ENTREVISTAS
Hipnótica
A sombra da reconciliação
· 19 Jun 2004 · 08:00 ·
Os Hipnótica de João Branco Kyron (voz, letras, programações), Bernard Sushi (piano Fender Rhodes, sintetizadores) António Watts (bateria, udo) e Sergue (baixo, contrabaixo) lançaram este ano Reconciliation, um disco que contou com a produção de Wolfgang Schoegl, líder dos austríacos Sofa Surfers, e com alguns convidados especiais (Eduard Raon, Abdul Moimême, Dollly Milaine e Johannes Krieger). Este novo caminho, trilhado no EP A Circle So Blue, mostra uns Hipnótica mais jazzísticos e personalizados, e confirmam-nos como um dos mais interessantes projectos da música portuguesa. Em conversa com João Branco, abordam-se os aspectos mais importantes de Reconciliation, a experiência ao vivo, o espectáculo Short stories about an instant called hipnotic life, a evolução da banda, a música em Portugal e o futuro dos Hipnótica. Sempre na confiança de uma reconciliação.
O vosso último disco, Reconciliation, evoluiu para novos caminhos, abriu novos horizontes dentro da música dos Hipnótica. Sentem que isso já se fazia sentir sobremaneira em A Circle So Blue?

O Circle so Blue é um disco de transição e de forma livre, uma vez que foi criado e executado numa única noite. Foi um dos factores que nos impulsionou a explorar algumas vertentes mais jazzísticas e de improviso. A par desse EP também montámos um espectáculo intitulado Short stories about an instant called hipnotic life em que tocávamos sobre cinco curtas metragens, também com grande margem de improviso. Basicamente tratou-se de uma fase de procura, só que nós resolvemos expô-la ao público.

Acham que Wolfgang Schloegl teve especial influência no rumo que Reconciliation tomou, ou havia já, no seio da banda, essa predisposição para fazer algo mais livre? Como é que foi trabalhar com ele?

Sim, teve um papel muito importante e sempre no sentido de explorar certas características nossas que ele achava que mais sentido faziam no conceito que lhe passámos. Ele é muito metódico a trabalhar, mas nós também somos e assim sendo encontra-se sempre espaço para que tudo possa fluir com uma leveza que às vezes a desorganização acaba por destruir.

E de que forma é que apareceu essa tal faceta mais jazzística que é visível no vosso último disco? Li algures uma entrevista em que diziam que começaram a ouvir muito Miles Davis, Herbie Hancock, Archie Shepp, entre outros...

O jazz sempre esteve presente na nossa música, mas quase sempre de forma muito enviesada. "Future walks with you", "Black sea" e "Blue poison", de discos anteriores, são um exemplo disso. Mas desta vez fomos mais fundo nessa linguagem e derivado do discurso do improviso no jazz que teve o seu auge no início dos anos 70, fomos pesquisando e ouvindo muitos discos dessa fase. O que tentámos trazer para este disco foi mais a essência do que tentar recriar o som A ou a música B. Sentimos que as coisas funcionavam entre nós de uma forma como nunca tinham funcionado em termos de execução e percepção de espaços. Mas não houve nada muito pré-definido, as coisas foram acontecendo, fomos comprando novos instrumentos, ouvindo muita música, vendo muitos filmes e só mais à frente é que parámos para analisar onde estávamos.

Reconciliation contou com algumas participações especiais. Como é que tudo aconteceu?


Foi uma necessidade que sentimos, novas texturas sonoras acústicas, procurávamos um refrescamento não só em termos de letras e arranjos, mas também em termos abordagens à electrónica e aos instrumentos convencionais, redescobrir novo prazer nessa integração. Além disso houve outro aspecto muito importante que foi a questão das novas abordagens e personalidades que os convidados trouxeram, eles participaram de quase todo o processo criativo e foram parte integrante deste projecto.

Durante os trabalhos de Reconciliation deslocaram-se até Viena para tomar algumas decisões. Presumo que esses ambientes tenham tido especial influência no resultado final...

As sessões misturas em Viena foram árduas por causa do tempo reduzido que tínhamos e foi altura de tomar decisões quanto à forma final das músicas, níveis, abdicar de alguns excessos, criar um ambiente sonoro para o disco como um todo, retirar alguns temas que tínhamos gravado, etc, etc . Mas ainda houve tempo para andar por uns clubes vienenses, ver uns concertos, beber uns copos com membros de outras bandas, fazer umas audições colectivas do nosso disco.

A edição do disco estava prevista para Novembro de 2003 mas, no entanto, acabou por ser lançado em 2004. A que se deveu o atraso?

Dificuldades na negociação com uma distribuidora que alinhasse na nossa estratégia de preço final reduzido (reduzindo as margens de todos os envolvidos) com o objectivo de vender mais e mais barato. Acabámos por conseguir uma óptima parceria com o BLITZ, com óptimos resultados de vendas e agora o disco está a ser distribuído pela Som Livre e está à venda por preços em torno dos 10 euros.


Voltanto atrás na vossa carreira, recriaram ao vivo a banda sonora para algumas curtas-metragens. Sentem que a vossa música é especialmente cinemática?

As pessoas dizem que sim e nós também achamos isso. [risos] Estamos neste momento a compôr uma banda sonora original encomendada pela organização do Festival de Cinema de Vila do Conde. É um filme de 1928 do Jean Epstein e Luís Buñuel, Fall of the house of usher, e é baseado em histórias do Edgar Alan Poe. Além disso fomos também convidados por um realizador português para compôr a banda sonora do seu próximo longa metragem, mas ainda não posso adiantar mais detalhes.

A propósito, como é que foi a tour de apresentação do espectáculo Short stories about an instant called hipnotic life? Dá-vos especial gosto fazer esse tipo de concertos?

Sim, por causa de estarmos a servir as imagens retirando algum protagonismo ao nosso papel e também porque as partes improvisadas trazem sempre uma adrenalina extra.

Como é que vêem agora, com a natural distância, os tempos de Hipnótica ou Enter? Foi uma evolução fácil? O que é que recordam desses tempos?

Diria que foi uma evolução natural e um percurso crivado de momentos muitos maus, mas principalmente de momentos e fases fabulosas e que fazem esquecer todo o resto. Se olhamos para 1997, quando editámos os primeiros temas, e depois 1998, quando saiu o Hipnótica, percebemos que realmente estávamos a desbravar um caminho que em Portugal era praticamente virgem e temos muito orgulho disso.

É complicado para vocês viverem da música ou sentem, por outro lado, que cada vez existe mais espaço em Portugal para a música que fazem?


Nós não conseguimos viver exclusivamente da música, o que é diferente de não querermos viver da nossa música. Temos o nosso espaço e temos o nosso público, o problema é que as dimensões do mercado são diminutas, mas é preciso estar sempre a pensar em formas alternativas de chegar a novas pessoas e/ou a outros países.

E por onde passa, então, o futuro dos Hipnótica? Têm planos para breve?

Passar 2004 em tour a apresentar o novo disco, compôr as bandas sonoras que referi e continuar a trabalhar arduamente no sentido de alcançarmos outros objectivos mais ambiciosos, mas sempre com os pés no chão e dando um passo de cada vez.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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