ENTREVISTAS
Evols
Um feixe inesgotável de Luz
· 04 Fev 2009 · 15:36 ·
Do mundo dos Evols, faz parte um arsenal de guitarras, amplificadores e pedais. Logística necessária para dar vida a paredes de som inesgotáveis, intensas explorações que têm vida própria - ao ponto de crescerem para além dos seus limites. É com estas premissas que Carlos Lobo, França Gomes e Nuno Santos trabalham e é a partir daí que se define o ADN dos Evols. As experiências anteriores serviram para dar a base; as influências de cada um trouxe a este projecto as linhas mestras para exploração dedicada e informada na experiência Evols. Algumas aparições ao vivo nos últimos tempos - o Bodyspace até esteve numa delas - mostram que os Evols estão por aí para o que der e vier, realistas em relação à posição que ocupam na música portuguesa, com uma atitude desprendida que lhes permite liberdade criativa total. Nuno Santos, o entrevistado em causa, confirma tudo e adianta as coordenadas deste projecto para o presente e para futuro.
O que é que os Evols trouxeram dos projectos anteriores que não quiseram perder para esta nova experiência?

Alguma experiência passada para evitar ilusões e expectativas. Acho que temos sorte por partilharmos de muitas ideias em relação à música e não só. Todos viemos mais ou menos esclarecidos acerca do que é importante e trouxemos obviamente um arsenal de guitarras.

Tive a oportunidade de vos ver ao vivo recentemente na Dama Aflita, no Porto. Pareceu-me que traziam uma base pré-concebida para os concertos e que a partir daí improvisam de acordo com a evolução dos temas. É mesmo assim?

Foi muito diferente do que temos feito. Normalmente tocamos 5 a 6 músicas que até agora nunca foram as mesmas. O convite era para tocar cerca de 20 minutos, com base nisso e em algumas ideias que surgiram durante o sound check, tocamos à noite e os 20 minutos prolongaram-se até aos 40.

Deu também para perceber que os Evols apreciam o trabalho de bandas como os My Bloody Valentine, Slowdive, Ride, entre outros, e o shoegaze em geral. São estas as vossas maiores influências?

Já estivemos mais convencidos disso, mas a verdade é que das bandas que estiveram na frente do movimento shoegaze são muito poucas as que realmente gostamos, os My Bloody Valentine são uma delas. Gostamos de música tocada muito alta, de muralhas de som, o shoegaze tinha isso; no geral acho que ouvimos música a mais, tudo fica muito confuso a começar por coisas tão simples como: de quem é o quê. Mas acho que as maiores influências são a música psicadélica, minimal, um conhecimento abrangente do rock e da música em geral.


Sei que são viciados em guitarras, em amplificadores e pedais. São requisitos essenciais para os Evols, ou é meramente um vício sensorial?

As guitarras e os pedais são instrumentos como os outros só que ainda melhores. Neste momento são importantes, no futuro deverão continuar a ser e no nosso caso é bem provável que sejam várias coisas ao mesmo tempo. Mas está longe de ser um vício, pelo menos por enquanto.

Os Evols são algo em que apostem, digamos, profissionalmente, ou é apenas reflexo de uma necessidade intrínseca de fazer música?

Apostamos na música que fazemos mais do que numa carreira. O que fazemos é sincero, diz-nos muito, é isso que nos motiva a ensaiar e a dar concertos. Queremos tocar ao vivo e dar a conhecer o que fazemos mas não pensamos numa carreira, pelo menos numa das que normalmente se tem em Portugal. Com o tipo de música que fazemos é delirante pensar numa carreira em Portugal.

Achas que os Evols têm par na música portuguesa? Têm conhecimento de mais alguém neste país a fazer algo parecido com o que vocês fazem?

Há neste momento uma vitalidade na cena musical portuguesa. Mais bandas e mais locais para tocar e isso só pode ser benéfico para todos. Acho que há bandas a fazer coisas semelhantes em Portugal, pelo menos com os mesmos objectivos ou falta deles, não necessariamente o mesmo género de música mas com o mesmo tipo de abordagem à música, desinteressado e honesto. A nossa formação por ser composta por três guitarras e duas vozes é uma formação menos convencional mas esse aspecto não passa disso, de uma formalidade.

No press release do concerto que assistir lia-se concerto/performance. Assumem esse lado de performance nos vossos concertos?

Acho que não, pelo menos deliberadamente de uma forma pensada. Claro que um concerto é sempre uma apresentação para uma audiência e nesse sentido é uma performance, a música em si é uma arte performativa mas a forma como cada um de nós se apresenta não é a de um "performer", pelo menos acho que nenhum de nós se sente como tal. Talvez a nossa ausência de "performance" seja a nossa principal característica shoegazer, neste concerto acho que foi apenas uma forma de dar a perceber que não iria ser um concerto como normalmente costuma ser, de transmitir o carácter informal que o concerto teve. Mas para nós o que existe é a linguagem do rock, bandas e concertos ao contrário de projectos e performances. Como diriam os Ramones "we are not artists, we don't relate to that, we are into rock and roll". Não vamos tão longe, mas para nós concerto basta.


Já deram alguns concertos até hoje, sobretudo no norte do país. No Porto, especificamente, sentem que há cada vez mais locais com boas condições para se tocar ao vivo?

Sem dúvida. O único senão é que os cachets são cada vez mais miseráveis e assim torna-se complicado suportar deslocações e outras despesas... Há muitas bandas a querer tocar e por outro lado demasiados DJs em saldo, transmitem a ideia de que a festa se pode fazer por muito pouco dinheiro. Mais pessoas ainda há a julgar que uns podem fazer o papel dos outros.

Têm-se feito acompanhar ao vivo pelo Pedro Maia, conhecido por p.ma, nos visuais. Acham que a vossa música tem precisamente essa componente visual que é amplificada pelas imagens ao vivo?

Sim. A colaboração com o Pedro Maia é importante para nós pois permite que as pessoas se abstraiam da formalidade que é ter uma banda à sua frente e se concentrem na música. As imagens dele têm um efeito hipnótico, a música que fazemos exige alguma concentração e serenidade de quem está a assistir pois as músicas normalmente são longas. O trabalho que ele faz connosco é um prolongamento do que fazemos e nesse sentido é mais um membro da banda.

A única coisa que se pode escutar aos Evols neste momento é dois temas no myspace. Existem planos para gravar um disco em breve?

Foi um erro ter colocado aqueles temas no myspace. Dá-se um dedo e querem logo o braço todo! [risos] Mas estamos a trabalhar num disco que irá ficar pronto no dia em que o acabarmos. Estilo Kevin Shields. O prazo, não o disco!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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