ENTREVISTAS
Dru
Respirar em grupo
· 08 Dez 2008 · 03:46 ·
© Patrícia Machás
Nasceram dois meses depois de os três músicos (David Maranha, Manuel Mota e Riccardo Dillon Wanke, todos com currículo recheado na música experimental) terem decidido que era altura de começar uma nova banda. L’Aiguille, o álbum de estreia dos Dru, é um trabalho de detalhe e minúcia, que oscila entre as baladas elípticas de Manuel Mota e o hipnotismo do órgão Hammond de Maranha e do piano eléctrico de Wanke. Falámos com Manuel Mota e David Maranha, antes do primeiro concerto do grupo, marcado para esta terça-feira, dia 10, no lisboeta Maxime.
Como e por que é que decidiram formar os Dru?

M.M - Eu e o David já trabalhamos juntos há uns anos, em duo, nos Curia ou, mais recentemente, em alguns momentos com os Osso Exótico. O Riccardo veio de Milão, é um músico que conhecia e apreciava o nosso trabalho desde há anos, está no mesmo comprimento de onda e tornou-se um bom amigo. Quando decidiu comprar o [piano eléctrico Fender] Rhodes, achámos que era altura de iniciar uma colaboração. Começámos de imediato a trabalhar, primeiro no café, onde decidimos que caminhos nos interessava percorrer, e depois com ensaios quase diários durante para aí duas ou três semanas.

D.M. – A ideia não é muito original. Tem muito a ver com tocar com alguém com quem partilhamos a procura de um determinado som, para além de uma amizade, pois não gosto de passar muito tempo com companhias que me desagradem, por mais geniais e virtuosas que sejam. Arranjar um nome, por oposição a ter uma lista de nomes, tem também algo a ver com a ideia de alguma permanência. Algo como um compromisso que se pense que vai durar. Paralelamente aos Curia, eu e o Manuel fomos fazendo uns concertos onde podíamos explorar algo que definitivamente não cabia no que era o universo do grupo à altura. Com os Osso Exótico explorámos também recentemente algo que me parece próximo.

Com a ida da Margarida [Garcia] para Nova Iorque sentimos todos que os Curia ficaram um bocado em suspenso. Tudo o resto surgiu naturalmente, numa sequência natural de acontecimentos. O Riccardo comprou um Fender Rhodes, eu e o Manuel achámos que fazia sentido dar uma forma de grupo a estas colaborações que tínhamos vindo a fazer, o Fender era o instrumento que encaixava na perfeição no som que tínhamos vindo a construir. E assim no princípio de Outubro começámos a conversar sobre o que queríamos fazer.

É curioso notar que dois meses depois da conversa que fundou o trio vocês já têm um disco cá fora. É sinal da vossa cumplicidade ou da própria natureza da música que praticam?

M.M. - Foi intenso, mas ao mesmo tempo natural. Houve também seriedade, dedicação, os compromissos foram sempre assumidos. A música que estamos a fazer requere-o, para além da competência técnica e do trabalho de criação e procura individual e fusão das três. Também sempre trabalhámos e fizemos as coisas sem pedir autorizações a ninguém. Assim as coisas acontecem quando e como queremos.

D.M. - Para mim é sinal de muito trabalho. Dois meses de trabalho contínuo, horas e horas de gravação e mistura. Desde as conversas iniciais até ao trabalho cuidado com a capa, numa edição limitada. Um pouco nos antípodas das edições de cassetes embrulhadas numas cuecas e com acabamento a papel de prata.

De que forma projectos como os Curia, em que vocês já tocam, "contaminam" o que fazem nos Dru?

D.M. – Olhando para os resultados, eu diria que não há contaminação.

M.M. - Curia não contamina nada, mas eu e o David contaminamos os dois. Esses grupos são constituídos por músicos com percurso individual relevante, ou seja, antes de existirem Curia e Dru, já existia o Riccardo Dillon Wanke, o Afonso Simões, a Margarida Garcia, o David Maranha e eu. Curia e Dru são nomes só, representam entidades diferentes precisamente porque cada uma delas integra músicos que, sem excepção, sabem o que querem fazer, e acham que estas mesmas formações fazem sentido no seu percurso (artístico, não social, note-se).

A diferença entre os vários projectos ou formações ad hoc faz-se sobretudo através dos objectivos prévios à música e do método empregue ao tocar?

M.M. - Não sei se percebi bem o que são os "objectivos prévios à música". Em essência a música que crio é consequência do meu processo diário de procura do que idealizo. Esse processo é simultaneamente de prática instrumental e de pensamento. Uma música que reflecte a minha vida e que a completa. O tocar é o processo e o resultado a criação. Quando trabalho com outras pessoas esta essência mantém-se. Alguns aspectos são inevitavelmente decididos a priori, tanto quando trabalho a solo, como quando colaboro. Diferença entre encontros ad hoc e projectos: o tempo que temos para criar. O resto é igual, acho.

D.M. - A meu ver não faria sentido criar um novo grupo para fazer algo que não tenha uma identidade própria. Pode ser que quem veja de fora lhe pareça tudo o mesmo. Isso não consigo controlar e não me preocupa muito a maneira como os outros entendem a música.

© Patrícia Machás

No concerto do Maxime vão ter convosco o Marco Franco. Dru é uma entidade aberta?

D.M. - Bem… houve uma alteração de última hora.

M.M. - O Marco Franco não conseguiu arranjar disponibilidade para trabalhar para isso, por ter outro compromissos. E não, Dru é uma entidade fechada que cria música aberta.

Terão os Frango como banda de abertura. Nos últimos tempos, detecto uma aproximação entre os diferentes universos da música dita experimental portuguesa, uma mais ligada ao rock, outra menos. Concordam?

D.M. – Não me revejo muito na experimental… Prefiro pop.

M.M. - É-me complicado responder. Quando se fala em estilos e não se os definem só se conseguem mal-entendidos e pretextos para conversa de bêbedos. Já me disseram que toco jazz, experimental, blues, rock, improvisada. À partida, não direi que não a nada disso. Consigo encontrar elementos no que faço possíveis de ser enquadrados em possíveis definições desses estilos todos e se calhar em mais. Mas prefiro não me meter nisso, não penso as coisas dessa forma.

Como pessoas que fazem música há muito tempo, que características detectam nesta nova geração, onde se incluem os Frango, o Afonso Simões, que tem tocado convosco em Curia, os Loosers e outros?

M.M - Prefiro não generalizar.

D.M. - Acho sempre bom quando vejo muita gente a fazer música. Quando eu comecei com 16 anos também havia muitas bandas. A maioria desapareceu ou está a fazer coisas sem grande interesse. O que espero é que todas estas bandas que hoje estão a aparecer, que no último ano já não têm sido assim tantas, continuem daqui a dez anos e que possam melhorar com o tempo.

L' Aiguille parece-me andar algures entre um lado ambiental, textural, e outro lado mais jazz, quase de baladas, mas elíptico, que está patente sobretudo na guitarra. Tiveram estas linhas em mente antes de partir para as gravações?

M.M. - O lado ambiental que o disco reflecte não foi de todo uma direcção mas o disco possui-o, concordo. A balada, o fraseado, a permanência e a respiração foram as linhas. E, pelo menos no meu trabalho mais recente, são sempre, mesmo a balada.

D.M. – Muitas vezes uma ideia quando é levada à prática acaba por se desviar, o que é até muitas vezes justificável. Mas com os Dru isso não aconteceu, o resultado ficou muito próximo do que tinha idealizado antes de se começar a tocar.

A vossa música tem poucos picos de intensidade. Interessou-vos o desenvolvimento de camadas e texturas, a acumulação mais do que os contrastes?

D.M. – No meu caso não se trata de algo de novo. Sempre trabalhei dentro desses limites. Onde eu vejo maior mudança é nos timbres que estou a usar. Talvez estejam menos vibrantes, com os harmónicos mais em baixo, mais serenos. Acima de tudo mudou também a abordagem ao instrumento, que quanto a mim, está com um fraseado mais cantado.

M.M. - Interessou-nos o desenvolvimento de fraseado pessoal, a redução, e o paralelismo de três discursos independentes.

Algo curioso é que apesar de hipnótica, é uma música seca, crua, sem artifícios ou muitos efeitos.

M.M. - Concordo. ainda bem que é notório.

D.M. - Desde as conversas iniciais que a nossa procura sempre se fixou nesse campo e não podemos deixar de nos sentir satisfeitos de isso ser perceptível na audição do disco.

Por que é que não se revêem totalmente na expressão "música improvisada"? Ou, pondo de outra forma, o que é que no vosso método de trabalho vos leva a não pôr a tónica na improvisação?

M.M. - Eu revejo-nos assim e até ponho a tónica aí. O David sei que não. O Riccardo não sei. E agora?

D.M. - Não tenho problemas com o nome. Depende é do contexto. Se me disserem que, por exemplo, uns Wolf Eyes ou uns Lightning Bolt são música improvisada, concordo. Muito mais do que a maioria da musica de jazz mais mainstream. Digo isto sem um sentido depreciativo, apesar de não gostar de todo de qualquer das duas bandas. Sendo claro que não trabalhamos com partituras ou estruturas rígidas, tentamos ter a música controlada dentro de uma ideia que temos vindo a desenvolver. Com o mínimo espaço para improvisos. Criar etiquetas condiciona a escuta, o que gostaríamos de evitar.

O Aiguille Du Dru é uma montanha com quase quatro mil metros de altitude nos Alpes Franceses. A Carla Bozulich disse no vosso MySpace: "it [a vossa música] sounds like the mountain". Por que é que foram buscar a montanha para o nome do projecto e do disco?

D.M - A escolha de um nome para um grupo é sempre um processo complicado. Nos Curia, como nos Dru, começa sempre com um mandar de nomes para a frente, muito intuitivamente, e com uma preocupação mais fonética. Estas primeiras tentativas nunca nos levaram muito longe. Geralmente a coisa começa a tomar forma quando o Manuel limita um bocado o campo da busca. Nos Curia a ideia do Manuel era um nome de uma estância balnear. Acabou por me vir à cabeça uma estância termal onde é frequente ir passar uns fins-de-semana prolongados. Com os Dru a coisa repetiu-se. Depois de muitas ideias sem sentido, o Manuel disse que devia ser uma montanha e a mim e ao Riccardo pareceu-nos logo que sim. Ainda andamos mais de uma semana à volta com varias montanhas. Queríamos que fosse uma montanha que tivesse um lado iconográfico, e andámos às voltas por aqueles nomes que obcecam os alpinistas. As sugestões, que costumavam ser transmitidas por mail, iam sempre acompanhadas das respectivas fotografias. Era uma procura que tinha sempre duas preocupações. Por um lado a montanha, com tudo o que lhe está associado, como perfil, altitude e dificuldade de escalada, e, por outro, a fonética do próprio nome. Quando sugeri Dru creio que todos sentimos que tínhamos aquilo que procurávamos.

M.M. - Desculpa, mas não te consigo, honestamente, justificar a escolha de uma montanha, mas assumo alguma responsabilidade.

Que notícias podem revelar dos vários projectos em que estão envolvidos?

D.M. – Da minha parte estou a trabalhar num disco a solo para a Sonoris e a começar as gravações do que será o novo dos Organ Eye.

M.M. - Disco a solo para Janeiro na Headlights, duo com a Margarida [Garcia] na Monotype de Varsóvia, se não me apetecer editar antes na Headlights, LP do duo com o Afonso [Simões] na Searching Records. Estes devem ser os próximos, mas não garanto.
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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