uma excelente forma de resumir os Sizo?

Sim, neste momento acho que faz todo o sentido. São duas bandas que nos dizem bastante, e podemos encontrar bastantes semelhanças entre elas. Aquele lado sujo dos Sonics e dos Suicide, um gajo a querer ser o Elvis e a disparar electrónica, outros a tocarem como se não houvesse amanhã.

Em termos de produção e masterização do disco, o que é que nos podem contar? Como é que se deram essas escolhas?

O Jorge Coelho tinha produzido o disco anterior, por isso fazia sentido que produzisse este também. Foi o nosso guru espiritual. Gravámos de maneira totalmente diferente do anterior, com mais tempo. As baterias foram gravadas numa sala, e a régie era dentro de uma carrinha/estúdio. As guitarras, vozes e teclados foram todos gravados nos MP Estúdios no Porto. Em relação à masterização, o Jorge falou-nos do estúdio do Alan Douches em Nova Iorque, o West West Side Music. Já trabalharam com Low, Animal Collective, !!!, Black Dice, Rapture, LCD Soundsystem, Liars, Franz Ferdinand, Mastodon, entre muitos outros, e resolvemos entrar em contacto com eles. O Alan Douches não estava disponível nas datas que pretendíamos e sugeriu a Kim Rosen do mesmo estúdio. A nossa intenção inicial era masterizar apenas o disco novo mas acabamos por masterizar os dois.

No CD bónus deste disco optaram por, como já disseram, incluir o Nice to Miss You com nova masterização. Acham que é importante para quem ouvir o novo disco ter contacto com o álbum de estreia?

Sim. Mesmo havendo músicas que já não tocamos, é uma maneira de ele não se ficar apenas pela internet e perdido. Foi um disco importante para nós. É evidente a diferença entre os dois, e essa distinção é propositada.

© André Tentugal

Li no vosso press release que este disco, o seu título, é dedicado a uma data de artistas que fizeram aquilo que lhes ia na cabeça sem medo de consequências. É essa também a máxima dos Sizo, com as devidas diferenças?

É essa a atitude. Fizemos uma lista de pessoas que se enquadravam nessa frase. Pessoas que nos marcaram, não propriamente relacionadas com a música, mas que tiveram coragem nas decisões que tomaram ao longo da vida. São pessoas bastante mais a favor do dedo na ferida do que das pancadinhas nas costas. A maioria das pessoas não estão para se chatear, logo, acomodam-se porque é mais fácil. Gostamos daquelas pessoas com uma atracção pelo abismo, esses são os verdadeiros heróis.

Vejo uma certa insistência, legítima diga-se, de assumir os Sizo como uma banda portuense. Achas que a cidade fez o som ou a atitude da banda?

Não acho que tenha feito o som da banda, mas tem influência na maneira de sermos.

Há alguma banda em Portugal com a qual os Sizo se identifiquem? Há uma intenção clara da vossa parte de levar os Sizo lá para fora?

Há algumas bandas que nos dizem bastante, por sermos amigos, por partilharmos as mesmas coisas, e por gostarmos da música. A maioria delas são bandas completamente diferentes de nós como os Bombazines, Wingman, Little Friend, Linda Martini, Black Bombain, Mosh, Bunnyranch, Old Jerusalem, etc., etc. O facto de termos uma distribuidora espanhola é um passo para querermos ir lá para fora. Já tocamos em Espanha algumas vezes e fomos sempre bem recebidos. Neste disco pensamos em Península e não em Portugal apenas. Penso que com os Sizo, restringirmo-nos apenas a Portugal, seria um erro.

A frase que termina o vosso press release é “O som dos Sizo é rock tocado alto”. Pelo que tive a oportunidade de ver ao vivo, é assim mesmo. Os Sizo foram feitos para os concertos ou valorizam igualmente a experiência de gravar um álbum?

Temos mais experiência de concerto do que de estúdio, e gostamos muito de tocar ao vivo. Tocamos de maneira diferente num showcase, num concerto ou numa sala a gravar. Dar concertos e gravar um disco são coisas distintas, mas damos a mesma importância. O ser tocado alto, é quase uma reacção ao pessoal que toca rock mas nem muito, que é agressivo mas nem tanto, que é hardcore mas também é melódico, que nem é carne nem é peixe, que tem muitos picos no cinto mas pouco rock lá dentro.

A pergunta é um cliché mas necessária. Quais são os vossos planos para os Sizo? Têm suficiente tempo para apostar nos Sizo como forma de vida?

Era bom ser uma forma de vida, no sentido em que só queremos tocar e gravar. Ter um emprego à parte da banda e receberes ao fim do mês permite-te um certo distanciamento que não te compromete a fazer música. Esse lado é bom, e acabas por tocar o que realmente gostas. Claro que o fugir com a banda e fazer disso a tua vida é um pouco lírico, mas não é impossível, nem está fora dos nosso objectivos.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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