ENTREVISTAS
William Basinski
O Estranho Caso de William Basinski
· 19 Mai 2009 · 01:23 ·
Diz o filme de culto Withnail and I: ”Até um relógio parado marca a hora certa duas vezes por dia.” Serve a frase para relembrar que, mesmo sem surpreenderem pelo movimento, os ponteiros na música de William Basinski destilam um pedaço de tempo até não restar mais do que a essência de um tempo maior. E, no caso de Basinski, a essência é uma melancolia amortecida pelo desgaste, como que afectada por um “quebranto” em gradual desfalecimento.

Inconfundível no paradoxal “belo apodrecimento” que extrai dos seus loops, William Basinski é um nome incontornável da música experimental norte-americana. E os motivos não são apenas de ordem estética: através de um conceito tão ousado quanto funcional, o músico texano concedeu à erosão um papel activo na criação do seu opus.

Os quatro volumes de Desintegration Loops transformaram em informação binária o derradeiro suspiro de algumas fitas, naturalmente deterioradas pelos anos de armazenamento. Fazendo perdurar digitalmente a ruína analógica de tais fitas magnéticas, erguia-se um dos mais sublimes (e ainda desconsiderado) registos artísticos associados ao 11 de Setembro. A grandeza de Desintegration Loops é tal que se tornou no paradigma para tudo o que foi lançado desde então, dentro do legado Basinski e, em certa medida, dentro do género.

Ora, o seu legado reflecte uma dimensão apenas possível no caso de um criador maior. Depois de ter sido descoberto tardiamente por Carsten Nicolai, da Raster-Noton, e revelado ao mundo com Shortwavemusic (1998), sobrou a ideia de que era rico o arquivo de música conquistado durante trinta anos. Esse arquivo haveria de ser revelado aos poucos na última década. A seu favor, The River e o recente 92982 (deslumbrante polaróide sonora da Nova Iorque do início dos anos 80) comprovam que não existe qualquer bluff. Por revelar, permanecem ainda os exercícios de pós-rock (os melhores discos da Kranky que ainda não escutámos?) e uma faceta dedicada aos instrumentos de sopro.

Aos 51 anos, William Basinski apresenta o fulgor dos 25 e a maturidade e sabedoria próprias de um quinquagenário. E não costuma estar errado. Posto isto, é pouco provável que o jet lag impeça o Sr. Basinski de oferecer uma prestação de luxo na sua estreia em território nacional, a 22 de Maio, no
Out.Fest do Barreiro (que receberá outros pesos-pesados como Spectrum e Whitehouse, e a prata da casa). Antes de se fazer história no Barreiro, o Bodyspace perguntou pelas horas a William Basinski.
A partir do que li, retive a ideia de que o “ruído” é para si uma bênção e uma maldição no papel que exerce no processo criativo. Ultimamente, onde o tem encontrado e onde prefere estar para evitá-lo?

Ultimamente, para ser honesto, o ruído que mais me tem atormentado é aquele que tenho na cabeça! Sempre tive otite externa, e, habitualmente, uma vez por ano, os meus ouvidos podem ficar carregados de ruído. Tenho acordado com um zunido, e isso assusta-me um pouco, mas tenho cuidado da audição nesta última semana, e isso parece estar a dar resultado. Tomem cuidado com os vossos ouvidos, miúdos!

No que respeita à variedade de fontes que grava para possível uso nos seus loops, acredita que têm aumentado ou diminuído com o tempo?

A variedade está sempre a aumentar… Onde quer que vá, adoro escutar os sons do ambiente que me rodeia. No último Outono, em Veneza, gravei o chiar de uma veneziana e os sons ambiente da rua situada em baixo, enquanto captava o ruído de um maço de tabaco esmagado por perto. Utilizei-os na minha actuação no Biennale para replicar a deterioração da fita, enquanto Alter Ego tocou uma versão curta de Desintegration Loops 1.1. Funcionou muito bem.

Li também acerca de algumas das suas actuações em grandes espaços de Nova Iorque. É incrível pensar nisso. Agora que grande parte das salas de Nova Iorque parecem cada vez limitadas pelo terreno ganho pela América empresarial, acredita que a música actual e as instalações podem mudar em reacção a isso? Essa mudança já se sente?

Bem… A luta da música experimental é constante aqui nos Estados Unidos, mas sempre foi assim. Nova Iorque, em particular, é uma cidade extremamente comercial, e os imóveis são extraordinariamente caros, o que só torna as coisas mais difíceis. Ainda assim, existem salas fantásticas, tal como o Issue Project Room, em Brooklyn, onde a directora e fundadora Suzanne Fiol tem recebido nova música durante 4 ou 5 noites por semana. Em relação a como isso pode afectar o meu trabalho, eu diria que o efeito é nulo. Eu faço o que faço e tento partilhá-lo quando e onde posso. Felizmente, o financiamento de arte na Europa é muito mais abundante e alimenta novas salas e um apoio necessário. Leva isso a que eu possa ir até à Europa umas quantas vezes por ano para tocar em salas fabulosas. Estou muito entusiasmado com a visita a Lisboa.

Presumo que assumir os vários cargos na gestão da 2062 o aproxime da vontade dos fãs. O feedback que oferecem pode ser um factor quando selecciona as peças de arquivo que devem ser “ressuscitadas”, com todo o trabalho que isso envolve?

Não. Disponho de uma reserva gigantesca de projectos que gostava de editar e selecciono um de cada vez. Por vezes, flutuam nos meus planos ou permanecem no forno, mas sou mesmo assim… Ocasionalmente, surge uma nova peça que muito me entusiasma e que remete um lançamento de arquivo para a lista de espera.

Sente-se cada vez mais perto da ideia de lançar a sua música a tocar saxofone?

Sim, gostava de o fazer em breve. Mas tenho de ensaiar mais! De vez em quando alinho numas jams com uns jovens amigos que tocam aqui, em Los Angeles, mas preciso realmente de assentar, arranjar os meus instrumentos de sopro e começar a ensaiar seriamente para recuperar a boa forma. Espero ser capaz disso neste próximo Verão.


Sabendo da sua amizade com Taylor Deupree e Richard Chartier, e atendendo a que já lançou um disco pela L-ne, como observou a controvérsia gerada pelas “semelhanças” entre as capas de Specification.Fifteen e de No Line on the Horizon, dos U2? Como reagiria se algo semelhante ocorresse com Untitled 1-3?

Eu achei essa situação hilariante! O Richard esteve em Los Angeles há um mês, para tocar comigo num festival, e eu disse-lhe que devia ir até à loja Amoeba Records e colocar o Specification.Fifteen no escaparate reservado aos U2.

Acha que o fenómeno global da Buddha Machine pode ter contribuído para um aumento de interesse na música baseada em loops?

Não sei ao certo.

Já escutou a faixa de Klimek & Husak intitulada “The Godfather (For William Basinski & Snoop Dogg)”? O que sentiu ao ver-se homenageado ao lado de tão ilustre lenda de Los Angeles como Snoop Dogg?

É uma linda música. Não faço ideia de qual é o significado do título, mas acho que é hilariante. Eu adoro o Sebastian. Divertimo-nos muito a beber copos na Polónia, no Festival Focus One, em Poznan, no ano passado. Lembro-me de voltarmos a cambalear para o hotel, com os braços à volta um do outro. Bem… Não éramos os únicos. Era muito tarde.

Como foi tocar no Noise Pop, em São Francisco, com Antony and the Johnsons? Mantém aquela adoração por São Francisco?

Foi muito bom. A sala era o Masonic Auditorium, em Nob Hill. A lotação era de 3000 lugares e a acústica era perfeita. Foi fantástico voltar a estar com Antony and the Johnsons. O engenheiro de som do Antony é impecável e aprecia o que faço, daí que soubesse exactamente o que poderia fazer em meu benefício. Embora eu tivesse sido praticamente empurrado para o palco, quando as luzes se apagaram e sem que o meu nome merecesse qualquer tipo de introdução, o público continuou a falar durante grande parte da minha actuação. Isso não impediu que eu experimentasse uma série de coisas com o volume, que, depois de estar muito alto, permitia ainda escutar a barulheira das conversas. Quase como se fosse parte da mistura. Comecei então a baixá-lo e, de repente, as pessoas começaram a calar-se e a escutar. Divertiu-me a oportunidade de “surfar” entre aquele público, que, bem perto do fim, mantinha o silêncio enquanto escutava. Foi espectacular, de um modo especial.

O Antony foi um querido e, a meio do seu concerto, desculpou-se ao público por não ter anunciado a minha actuação e falou, durante 10 minutos, sobre mim e sobre o Jamie, e confessou o seu afecto pelo nosso espaço Arcadia, em Nova Iorque. Chorei muito durante o seu concerto. Foi muito bonito. Eu e o Jamie (James Elaine) guiámos até São Francisco para tocar nesse concerto. Fomos de carro para que pudesse levar comigo os grandes e velhos decks de fita e montar os loops ao vivo. Vivíamos em São Francisco há muitos anos atrás, por isso foi maravilhoso regressar. Fomos aos nossos lugares favoritos, vimos as nossas velhas casas, visitámos amigos, tomámos pequeno-almoço no Café Flore. Tudo muito agradável. Eu adoro São Francisco. Isto aconteceu no final de Fevereiro, quando tudo estava a desabrochar, o que tornou a visita ainda mais especial.

Que podemos esperar da sua actuação no Barreiro? Tem tocado ao vivo uma peça que está a desenvolver nesta altura, não é verdade? O Jamie virá consigo?

Vou misturar ao vivo alguns loops de fita. Devo fazer uma versão de “Vivian & Ondine”, que será o meu próximo lançamento, e é possível que tente qualquer coisa de 92982. Quem sabe? Contudo, o Jamie está em Pequim durante este ano e não vai poder estar presente desta vez, mas deu-me um vídeo lindo que me irá acompanhar.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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