ENTREVISTAS
Gala Drop
Gala-me este polirritmo
· 27 Out 2008 · 23:57 ·
© Marta Pina
Por agora, o disco homónimo dos Gala Drop coloca bem alto a fasquia em termos do que se pode fazer na grande casa em matéria de abundância de (polir)ritmos cruzados, aliados e/ou mutuamente estimulados. Mais tarde, é bem provável que Gala Drop sirva como documento de uma segunda génese que muito ganhou com a lucidez e pico criativo dos instrumentistas Tiago Miranda, Nélson Gomes e Afonso Simões (categoricamente impulsionados pelo rigor técnico de Guilherme Gonçalves e de Rafael Toral). Em alternativa, este podia ser um postal envenenado oriundo da Crooklyn dos discos da Wordsound (Spectre vive morto!), desde que caísse nas mãos de um nativo com as orelhas alargadas e um apetite anormal pelo batuque (como sinal de vontade de acasalar). Ou, se preferirmos, o álbum que os Tied & Tickled Trio teriam arranhado há uns anos se tivessem os tomates. Importa aproveitar o agora para verificar a sombra dos Gala Drop, na fotografia interior do disco, enquanto contemplam uma paisagem que recorda o planeta oceânico de Solaris, profundo tratado de ficção-científica realizado por Andrei Tarkovsky. Serve isso como evidência de que os Gala Drop estudam o ritmo, assim como o ritmo estuda os Gala Drop. Antes de lançarem o disco a 31 de Outubro, com noite de gala na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, Nélson Gomes e Afonso Simões (o mais esforçado dos bateristas no negócio) estiveram à conversa com o Bodyspace. Segue-se a volta ao mundo em 15 minutos com os Gala Drop.
Como diriam que foi evoluindo o disco em termos dos ritmos que foi absorvendo até si? Ganhou com o proveito de algumas jams? Verificaram algum tipo de padrão no que respeita à formação de cada uma das faixas no álbum?

N.G.: A entrada do Afonso para a banda, responde por si só à tua pergunta, pelo menos para quem conhece a sua maneira de tocar. Durante 2005 e 2006, após uma pausa natural da banda, passei algum tempo a ensaiar sozinho precursão e a forma como a podia sintetizar e quando voltei a ensaiar com o Tiago para um concerto na primeira edição do festival Mascavado, o Tiago trazia em mente a ideia de tocarmos por cima de loops e eu as cenas de precursão. No final do concerto ou qualquer coisa parecida, o Tiago sugeriu convidarmos alguém para tocar bateria: o Afonso. O disco cresceu na sua grande maioria através de loops trazidos inicialmente pelo Tiago e depois pelo Afonso, mais tarde sim, apareceram algumas músicas criadas nos ensaios.

A.S.: Quando gravámos, a bateria normalmente veio depois do resto, e para compor as músicas, o processo foi tão simples como ouvir as bases e experimentar ritmos por cima até ficarmos contentes. Os ritmos que faço são produto de um trabalho que desenvolvo sozinho e que é obviamente influenciado por tocar com o Nélson e o Tiago; para além disso, a nível rítmico, o contributo deles é muito importante visto que o Tiago também toca percussão e algumas linhas de sintetizadores de ambos são bastante percussivas e rítmicas.

N.G.: Será importante de notar que, na gravação do disco, cada um tinha uma ideia do que ia fazer em cada música, mas na realidade o que acabou por acontecer em grande parte das temas, foi ter outras ideias em estúdio, das quais resultam este disco.

© Marta Pina

Ouvi dizer que, quando entraste nos Gala Drop, estavas especialmente hiperactivo e que cumprias rigorosamente os horários estabelecidos para gravações e tudo mais. Até que ponto isso é exacto? Sentiste, ao chegar aos Gala Drop, aquele entusiasmo e energia de quem se depara com um fabuloso mundo novo?

A.S.: Sim, é verdade.

Sentes que a entrada do Afonso abriu caminho para ritmos e ideias que possam ter enriquecido o disco?

N.G.: Penso que ilustro bem essa ideia na resposta que dei há pouco. Mas o Afonso não foi só importante pelo espaço que abriu e criou para as nossas melodias, mas também pela forma como concebemos as músicas nos dias de hoje: os loops continuam a ter um papel preponderante, mas são pensados e concebidos para x ou y ritmo que o Afonso ou nós temos em mente.

É legitimo afirmar que, além dos três membros que ofereceram os instrumentos ao disco, o Guilherme era a pessoa que mais conhecia o álbum por dentro? Isso foi importante na hora de o integrar na banda? Ficaram felizes com ele?

N.G.: Claro, passou bastante tempo com cada um de nós a gravar cada parte do disco. Melhor, foi a única pessoa que esteve presente em todas as sessões de gravação e mistura do disco.

A.S.: Para além dos três membros e do Pedro Gomes, que teve de gramar com o disco todos os dias enquanto o gravámos, o Guilherme era a única pessoa que conhecia o álbum por dentro. Aliando isso ao facto de ser músico e estar próximo de nós, decidimos convidá-lo. O Guilherme só entrou para a banda pouco tempo antes da tour e esta correu muito bem, por isso, sim, estamos satisfeitos com a entrada dele.

Com a entrada do Guilherme, sentem que os Gala Drop passam a funcionar como um quarteto ou como um trio flexível? A entrada do Guilherme arrasta consigo alguns recursos que sejam peculiarmente seus?

A.S.: O Guilherme foi convidado a entrar para a banda pouco tempo antes da tour, e os nossos ensaios com ele até agora foram feitos em função da tour, de irmos dar muitos concertos de seguida; ou seja não houve grandes oportunidades de cada um apresentar as suas ideias e propriamente ser criativo. Daqui para a frente será certamente diferente, mas apenas o tempo o dirá. É óbvio que cada pessoa na banda tem a sua forma de pensar, agir, fazer música; o Guilherme é essencialmente um guitarrista e está a tocar um instrumento novo para ele, os teclados. Talvez demore um tempo, mas até ver isso não nos preocupa.

Quão surpreendente foi escutar o disco depois de passar pelas mãos do Rafael Toral?

A.S.: Foi bom, o disco passou a ter um som com muito mais punchy e que se impõe muito mais facilmente a quem o ouve. O trabalho dele superou todas as nossas expectativas; mal ouvi o disco, percebi que tínhamos solicitado a pessoa certa.

Bem sei que parece uma pergunta de escolinha 2+3, mas assalta-me a vontade de vos perguntar se vos agradaria a perspectiva de gravar as sessões de um próximo disco num país estrangeiro. Em caso afirmativo, qual seria esse?

N.G.: Para a gravação das próximas músicas, eu e o Afonso já tivemos algumas ideias, mas que ainda não foram partilhadas com o Tiago. Acredito, que ele também tenha pensado no assunto. Umas passam pelo estrangeiro e outras não. Não é fulcral para nós, gravar músicas fora de Portugal, mas sim a pessoa que as grava e mistura e como as grava e mistura. Neste momento sabemos mais ou menos bem onde queremos ir.

A.S.: Não sei se seria proveitoso ir gravar o disco lá fora, porque, se for como no que acabámos de gravar, muitas das ideias surgiram in loco, e se formos fazer isso para um estúdio a sério gastamos uma fortuna e provavelmente vamos entrar em stress e não ser tão produtivos. Mas um dos meus sonhos seria gravar em fita e isso cá em Portugal não é tão fácil de concretizar.

Na sequência dessa pergunta, gostava também de saber se alguma das viagens no passado vos inspirou particularmente enquanto músicos atentos a ritmos diferentes, presumo. Sei que tu Nélson, por exemplo, ficaste maluco com uma daquelas cidades no norte de África em que, a certa altura, há música por toda a parte. Já não me recordo de qual era a cidade…

N.G.: Talvez estejas a falar da minha passagem por Marrakech.

Sim, exacto. Isso mesmo!

N.G.: Mas em Marrakech o que me impressionou mais não foram os ritmos, mas sim as melodias, as pessoas, os cheiros, o sumo de laranja - melhor que o nosso, o que é por si só bastante impressionante. Falando de ritmos, todos nós, à sua maneira, temos uma relação muito forte com música percussiva. Polirritmos é algo que nos interessa bastante.
Acreditam que, de alguma forma, as faixas no disco estão abertas a alguns “edits” diferentes? A hipótese de isso acontecer agrada-vos? Têm algum interesse em fazer isso por vós próprios?

A.S.: Eu já pensei nisso, mas neste momento estou mais focado em fazer músicas novas e editar coisas novas do que propriamente rearranjar as antigas.

N.G.: Não sei, depende, mas à partida não. Estamos interessados em relacionarmo-nos com música de dança, editoras de dança que lancem 12”, sim, bastante, mas com remisturas e edits, nem por isso. Mas não é uma resposta fechada, como é óbvio. Se aparecer uma pessoa bem esclarecida a querer trabalhar neste sentido, pode ser que sim.

© Marta Pina

Sentiram-se especialmente azarados à medida que o lançamento do disco ia sendo adiado? Que contratempos contribuíram para isso?

A.S.: Azarados? Definitivamente não. Editar um disco não é uma coisa que aconteça de um dia para o outro e realmente impusemos um prazo a nós próprios para ter o disco cá fora a tempo da tour. Estou bastante feliz com o facto de termos editado o disco pela nossa própria editora, Gala Drop Records.

N.G.: Não sinto isso. O disco saiu quando tinha de sair. Demorámos dois meses a gravar o disco, três meses a misturar, um mês a ouvir a cena, mais um mês na mão do Rafael, dois meses a perceber que íamos ser nós a editar o disco e, depois, com um trabalho de consonância com o nosso distribuidor Flur, decidimos que o disco sai agora. Para quem está a começar, mais vale demorar mais tempo, do que tomar decisões precipitadas.

Como correu a digressão com os Religious Knives? Que balanço fazes da passagem pelo ZXZW? Aquilo é uma fartasana do caralho, não é? Ainda deu para ver qualquer coisa?

A.S.: A tour foi brutal, correu muito bem a todos os níveis; conhecemos imensa gente, demos bons concertos, vendemos merchandise, etc..

N.G.: A tour foi espectacular, os Religious Knives são uma banda do caralho, deram concertos brutais, são pessoas incríveis, gostam de boa cerveja e de comer bem. Ficaram banzados com a nossa comida, claro! Nós demos bons concertos. Os Religous Knives gostaram, o público gostou. Em suma, correu tudo acima de qualquer expectativa.

A.S.: Em relação ao ZXZW em sim, pessoalmente, não fiquei assim tão entusiasmado com o festival. Tocámos num espaço que, apesar de não ficar longe do centro, não levou muita gente para lá; também pela hora do concerto que foi às oito da noite. Mas demos alto concerto e a reacção do público foi boa. Os vários tipos de cerveja belga e whisky single malt que pude beber à pala foram sem dúvida o ponto alto do festival.

N.G.: Por acaso coincide com uma noite em que a crew Gala Drop/Religious Knives/Christelle estava com alto astral, não porque vimos grandes e muitos concertos, porque não é verdade. Vimos a Christelle, de Stellar Om Source, a tocar um belo concerto a seguir a nós e os Ponytail que tocaram a seguir aos Religious Knives, que deram um concerto engraçadinho com uma música desculpável, visto terem menos de vinte anos. Penso que já não dizia tantos disparates por minuto desde a vinda a Portugal do Sr. Mikey dos Warmer Milks que é a melhor pessoa de sempre. Eu acho que a presença do Matthew Mottel de Talibam! ajudou bastante, mas por razões diferentes das do Mikey.

Qualquer coisinha, penso que é o termo certa para o que tivemos tempo de ver. Bruxelas, deu para ir beber uma cerveja ao A La Mort Subite e comer batatas fritas na rua com o Sr. Charlemagne Palestine, que tinha uma t-shirt de Gala Drop vestida, e a sua respectiva. Em Berlim, deu para rever bons amigos. Em Schio, para tocar numa sala de concertos tipo plateau dos Morangos com Açúcar Anarca lá do burgo, onde literalmente todas as pessoas se estavam a cagar para os concertos. Marselha, cidade mais violenta de sempre, e proporcionou-nos todo o tipo de emoções, melhores concertos da tournée e a primeira refeição realmente de jeito. A comida na Europa, ao pé da nossa, é uma miséria. Desculpem o facto de ser tão chauvinista com a nossa comida, mas é mesmo do caralho.

Ouvi falar da possibilidade de um 12” para breve. Isso está de pé?

A.S.: De pé não está, mas gostávamos que acontecesse e estamos a falar com algumas editoras para que tal aconteça. Nesse caso, respondendo ainda à tua outra pergunta, talvez faça sentido haver um edit de uma das músicas do disco.

N.G.: Há-de sair, nem que não seja pela Gala Drop Records, mais uma vez, visto não termos criado a cena da editora só para este disco, mas sim para editar os nossos discos ou algumas das nossas edições.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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