ENTREVISTAS
Animal Collective
Ondas de Paixão
· 23 Fev 2009 · 15:13 ·
Só mesmo uma banda como Animal Collective poderia, em pleno Janeiro, neutralizar grande parte do debate em torno dessa coisa estranha e vaga a que se costuma chamar “disco do ano”. Afinal, esse deixou de ser o campeonato de Animal Collective há muito tempo: a visão e substância de Here Comes The Indian, Sung Tongs, Feels e agora de Merriweather Post Pavilion promove-os, sim, à corrida de discos da década. Já ninguém duvida que Dezembro próximo fará chover o nome do Collective em catadupa dupla. Por agora, importa reconhecer Merriweather Post Pavilion pelo valor singular que assume dentro do cânone da banda que viveu a sua aurora em Baltimore, a sua manhã efervescente em Brooklyn e a sua longa tarde ao sol espalhada pelo mundo. Depois de Sung Tongs apontar para o que poderia ser uma folk de realidade paralela, genialmente engendrada a dois (Avey Tare e Panda Bear), Merriweather Post Pavilion confirma que a mutação do colectivo – forçosa ou não – constitui vantagem (e desencadear de possibilidades) e nunca condicionante.

Desta vez, o afastamento da guitarra de Deakin estimulou a ascensão da electrónica. O resultado é aquele que já se adivinhava aos concertos de 2008: os Animal Collective dominam cada vez mais a continuidade própria dos mais envolventes dj sets e mixtapes. Igualmente próximo da mestria de uma arte muito sua, o Panda Bear de “My Girls ou “Guys Eyes” é ainda mais assumido como criador de pop carregada de alma e apelo universal. Em 2009, Merriweather Post Pavilion serve essencialmente para dissipar as últimas interrogações respeitantes ao que distingue a música das últimas duas décadas. Este é o álbum que coroa os Animal Collective como banda capaz de substituir definitivamente a comiseração mundana da década de 90 por um oceano ondulado de optimismo (tantas vezes eufórico) e fantasia (horror music, segundo Panda Bear). Antes de partir em digressão mundial, Geologist, mago das electrónicas e senhor da lanterna giratória na cabeça, alumiou um pouco mais a ciência que faz dos Animal Collective a banda determinante que são hoje.
Após escutar o Merriweather Post Pavilion, a primeira impressão com que fiquei foi de que alguém tinha ligado as ondas no mar onde flutuam normalmente as canções de Animal Collective. Que métodos habituais mereceram um abanão, agora que estavam obrigados a lidar com a ausência do Deakin?

Em primeiro lugar, ganhámos consciência de que a guitarra deixaria de ser o principal instrumento em termos de melodia. O Dave pensou definitivamente nisso em termos da sua escrita de canções. Tentámos, a partir daí, abraçar todo o espaço vago. A guitarra pode muitas vezes ocupar grande parte do espaço entre várias frequências, por isso decidimos preencher esse espaço com pequenas coisas específicas, que assentaram então em determinada parte do espectro de frequências.

Ao longo do tempo, gosto de observar a transformação de músicas como “Banshee Beat” e “Fireworks”, nos vários concertos e naquelas lindas sessões de rádio. Parece-me às vezes que atravessam um período certo de amadurecimento, até ficarem aptas a incorporar os medleys. Achas que algumas das canções no Merriweather Post Pavilion acabarão por revelar essa mesma abertura, assim que estiverem perfeitamente habituados a elas?

É um pouco por isso que tocamos primeiro as músicas ao vivo. Não o fazemos com a ambição de chegar a uma versão perfeita e completamente concluída. Mesmo que alcancemos esse ponto de excelência, no caso de determinada canção, sabemos que existem maneiras diferentes de colocá-la em prática. É frequente efectuarmos essa transformação em músicas antigas, quando as recuperamos de modo a que façam parte do alinhamento de concertos ou de sessões de rádio. É difícil dizer se algumas das canções no Merriweather serão arredadas do alinhamento e mais tarde repescadas de diferentes maneiras. Não são ainda suficientemente velhas para serem consideradas dessa forma.

Ainda acerca das sessões de rádio, houve tempo para alguma que incluísse músicas do Merriweather, antes deste ser lançado? Parece-me um disco menos apropriado para uma sessão convencional. Acho, mesmo assim, que seria perfeito no Breezeblock da BBC.

Não sei muito acerca do Breezeblock, além de que o Dave, o Josh e o Noah estiveram nesse programa há uns anos. Não me lembro de termos tocado quaisquer canções do Merriweather antes de as gravarmos. Só muito raramente isso acontece. É provável que nunca tenha acontecido, mas não sei ao certo. Acho que não gostaríamos de fazer uma gravação de óptima qualidade de uma canção que eventualmente gravaríamos por nossa conta em estúdio.

O Breezeblock é um programa de rádio que favorece mais a electrónica, incluindo samplers e tudo mais, em vez dos instrumentos tradicionais do rock. Daí tê-lo mencionado. Acaba por ser cansativo tentar encaixar uma sessão de rádio entre concertos ou entendes que pode até ser bom para variar?

Lamento ter de admitir que não sei mesmo muito acerca desse programa. Os rapazes passaram por lá numa tarde, quando andavam em digressão com os Múm. Nessa altura tinha um emprego, que me ocupava o dia, e não pude lá estar. Isso impede-me de comentar como será tocar num Breezeblock ou como é diferente dos outros programas. Geralmente é muito difícil encontrar tempo para tocar na rádio. É habitual reservarmos um dia inteiro para esse efeito, porque pode ser demorado e é muito cansativo descarregar e carregar a carrinha duas vezes num só dia. Ainda assim, costuma ser divertido. Se soubermos que a estação tem uma boa reputação e que a experiência será agradável, aceitamos o convite. Contudo, preferimos que as digressões sejam tão curtas quanto possível e isso leva a que seja muito raro fazer mais do que uma sessão por digressão, se tanto.


Gosto da maneira como algumas vozes completamente distorcidas passam a ser samples viciantes, como acontece no início da “Reverend Green” ou da “In The Flowers”, se estou certo. Isso lembra-me aquele tipo de adulteração que transforma alguns samples em ouro psicadélico, como aconteceu quando o Matt Dike e os Dust Brothers gravaram o Paul’s Boutique para os Beastie Boys. Nunca se depararam com uma situação em que uma piada interna (inside joke) passa a ser um sample fantástico, que reclama imediatamente a companhia de outros ou a inserção numa música à espera de um toque final?

Sim, isso acontece, mas não posso revelar muito acerca disso para que as piadas internas não deixem de o ser. Posso, ainda assim, adiantar que a “Reverend Green” e a “In The Flowers” não começam com piadas internas.

Quão crucial foi o papel do produtor Bob Allen na ajuda oferecida a um disco onde a combinação de vozes, baixo e samples parece ser tão importante? Foi escolhido pelo facto de vos parecer o homem certo para a tarefa?

O papel dele foi enorme. A nossa música é realmente densa. Por isso, foram muito importantes as suas ideias em relação a como alinhar e mover as coisas no processo de mistura. A sua posição era de isolamento, o que nos concedeu total liberdade e flexibilidade durante a mistura. Ele também é excelente no tratamento de subgraves, sugerindo até que adicionássemos certos elementos ao som para que soassem melhor em diferentes colunas.

Atendendo a que vocês próprios providenciaram os samples usados no Merriweather Post Pavilion, tudo me parece auto-suficiente nessa gestão de sons. Enquanto trabalhavam nestes novos temas, sentiram alguma vez a tentação de introduzir um sample externo que fosse facilmente reconhecível? Ou seria demasiado arriscado? O Person Pitch incluía alguns samples, ainda que subtilmente, e ninguém pareceu ser muito picuinhas em relação a esses. Isso sempre me pareceu bastante encorajador.

Dependeria sempre do sample e dos motivos que nos levassem a utilizá-lo. Não me parece que nos acarinharíamos de utilizar o sample por receio de sarilhos. Já tivemos de lidar com isso no Feels, quando nos aventurámos em algumas letras de Stevie Wonder. Ultrapassámos isso e estou certo de que contornaríamos outro desafio semelhante. O mais importante é tentar saber se o esforço é ou não justificado. Também importa a familiaridade que mantenhamos com o sample. Muitas vezes é tal a familiaridade face a um determinado sample que se torna difícil escutá-lo fora do seu contexto original. O Noah é muito bom nessa avaliação e acho que isso só demonstra que a música baseada em samples exige uma grande quantidade de talento e originalidade. Mas pode também ser muito difícil. A primeira versão de “Guys Eyes”, escrita pelo Noah, continha um sample dos Zombies. Decidimos depois removê-lo. Não por temermos que os Zombies o reconhecessem, mas porque conhecíamos muito bem o sample e ser difícil escutá-lo sem nos recordarmos do original, além de que parecia uma daquelas coisas que não faríamos por nós.

É interessante teres mencionado as letras de Stevie Wonder na “Purple Bottle”, porque eu estava a pensar apenas em termos de sons e não de lírica. Tencionavam incluir no álbum a versão que acabou por sair naquele white label? Ou era demasiado o atrevimento

Sim, tencionávamos incluir no Feels a versão que utilizava as letras de Stevie Wonder. Foi assim que a gravámos e foi assim que a entregámos à Fat Cat. Eles acharam que o risco era elevado e decidiram pedir a sua permissão. O agente do Stevie Wonder recusou o pedido.

Escutei uma entrevista recente em que alguém apontava para uma velha canção de Genesis pela proximidade em relação a alguns dos sons no Merriweather. Achei isso engraçado. Agora que a vossa música chega um público maior, parece-vos natural que esse tipo de comparações surja mais frequentemente?

Não sei. As pessoas já tinham mencionado os Genesis antes disso. Nós próprios já os referimos. A “Banshee Beat” tem qualquer coisa de “Follow You, Follow Me”. As pessoas comparam tudo o que fazemos aos Beach Boys desde o Sung Tongs e tudo o resto aos Mercury Rev desde o Feels. Não creio que as comparações resultem do facto de termos um público maior. Acontece que as mesmas acabam por ser feitas mais regularmente.


Enquanto estiveram em Nova Iorque, houve finalmente oportunidade de terem em mãos uma cópia da tão aguardada caixa de material ao vivo? Podes adiantar novidades em relação a isso?

Não tenho novidades. Ainda estamos a progredir nessa frente. Encontra-se perto de ser fabricada.

Foi muito diferente tocar em Nova Iorque no dia em que Obama chegou à presidência? Sentiste alguma daquela vibração esperançosa dentro do Grand Ballroom?

Não o senti assim tanto. Muitas pessoas perguntaram-nos como nos sentíamos e foi porreiro saber que as pessoas estavam entusiasmadas e esperançosas nesse dia. Mas, tanto quanto me foi possível observar, não vi essa vibração reflectida no público. Um amigo nosso passou uns discos, antes de subirmos ao palco, e ele misturou o discurso do Obama nessa manhã com alguma música house. Isso foi fixe, mas não sei se muitas pessoas repararam. Eu próprio não me apercebi do que era realmente. Pensei que fosse uma remistura de dança do inicio dos anos 90 de uma faixa do Heavy D ou coisa assim.

Durante os concertos de Janeiro, reparaste se o público estava mais sincronizado com as vozes em palco durante o refrão da “My Girls”? Parece-te agora uma daquelas músicas em que essa sincronização é mais notória? Isso é recompensador?

Certa noite escutei as pessoas a cantar ao som da “My Girls” e esse coro de vozes soava suficientemente alto para ser distinguível em palco. Reparei que as pessoas batiam palmas com a canção na maioria das noites. Muitas pessoas acham que o som das palmas faz parte da música, mas isso não acontece. As pessoas pensam que esse som não faz parte da versão ao vivo, mas o som está lá, ainda que num estado diferente. É fixe observar como o público complementa com as palmas.

Conta-me como conheceram o Dent May. Eu diria que algumas das suas letras sobre a universidade e os seus estudantes puxam pelo vosso gosto. Acreditas que o gozo do seu disco parte da naturalidade e abordagem específica que usa para falar de tipos como o Howard e Michael Chang, sem que a maioria das pessoas tenha qualquer ideia de quem sejam?

Conhecemo-lo enquanto gravávamos em Oxford. Os bares encerravam muito cedo, por volta da meia-noite, e as pessoas habitualmente terminavam as noites em casa de alguém, que abrisse as portas para uma festa durante a madrugada. O Dent era o anfitrião em algumas dessas noites. Uma das raparigas que trabalhava no estúdio conhecia-o e aos seus amigos, e, certa vez, com os bares já fechados, levou-nos até uma das suas festas. Acabámos por falar com ele e gostámos muito dele. Soubemos depois que ele tocava música e que tinha um concerto marcado para breve. Fomos a esse concerto e adorámos. Ofereceu-nos um CD com as suas músicas e escutámo-lo um monte de vezes na viagem de regresso a Nova Iorque. Não sabes quem é o Michael Chang? Aposto que podes ficar a saber muito sobre ele com o Google. Eu também não sei quem é o Howard. Acho que o Dent toca canções óptimas e divertidas. Não penso muito no que se passa para lá das letras.

É habitual dar por mim a pensar em como se organizam para produzir uma remistura, como aquela que fizeram para Goldfrapp. Suponho que não seja obrigatório juntarem-se para que isso aconteça. Costumam fazê-lo em modo de ping-pong, com a troca de ficheiros, ou a remistura começa num ponto A e termina num ponto B?

As remisturas não foram realmente feitas num âmbito Animal Collective, porque tentamos usar o termo de colectivo apenas quando envolve mais do que um de nós. Foi o Josh que as gravou por sua conta. Na verdade, são remisturas do Deakin. Mas acho que bandas como Goldfrapp e Ratatat pediram uma remistura aos Animal Collective, porque gostavam de as listar com esse nome ou isso. Nunca trabalhámos numa remistura como banda, daí que não haja qualquer processo para explicar.

Existe alguma frase do Dazed & Confused (Juventude Inconsciente) que seja particularmente utilizada entre vocês?

Essa é a pergunta mais difícil que já me fizeram. Acho que muitas vezes dizemos:Uh no, not on me, man. Parece ser a resposta certa para muitas perguntas:Tens uma caneta?; Tens uma cópia do alinhamento?; Tens um abre-garrafas?; Tens 25 centímetros de cabo a mais?
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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