ENTREVISTAS
YACHT
O Barco do Suor
· 10 Dez 2008 · 20:44 ·
© Chris Hornbecker
Todo o empenho e gratidão extravasados por Jona Bechtolt parecem finalmente à beira de o recompensar com o reconhecimento à escala planetária. Medindo bem as coisas, seis anos parecem agora uma eternidade como tempo de espera até que Jona Bechtolt fosse produtor a manter na mira. A culpa do retardamento será provavelmente da pouca seriedade envolvida na farra upbeat a bordo de YACHT, o hobby de um hiperactivo mais do que um ofício, e no peso discreto que assumiu em alguns discos pertencentes à realeza da K Records (Calvin Johnson, Mirah, Little Wings). Quando transformou a lamechice (lo-)fofinha de The Blow em electrónica colorida e vividamente lúdica, com o soberbo festim queer Paper Television, a esfera de espelhos começou a rolar pela ladeira das menções diversas (em listas de final de ano e até mesmo numa selecção destacada por David Byrne). Por agora, mantém, em conjunto com Claire L. Evans, o agitado electro-cruzeiro YACHT que, por onde passa (Lisboa e Porto inclusive), tem deixado um rasto de energia, ao que parece resultante de um karaoke de plena entrega, da aeróbica que isso envolve e de hinos ao serviço do lema aparvalha e salva-te. Em 2009, submeter-se-á a prova de fogo com See Mystery Lights, longa-duração a ser lançado pela DFA, que conquistou com manobras de charme e que tratou já de honrar com o muito conseguido maxi Summer Song (em que é mais evidente a aproximação à continuidade de trip que Larry Levan explorava nos seus lendários sets de disco sound). Desta vez, o barco do suor atracou no bom porto Bodyspace para que o Capitão Jona Bechtolt se pronunciasse.
Tentaste descartar alguns velhos hábitos no caminho que te levou do I Believe in You, Your Magic is Real até ao próximo See Mystery Lights?

Ambos tentámos deixar de beber uma colher de chá de detergente de casa-de-banho todas as noites antes de ir para a cama. Fracassámos. Tornou-se um ritual tão enraizado em nós que acredito ser impossível abandoná-lo algum dia. Nem sequer é pelo sabor, e muito menos será por causa dos benefícios medicinais. É mesmo aquela coisa de viver no limiar da morte e de como isso captura os nossos corações e imaginação.
Além disso, não sei exactamente. Os humanos adoram hábitos. Eu procuro sempre pegar em todas as ideias, sejam musicais ou de outra espécie, para explorar depois o seu máximo potencial. Na verdade, tenho tentado recuperar velhos hábitos para incorporá-los na criação de novas músicas de YACHT. Isso inclui trazer um microfone para a casa-de-banho sempre que vomito, o que, infelizmente, acontece regularmente.

Gosto daquele sentimento de comunidade que se vive no interior da K Records, em que todos se dispõem a participar amigavelmente nos discos dos parceiros. Sentes alguma dessa familiaridade na DFA? Quão receptivos te parecem os nomes da DFA à ideia de remisturar entre si as faixas pertencentes ao catálogo interno?

Por acaso, a DFA parece-se muito mais com a nossa cena caseirinha de Portland do que antecipávamos à partida: é, na verdade, uma label pequena, gerida por poucas pessoas, e toda a gente mantém-se envolvida como se de uma família se tratasse. Foram extremamente calorosos, e nós temos a sorte de ser apanhados em situações como esta.

Mantínhamos muitos preconceitos acerca da DFA antes de começarmos a andar com eles, e muitos desses estavam errados, o que até é bom. Ainda assim, a maioria das pessoas partilha desses preconceitos, e agora que a DFA lança os nossos discos, passou a ser comum recebermos convites para tocar muito mais tarde do que estávamos habituados. As pessoas também acham que sabemos muito acerca de música de dança, o que não é exactamente verdade. Não sabemos quase nada, o que é qualquer coisa, mas, mesmo assim, pouco. Não somos ignorantes, mas gostamos mesmo da música feita pelas pessoas que estão perto, como White Rainbow, e todos os lançamentos da Marriage Records e States Rights Records.

© Sarah Meadows

Sei que a “Summer Song” surgiu quase como “uma carta de amor” dirigida à DFA. Que outros gatilhos afectivos fazem disparar em ti a vontade de trabalhar em novas músicas?

A marijuana.

Quando andaste em digressão com LCD Soundsystem, como observaste o facto dos fãs terem transformado a “All My Friends” numa espécie de um hino? Isso foi muito evidente aqui em Portugal, por exemplo. E essa qualidade de hino descobre-se também na “It’s Coming to You” de Yacht e na “Fists Up” de The Blow. Sentes-te às vezes deslumbrado ao ponto de não resistires em conduzir as músicas até esse estado?

Sinto-me completamente honrado e surpreendido quando alguma das músicas tem esse tipo de impacto nas pessoas. Isso não significa que as músicas não sejam boas, ou que não mereçam o estatuto de hino, mas atendendo a que tudo parte dos nossos apartamentos, quartos e outros lugares pequenos, fico completamente inchado quando nós – pessoas em 2008 – podemos fazer tudo autonomamente com custos muito reduzidos e, mesmo assim, rivalizar centenas de milhares de dólares, grandes equipas de produção, e todo o marketing envolvido no lançamento de discos mais tradicionais.

Desde que saiu a faixa “Your Magic is Real” e toda aquela lista de agradecimentos, foram alguma vez confrontados com a ira de alguém que não gostou de ficar excluído?

Não! Mencionámos literalmente toda a gente que conhecemos no álbum que inclui essa faixa, incluindo pessoas que mal conhecemos. Curiosamente, algumas pessoas ficaram até surpreendidas por serem mencionadas, quando não tinham qualquer envolvimento no disco. Somos muito inclusivos. Além disso, acho que as pessoas saltam essa faixa.

© Megan Holmes

Quando colaboraste com a Khaela no Paper Television de The Blow, até que ponto foi perfeito o entendimento e o entusiasmo na hora de trabalhar a componente digital do disco? Qual foi o timing em torno da transição na estética de The Blow?

Nunca senti qualquer perfeição no entendimento com a Khaela enquanto colaborámos. Estou muito feliz por ter feito o disco com ela, mas essa experiência foi provavelmente a mais difícil de suportar por ambos desde que fazemos música. Tudo começou como uma experiência encorajada pelos nossos amigos, e de inicio foi muito divertido porque eu adorava a música em que estávamos concentrados, mas acabámos a discutir por tudo e por nada. A transição em The Blow sucedeu-se em 2004 quando fizemos o EP Poor Aim: Love Songs) para a Pregnancy Series da States Rights Records / Slender Means Society. Essa série continua a ser espectacular. Acabaram de lançar um EP de Final Fantasy.

É notório que sentes maior à vontade ao lidar com vozes femininas. No que respeita a combinar os aspectos da voz feminina com a tua electrónica, quais são as principais vantagens?

Bem… A minha voz é muito semelhante à de uma mulher. Deve ser isso.

Tens-te dedicado ultimamente a filmagens digitais ou és obrigado a colocar isso um pouco de parte numa altura em que te encontras tão ocupado com a música?

Tentamos não pensar separadamente nas coisas. No que se refere a YACHT, tudo é importante, incluindo os vídeos, a música e os websites. Gostamos de apresentar tudo como um conjunto. Dito isso, não temos feito vídeos recentemente, porque estamos a reunir material para um grande projecto em 2009, que incluirá diferentes meios, nomeadamente muitos vídeos. Não podemos partilhar muitos detalhes acerca disso por agora, mas a abordagem a esse material foi muito invulgar. Estamos a nadar em trabalho, mas valerá a pena.

Que tipo de equipamento trazem convosco nesta digressão?

Não viajamos com muito equipamento. A verdade é que se vierem até ao nosso concerto para “galar” a nossa aparelhagem espectacular, preparem-se para uma enorme desilusão. Ficam desde já avisados: não há grande equipamento, além dos nossos corpos. Sim, acredito que pareça uma loucura, mas usem a imaginação. Também temos um computador que dá para aceder ao e-mail, fazer música e usar PowerPoint.

Existe alguma música de Little Wings que gostasses especialmente de recomendar a alguém empenhado numa mixtape para uns fortes amassos?

Fico tão feliz por teres colocado essa pergunta, porque todos amamos Little Wings. O meu álbum favorito é a versão LP do Light Green Leaves. Existem três versões do disco, cada uma tem o seu formato: CD, LP e cassete. Se tivesse de escolher uma música, talvez optasse pela “Look at What the Light Did Now”.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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