ENTREVISTAS
Woven Hand
Corações ao Alto
· 12 Mai 2009 · 00:09 ·
Comandou em tempos os controlos dos magníficos 16 Horsepower e agora responde se chamarem por Woven Hand, novo veículo tão ou mais intenso do que o primeiro. Em tudo aquilo que toca, David Eugene Edwards deixa um toque de magia, uma aura de espiritualidade sentida mesmo por aqueles que não entram muito nesse tipo de territórios. Ten Stones, mais intenso do qualquer outro disco dos Woven Hand, é prova da premência musical que David Eugene Edwards e da urgência com que transmite a mensagem que tem em mãos. David Eugene Edwards, antes do concerto que acontece em Leiria, no Teatro Miguel Franco, no próximo dia 17 de Maio, quis partilhar com o Bodyspace os seus pensamentos sobre o seu mundo e sobre o mundo em geral, revelando uma convicção muito clara no que toca à sua música e sobretudo no que diz respeito aos propósitos da existência humana e à sua visão do mundo. Ao telefone, a sua voz, carregada e séria, parece ainda mais portadora da verdade humana e denunciadora das maleitas do mundo.
Como é que sente este novo disco, Ten Stones?

Não penso muito acerca deste disco a não ser quando o toco ao vivo. Foi uma experiência fantástica gravá-lo e adoro tocar as canções que estão nele. Por isso, sim, estou muito contente com ele.

Neste novo disco é possível observar uma progressão clara e notória no som dos Woven Hand. Achas que se pode dizer que a banda está numa trajectória progressivamente mais rock nos últimos tempos?

No momento sim, especialmente ao vivo. É um som bastante pesado. Eu percorro fases diferentes, sabes, em diferentes tempos. Durante a criação do disco esse era definitivamente o sentimento, mais rock. Basicamente, gravamos a maior parte do disco ao vivo em estúdio e estávamos a tentar que o disco conseguisse recriar da melhor forma quando tocamos ao vivo, porque tocamos de uma forma muito mais agressiva ao vivo do que quando estamos em estúdio. Por isso sim, queríamos ter mais esse sentimento.

Dirias que essa evolução se deve também à tua parceria com o Emil Nikolaisen?

Sim, claro. Ele é alguém que eu admiro. Partilhamos muitos interesses musicalmente falando e relacionamo-nos bem em muitos aspectos diferentes. A música dele influencia-me sem dúvida alguma.

Desde 2006, Woven Hand tem vindo a tornar-se cada vez mais uma banda em vez e um projecto a solo. Esta era uma mudança necessária?

Não necessariamente. Nós, até aos dias de hoje… A última digressão que fizemos foi em trio mas a anterior foi só o baterista e eu. Ainda faço isto de muitas formas diferentes mas queria sem dúvidas fazer este disco com uma banda inteira. Mas cada membro fez as suas próprias coisas fora dos Woven Hand. O Peter van Laerhoven, o guitarrista, faz muito trabalho para filmes. O Pascal [Humbert, baixista] também tem o seu projecto, os Lilium. É uma banda de certa forma mas é bastante aberta; a trazer para dentro outras pessoas.

É certamente muito diferente do que eram os 16 Horsepower…

Sim, claro. Os 16 Horsepower eram definitivamente mais uma banda no verdadeiro sentido. Mas mesmo assim, nos 16 Horsepower trazíamos novas pessoas para a banda de vez em quando para tocarem coisas diferentes, fazíamos coisas diferentes. Um violinista, um teclista, um guitarrista adicional aqui e ali. Mas o núcleo éramos nós os três, por isso acho que o núcleo dos Woven Hand sou mais eu e o baterista.


Os Woven Hand são uma máquina mais fácil de guiar do que os 16 Horsepower? Existem diferenças significativas na tua opinião?

Nem por isso. É apenas diferente. As personagens são diferentes. Claro que o Pascal ainda está comigo mas acho que com os Woven Hand tenho um pouco mais de envolvimento com tudo. Em comparação com os 16 Horsepower, tínhamos managers e coisas desse género. Por isso acho que tenho mais controlo desses aspectos agora.

Tentas manter tudo perto de ti?

Tento manter tudo pequeno, tento que não haja demasiadas pessoas envolvidas.

Li algures que para além do teu compromisso com o cristianismo és também devoto aos Joy Division. É fácil gerir estas duas condições humanas ao mesmo tempo?

Claro, quero dizer, a música dos Joy Division foi uma enorme influência em mim musicalmente porque me aproximei dos temas, em termos de letras. A maior parte das coisas que ouvi na altura em que estava a crescer, e que me atraíam, eram coisas sérias. Pessoas que pegavam em assuntos sérios e lidavam com eles, ou tentavam lidar com eles de uma forma ou de outra, quer conseguissem ou não ter sucesso. O que me atraía nos Joy Division era que eu conseguia retirar muita inspiração deles.

Mas sentes-te à vontade a abordar o tema do cristianismo na tua música?

Sim, muito. Sinto-me desconfortável a fazer outra coisa qualquer que não isso. [risos]

Concebes a ideia que alguém possa não gostar da tua música devido ao factor religiosidade? É um risco que estás disposto a correr, suponho

Bem, não tenho escolha possível… [risos]

Não é uma questão de escolha, certo?

Isso. Aquilo que sai de mim sai de mim, percebes? Nunca me preocupei se seria aceite musicalmente. Mesmo no início, nos 16 Horsepower, nunca pensei que o fossemos. Pensei que íamos ter uma pequena audiência aqui e ali e que seria tudo. Fico sempre surpreendido que continue a crescer e que consigamos na verdade fazer a vida com aquilo que eu faço, sabes? Viajo pelo mundo e as pessoas vêm aos concertos, sabem do que falo e mesmo assim querem vir, por isso…

Mesmo quando não são religiosos…

As pessoas gostam da música de formas diferentes. Há pessoas que gostam da música pela música, por isso… Eu estive em muitos países em que a barreira da linguagem é mais forte e é claro que é a música que atraí e traz as pessoas mas se elas procurarem um bocado mais fundo percebem aquilo que eu estou realmente a dizer e ainda mais fundo para chegar ao que aquilo significa. Por isso, sim, estou muito contente que as pessoas apareçam.

O teu trabalho é muitas vezes relacionado por outras pessoas com o trabalho do Nick Cave devido, precisamente à religiosidade. Consegues relacionar-te com a música dele?

Bem, o Nick Harvey, que é basicamente o homem por detrás do Nick Cave… nós andamos em digressão com eles e relacionamo-nos com os outros da banda, partilhamos a uma certa altura o mesmo manager e o tour manager, por isso relacionamo-nos com eles de várias formas. Mas o Nick Harvey foi o homem que realmente me influenciou musicalmente, de tantas formas diferentes. Não só como Nick Cave. Basicamente, tudo em que o homem põe a mão é simplesmente fantástico, é muito inteligente.


Recomendarias algum outro música ou banda cuja música é de certa forma relacionada com o cristianismo? Ou achas que não há muita gente a escrever música inteligente sobre esse tema?

Bem, eu acho que há muitos. Alguns são um pouco mais óbvios do que outro em relação a isso. Eu gosto muito do Sufjan Stevens, que é um excelente músico e escritor de canções. A música dele é bastante diferente da minha mas sempre gostei dele. Mesmo os Serena Maneesh, do Emil Nikolaisen, que ajudou a gravar o nosso novo álbum, são da Noruega e são uma das bandas que eu recomendaria vivamente. Existem muitos. A maior parte delas são mais independentes e pequenas, sabes, o Sufjan é provavelmente o maior nome de que me consigo lembrar, provavelmente. Eu tenho vários amigos que fazem música e provavelmente ninguém os conhece, não são tão reconhecidos. Mas sei de pessoas, de todo o mundo, que estão a fazer coisas excelentes com um espírito similar.

Saindo agora do tema da religião, li alguém dizer no outro dia que a melhor música a ser feita hoje era aquela que ficava nas extremidades dos géneros. Sendo a tua música uma fusão de vários géneros distintos, sentes-te inclinado a concordar com essa ideia?<

Depende. É difícil para mim dizer que um tipo de música é melhor do que a outra, entendes. Toda a gente tem os seus diferentes interesses, o que gostam e o que não gostam, ou o que seja. Eu gosto de coisas que não são muito boas. [risos] Percebes o que digo? Há diferentes tipos de gostos e géneros musicais. Eu tenho amigos que fazem música e às vezes o que fazem não é propriamente o que eu ouço mas porque os conheço, e porque tenho uma relação com eles, a minha visão é diferente da que teria se não os conhecesse. Há tantos motivos diferentes que fazem as pessoas gostar ou não gostar e é muito difícil dizer que um estilo de música é melhor do que o outro.

A tua música é muitas vezes escura e sombria, não é garantidamente feita para consumo rápido. Dirias, independentemente disso, que contém esperança de algum tipo?

Sem dúvidas. Sabes, se não sabes que estás doente não vais ao médico, entendes o que digo? Por isso a minha missão é dizer às pessoas que elas são doentes terminais e que não há esperança para eles. Ele [Deus] é a esperança, a única esperança na minha cabeça, no meu coração, na minha crença. Quando as pessoas me dizem que eu sou sombrio eu digo que sim, eu sinto que estas coisas são ainda mais negras do que aquilo que eu sou capaz de comunicar. Mas como eu já disse, se não sabes que estás na escuridão não vais pensar nisso, não tens desejo de esperança, não tens necessidade de esperança porque não te apercebes que necessitas dela. [risos]

Tens mesmo essa imagem negativa do mundo?

Sim, tenho. Tenho uma imagem muito negra da humanidade. Mas sinto amor pela humanidade, não um desdém. Não tenho de apontar o dedo a alguém, tudo o que tenho de fazer é apontá-lo para mim mesmo para saber como é a humanidade. Eu sei que sou a dor do próximo tipo, não importa de onde ele é, onde ele mora. Temos ambos os mesmos problemas, somos ambos egoístas; podemos sê-lo de diferentes formas, a vários graus, mas no final de contas somos os mesmos.

Considerando a tua posição religiosa e politica, como é que reagiste aos resultados das eleição nos Estados Unidos da América?

Tento não reagir de todo. Há muitas coisas das quais me poderia queixar, há muitas coisas das quais posso estar contente. Só o facto de termos um presidente afro-americano já é uma coisa fantástica de tantas formas diferentes. Mas eu acredito firmemente que o presidente dos Estados Unidos não é o presidente dos Estados Unidos. Eu acho que eles são escolhidos para dirigir as pessoas na direcção que eles querem, se entendes o que digo. Eu gosto dele como homem, gosto dele como pessoa mas politicamente é difícil para mim dizer que ele vai ajudar. Talvez ele ajude alguma coisa mas eu acredito verdadeiramente que há pessoas que estão no controlo e que nós não conhecemos e acho que eles não têm de maneira nenhuma os melhores interesses.

Mais uma visão pessimista…

Sim. [risos] Mas não me leva ao desespero, sabes. Mas acredito mesmo que isto é verdade.

Mas pelo menos as pessoas sentem mais esperança agora do que nos últimos oito anos…

Sim, e isso é óptimo. Vejamos o que acontece.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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