ENTREVISTAS
Rita Redshoes
Inevitabilidades
· 23 Out 2008 · 12:52 ·
Por mais escondido que estivesse nas profundezas da sua alma, estava escrito que a certa altura na sua vida, Rita Pereira, assim é o seu nome, trouxesse cá para fora uma tal de Rita Redshoes. Quem a diz é a própria. Era apenas uma questão de tempo, mas chegou na altura certa. A rádio desdobrou-se em atenções, os singles seguiram-se uns aos outros e o público reconheceu a coragem de Rita, Redshoes agora para todos. Golden Era é o seu bilhete de identidade, substrato lógico de anos de escrita de canções - com um toque, ao que parece, de Hollywood. A entrevistada é, pois então, Rita Redshoes, a tal mulher de vermelho que agora saiu do armário.
Há quanto tempo trazia Rita Redshoes dentro de si? Foi preciso coragem para a tirar cá para fora?

Gosto da pergunta. Não sei precisar há quanto tempo ela cá andava mas olhando um pouco à distância parece-me que já cá anda há muito. Talvez meio transparente ou ainda em formação mas não é “coisa” de agora. E sim, foi preciso muita coragem para permitir que ela aparecesse e se expusesse. Diria que ainda andamos em processo de comunhão, tem dias em que é mais fácil do que outros. Não é um alter-ego mas é concerteza um outro lado meu que me permite explorar coisas diferentes.

Que trouxe dos Atomic Bees para Rita Redshoes? Que recorda desses tempos?

A experiência nos Atomic Bees foi única. Foi por essa altura que me apercebi do prazer que tinha em cantar, tocar com outras pessoas e fazer música. Era uma adolescente, na altura com 14 anos, e um mundo novo surgiu à minha frente. Acho que me fechei um pouco com todo esse processo de auto-descoberta que, embora complicado nalguns aspectos, não consigo deixar de o sentir como muito importante e produtivo. Os Atomic Bees foram o início de tudo isto e foram realmente tempos de descoberta que não mais vou esquecer.

Teve no entanto outras aventuras. A experiência com David Fonseca ajudou a definir melhor o que queria de Rita Redshoes? O que é que aprendeu com ele?

Para além dos Atomic Bees penso que a experiência com o David contribuiu para perceber como fazer algumas coisas, como escolher outras e nesse sentido creio que sim, que estas duas experiências me ajudaram a construir melhor o que queria para mim num projecto a solo. Depois há o outro lado, riquíssimo. O lado da experiência humana, a independência que ganhei, auto-confiança, afirmação, conhecimento como instrumentista e na interpretação de música de outra pessoa. O convite do David foi um ponto de viragem numa determinada altura da minha vida e isso tem sempre um peso especial.

Como foi construir este Golden Era? O que é que deixou de seu neste disco?

Hum... Deixei muita coisa. Há músicas no disco com 8 anos de existência. Acho que o disco para mim é o culminar de todos esses anos em que passei por muitas fases diferentes na minha vida. Fiquei mais velha também. Todo o tempo de preparação e gravação foi passando de forma muito simples e leve, foi quase materializar qualquer coisa que já parecia estar feita. Para mim foi muito importante a partilha com os músicos e produtor daquele meu mundo há tanto tempo fechado na minha cabeça. E agora aquelas canções já não são só minhas, o Golden Era saiu à rua sozinho.


O título do disco tem algum significado especial? É uma pessoa optimista?

Sempre gostei da estética dos anos 40, 50 e 60. Acabei por descobrir que nos EUA o termo Golden Era era atribuido a este período no contexto de Hollywood. Quando tinha já delineado o disco na minha cabeça achei que o nome faria todo o sentido. Ao mesmo tempo, o facto de ter finalmente decidido a pôr cá fora as minhas canções e poder tocá-las, faz-me imaginar que possa iniciar-se uma nova era para mim... Espero que dourada sim. Optimista... Estou a aprender a ser.

Alguma vez se deixou surpreender com o sucesso de Golden Era ou estava perfeitamente consciente do seu trabalho?

Sim, surpreendeu-me a aceitação que houve a um disco de alguém como eu, praticamente desconhecida, a cantar em inglês. Mas confesso que de tudo o que tem acontecido, aquilo que mais me impressiona é chegar aos auditórios e estarem maioritariamente esgotados, isso sim, deixa-me muito contente.


Tem levado este disco por salas e auditórios de Portugal. Como é que se sente este Golden Era ao vivo?

Tem sido um processo de descoberta a todos os níveis. Não sabia como iriam resultar as músicas ao vivo, de que forma soariam e que espectáculo seria possível montar. Neste momento sinto-me muito mais satisfeita com todos os passos que se tem dado. O espectáculo é neste momento mais ambicioso e mais completo, também mais próximo do que imaginava mesmo antes de ter o disco pronto. Sinto que o estar em palco é um processo contínuo de descoberta e sensações... Que está apenas a “começar”.

Sente que de certa forma vem preencher um certo vazio numa certa música pop em Portugal?

Acho que não ponho as coisas dessa forma mas é visível a falta de artistas femininas com projectos em nome próprio no nosso país e, nesse sentido sim, há uma espaço enorme por preencher, no qual eu me encaixei.

Não lhe vou perguntar acerca das suas influências – apesar de estar à vontade para falar delas. Mas pergunto: o que é que decididamente não é influência para si? Quais são os seus ódios de estimação?

Eu não gosto mesmo nada do Will Smith. De resto oiço de tudo e quase tudo pode servir de inspiração.

Tocou bateria, cantou e canta, tocou baixo e toca piano. O que é que lhe falta tocar ou fazer por estas alturas?

Tanta coisa... Nomeadamente fazer canções, muitas canções. Escrever muito mais e explorar melhor estes e outros instrumentos.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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