ENTREVISTAS
DJ Olive
Como adormecer na cidade que nunca dorme
· 30 Mar 2009 · 23:36 ·
Até que a ciência comprove o contrário, não existem limites para alguém como DJ Olive, o senhor civilmente conhecido por Gregor Asch. Apesar da conotação com várias cenas e da estadia mantida em diversos colectivos, DJ Olive é cada vez mais um nome à parte. A aproximação ao fenómeno pode até ser feita nos moldes usados para Bob Dylan, no filme Não Estou Aí: existe um Gregor Asch transversalmente próximo dos grandes da música experimental do mundo, outro que domina os trâmites do ill bient, o anfitrião das lendárias sleeping parties, aquele que esteve com Nuno Rebelo na Culturgest, o politicamente consciente, o jardineiro de beats globais que revolve a fertilidade da Agriculture (selo ultimamente destacado por Uproot de DJ / Rupture). Todos vivem sob o mesmo telhado criativo e cada um se revela à sua maneira. Depois de tudo isso, é necessário moderar o espanto e retomar o fôlego para apresentar um DJ Olive pacifista e terapeuta, a mão que embala a ambient de luxo presente em cada dos volumes da trilogia de sleeping pills: Buoy, Sleep e o mais recente Triage. Música para adormecer. Foi sobre essa trilogia que recaíram algumas das principais questões ao cuidado do homem que transformou o Broolyn Zoo num Brooklyn Zzzzz.
Tendo em conta que o lançamento do primeiro sleeping pill, na Room 40, ocorreu depois de contribuíres com aquela faixa para a compilação Melatonin, penso muitas vezes se o tema da última (relacionado com a influência do som no sono) não foi determinante na decisão de lançares os três discos pela mesma label. O “Yard Swing Sunrise” parece até encapsular algumas das ideias que virias a expandir no Buoy e nos outros dois discos. Até que ponto essa faixa está ligada à trilogia?

Vejamos, então. Isso obriga a recuar um pouco no tempo. O meu segundo sleeping pill, Sleep, foi, na verdade, o primeiro que produzi. Muitos dos meus amigos em Nova Iorque tinham dificuldade em adormecer nos dias que sucederam ao 11 de Setembro. Eu próprio também. Misturei então o Sleep e comecei a gravá-lo em CD-R, distribuindo-o depois gratuitamente por amigos. Manualmente, fazia diferentes embalagens. Pegava em dois pequenos pratos de papel. Colocava o CD-R num desses. Pegava no outro prato de papel e metia-o, com a face para baixo, em cima do outro. Agrafava-os nas extremidades que se tocavam. Aparava depois as extremidades de ambos, formando uma curva ao puxar os papéis para a frente e para trás. O resultado acaba por ser um invólucro de semente com um CD-R no interior. Cor de semente. Quando andei, pela primeira vez, em digressão pela Austrália, em 2001, fiz alguns em Armidale e depois em Queanbeyan, usando capas de vinil transparentes, com texto impresso em papel azul gasto, inserindo o disco num lado e colando uma folha de eucalipto na parte traseira.

Um desses foi oferecido ao Lawrence English, quando eu estava em Brisbane. Ele adorou o Sleep e, durante anos, implorou-me que o deixasse lançar na sua label. Eu não estava muito seguro em relação a isso e também gostava que o Sleep fosse um CD-R artesanal, mas, depois de muita persistência, ofereci-lhe um novo sleeping pill, no início de 2003. Em Dezembro desse mesmo ano, acabei por dar o nome de Buoy a esse disco, que foi depois lançado no início de 2004. A compilação Melatonin foi lançada alguns anos depois de ter feito o Sleep, mas só em 2006 acabei por ceder esse disco à Room 40, na condição de que pudesse depois lançar um terceiro sleeping pill na mesma casa, de modo a manter o mesmo visual. Sleep - 2001. Buoy - 2004. Triage - 2008.

Ainda assim, era importante definir uma ordem de lançamento na trilogia? O Buoy parece-me perfeito na definição da estrutura que mantém “duas coisas em simultâneo”. Era relevante haver um primeiro capítulo que especificasse as características da restante trilogia?

Bem… Cada um apareceu na sua altura. Procurei fazer com que parecessem surgidos de um lugar, de uma família, mas eu cresci. A minha audição cresceu. O software mudou. Na verdade, a ordem não foi planeada. O Sleep surgiu como forma de contrariar a privação de sono imposta pelo 11 de Setembro. O Buoy foi produzido quando batalhava a asma e acordava às quatro da manhã a arfar. Grande parte do disco foi feito entre as quatro da manhã e a tarde. O nascer do sol e a recuperação da respiração é o que me lembro desse processo. O Triage nasceu com o seu gémeo, a minha instalação para o exposição Whitney Biennal de 2008. Por isso, estão relacionados, mas também são individuais.


Já tinha reparado, nas palavras que acompanham o Buoy, que apontas para o nascer do sol como a melhor altura do dia para trabalhar nesse disco. A preferência pelo nascer do sol foi transversal em relação aos restantes sleeping pills? Houve alguma altura do dia em que deste por ti a pensar:É pá! É impossível evoluir neste tipo de música a esta hora…?

Parece-me que, mais tarde, durante o dia, depois de todos os telefonemas e e-mails, a minha cabeça acaba por ficar repleta de notícias do mundo, amigos e stress diário, o que leva também a que fique mais duro. A minha disposição afasta-se então da música para dormir que quero produzir. Tendo a trabalhar em beats ou a organizar as coisas de estúdio nas horas mais tardias. Meto-me em safaris de samples através da minha colecção de discos.

E agora que a trilogia está finalmente concluída, ainda voltas a algum do material não usado ou procuras evitar isso, quando estás concentrado em novas iniciativas?

Nunca tenho tempo suficiente para voltar a percorrer as velhas pastas. Estou constantemente sobrecarregado. Espero um dia revisitar os velhos arquivos.

Isto pode até parecer um cliché, mas encontro qualquer coisa de romântico nessa tentativa de produzir “música para dormir” na cidade “que nunca dorme”. Até que ponto as tuas motivações em torno dos sleeping pills eram também uma reacção ao frenesim habitual de Nova Iorque?

É um bálsamo para esse frenesim. O Triage está tão ligado à música como à medicina. Eu gosto muito de fazer discos com um propósito específico: dormir, dançar, descontrair. Muitas das compilações que encontro mudam de disposição muito mais depressa que eu. Isso faz com que as escute sempre com o dedo no fast forward. Os discos que escuto do início ao fim costumam ser claros na disposição que reflectem… Não estou a dizer que todas as faixas devam ser semelhantes, mas o disco tem um sentido de tempo e espaço. O meu apetite musical não muda muito em apenas uma hora. Isso levou a que eu separasse ideias, em vez de uni-las num só disco. Creio que algumas ideias fabulosas acabam por sabotar as outras, quando aplicadas num contexto confuso. Não cantam. Não ressoam. Esperava que o Sleep, em Nova Iorque, no fim de Setembro de 2001, funcionasse como medicina.

No que respeita a produção adicional, quais são as principais diferenças entre os contributos de Ignacio Savalas e de James Healy, no Sleep, e o de Fennesz, no Triage?

O Ignacio Platas, também conhecido por Once11, é um velho amigo meu. Iniciámos muitos projectos em conjunto como Lalandie, Entertainment Corporation, Multipolyomni e os We™, com o Rich Panciera. Uma das secções no Sleep partiu de uma faixa que nunca chegou a sair, mas que tinha sido produzida por mim e pelo Ignacio, em certa tarde de 1999. O James Healy é meu colega na Agriculture. Durante alguns Domingos de 1996, ele vinha até ao meu estúdio, em Brooklyn, e trabalhávamos em algumas faixas ambient. Usei uma parte dessas sessões no Sleep. No Triage, gravei e samplei muito mais músicos. Liguei um microfone a um sintetizador Arp 2006n de um amigo meu e desbundei um pouco no VCF (voltage controlled filter). Enviei ao Christian (Fennesz) uma secção de som que tinha passado pelo meu pré-amplificador Neve, enquanto manipulava o equalizador. Não sei ao certo o que ele fez, mas tratou-a no seu laboratório e enviou-ma na semana seguinte. Construí uma secção em torno dessa.

Existe uma breve textura, que entra no Sleep aos 30:05, que me recorda imediatamente de uma faixa de Cliff Martinez na banda-sonora do Traffic. A mesma parece surgir também na “Walking Slowly”, que gravaste com JP Dessy e o Ensemble Musiques Nouvelles. Eu sou um fã obcecado pelas cenas do Cliff Martinez e acho incrível que o Traffic tenha sido tão aceite por todos, quando é uma banda-sonora que foge ao tradicional. Aprecias o trabalho dele? Como observaste o impacto dessa banda-sonora?

Eu adoro-o! Acho fantástico o suspense gerado pela justaposição entre o conteúdo do filme e a música do Cliff Martinez.


Ainda não sei ao certo se samplaste aquele pedaço de Cliff Martinez, mas aprecio quando as fontes não são mencionadas. Passa a ser maior a alegria quando são descobertas por acidente. Gosto também dessa justaposição que referes, com o helicóptero a aterrar na cidade do México e tudo o mais. Essa mesma justaposição faz parte do vosso processo de composição em Text of Light ou tudo evolui de modo diferente?

Text of Light é uma metáfora para filme experimental sem linearidade ou preparação. Não é uma ilustração ou uma banda-sonora. Tentamos não olhar para o filme. Daí que seja privilegiada a simultaneidade e nem tanto a justaposição.

Sabendo que colaboraste com diferentes membros de Sonic Youth, em diferentes ocasiões, como observas o facto de uma das mais esforçadas bandas das últimas décadas ser tão eficaz no destaque que oferece a outras bandas e artistas? Sentes, em Nova Iorque, algum tipo de entusiasmo em vésperas de um novo disco de Sonic Youth?

Os Sonic Youth são verdadeiramente adorados. Não é uma daqueles romances fugazes, que se desenvolve com muita pop, mas um respeito profundo por parte do underground e da vanguarda de várias cenas: do cinema à arte, passando pela moda e mais além. É fantástico. Plenamente merecido.

Que experiências passadas foram mais úteis à excelência que procuraste na instalação para a exposição Whitney Biennal de 2008? A tal que acabou por ser documentada no Triage.

Durante anos, construí várias instalações em festas underground de after hours, em Brooklyn. Acho que foi a partir daí que acumulei a reputação que me levou ao Whitney Biennial. Também trabalhei na construção de casas em Rhode Island, há alguns anos. Sou bom com as mãos e ferramentas. Mas creio que as discussões com o Ignacio Platas, durante as nossas instalações de Lalalandia e Multipolyomni, foram a maior influência.

Presumo que grande parte das tuas instalações sejam feitas em Brooklyn, não? Já tentaste organizar sleeping parties fora dos Estados Unidos? Ainda é um daqueles formatos que comporta os seus riscos, quando executado fora do seu ambiente familiar?

O grande problema com uma sleeping party é conseguir prolongá-la durante toda a noite. Não é possível fazer uma sleeping party de uma hora numa sala com cadeiras. Isso é quase uma amostra. O melhor é quando é uma festa livre, no apartamento de alguém, com todos os teus amigos. Uma sleeping party formal, numa sala de espectáculo, é possível, mas exige mais trabalho. Estive num festival em Colónia, na Alemanha, envolvido no projecto Uri Caines Mahler, em 1998. Havia música toda a noite. Não existia um palco, por isso as diferentes actuações aconteciam em toda a igreja, incluindo nos gigantescos sótãos. O público estava habituado ao âmbito desse festival e todos trouxeram sacos-cama e malas térmicas para acampar durante a noite.

Os Excepter também são reconhecidos por actuações infinitas, que se desenrolam muito lentamente. Assististe a alguma dessas ultimamente?

Gosto de reparar em como algumas das novas bandas de noise rock optam por uma abordagem free jazz nas suas actuações. Improvisação livre com instrumentos rock tradicionais, alguns electrónicos e uns quantos sintetizadores analógicos. Todos tocam os instrumentos uns dos outros. Pode ser bom. Pode ser uma porcaria. Eu adoro o improviso. Quando resulta, é fantástico testemunhá-lo.

Tenho enorme curiosidade pelo espírito que rodeou a filmagem do Crooked e como esse retratou o Sensational e tudo à sua volta. Recordas-te das primeiras reacções a esse filme? Tens algum episódio a partilhar sobre o mesmo?

Não me lembro de muito acerca do filme. Alguns de nós vimos o filme, em certa noite, e passávamos o tempo a rebobiná-lo para nos rirmos várias vezes de amigos que identificávamos. É curioso mencionares isso, porque o Skiz enviou-me hoje uma mensagem, em que referia a vontade de levar o Sensational e o Mental Nomad até à Austrália. O Crooked era mesmo uma criação do Skiz.

Reparei na nota de agradecimento que dedicavas a todos os que protestaram contra a guerra no dia 15 de Fevereiro de 2003. Estás mais optimista em relação à política externa dos Estados Unidos agora que o Obama é Presidente

Sim, bem… É necessário manter viva a esperança!

O que nos reservas em termos de lançamentos e colaborações em 2009?

Estou a trabalhar arduamente no meu novo disco de beats para sair na Agriculture. E vou regressar à Austrália.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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