ENTREVISTAS
Large Number
Quando o electroclash já era antes de o ser
· 17 Mai 2004 · 08:00 ·
Ainda não sabemos se há vida em Marte, mas uma coisa podemos assegurar: há vida depois dos Add N to (X). Ann Shenton, um terço da pujança criativa destes, regressa com um novo nome colado na testa. Os Large Number vêm estancar a estafada passagem de electroniquices baratas pelos ouvidos do mundo nos últimos tempos, com o electroclash à cabeça a tentar levar a electrónica ao povo. Shenton não se preocupa em deixar (ou não) crescer os pêlos na cara ou nas virilhas, como Peaches ou as Chicks on Speed. Spray on Sound está aí com ou sem cosméticos e vegetais metidos ao barulho, e foi a desculpa para um encontro no Chiado, em Lisboa. Os oradores são Marc Hunter, da editora White Label Music, e, claro, Ann Shenton.
Os Add N to (X) formaram-se depois de tu e o Barry se terem conhecido em 1993. Como é que os Large Number apareceram e porquê?

Quando os Add N to (X) se separaram, eu já não queria voltar a fazer música. Estava cansada disso. Os Large Number formaram-se a partir das cinzas dos Add N to (X). Consegui recuperar alguns teclados, não todos mas os meus preferidos, MS-20, Moog e theramin, e muitas outras coisas. Decidi seguir em frente e fazer música que não fosse puramente electrónica. E é isso que temos vindo a fazer, aquilo a que eu chamo “progtrónica”. Como em rock progressivo, mas neste caso, é electrónica progressiva. “Progtrónica” é a minha nova palavra.

A inspiração para Large Number veio do nome de uma canção do álbum Loud Like Nature, dos Add N to (X)?

Sim, do título desse tema. Quando eu falei em “Large Number”, todos os meus amigos me disseram que era um óptimo nome para uma banda, e disseram que iam usá-lo. Mas eu respondi “vocês não o vão usar, quem o vai usar sou eu.” O meu amigo Jason que agora trabalha com o Jarvis Cocker disse-me que ia usá-lo, e eu retorqui “não, não o vais usar. O nome é meu.” Por isso, tive que gravar o disco depressa, de modo a poder usá-lo.

É verdade que gravaram Spray on Sound numa quinta, nas imediações de um complexo militar desactivado?

Sim. Nós não queríamos voltar a um ambiente de estúdio. Estar num estúdio é quase como estar numa fábrica. Nós gostamos de chegar a um local, sem sabermos com o que vamos poder contar, sem sabermos se é adequado para tocar. Neste local, tínhamos de colocar dinheiro para termos electricidade, como nos serviços de estacionamento. O Mark estava preocupado com os computadores e com a eventualidade de perdermos tudo o que íamos gravando se a luz fosse abaixo. Por isso, ia colocando o dinheiro, e chegou às 200 libras. Quando nos estávamos a tentar estabelecer, transportando todo o nosso material, o dono da quinta exclamou “Vocês têm muito equipamento!”. As pessoas não sabiam que íamos lá para tocar música. Tivemos que fingir que éramos “birdwatchers”, que íamos da parte da BBC estudar os pássaros da região. E quando nos perguntaram que tipo de aves queríamos observar, pensámos “merda”! Uma mentira leva a outra. É o efeito bola de neve. [risos] Gostamos de chegar a um local com toda a equipa no meio de nenhures, para impedir que regressem a casa no final do dia. Como se fossem reféns, o que não acontece num estúdio convencional. Ali, era tudo diferente, tínhamos cocaína, boa comida, bom vinho, bom queijo e vacas no exterior. Na verdade, queríamos fugir do ambiente de estúdio.

Têm mesmo um tocador de banjo cego na formação?

Bom, ele não é mesmo cego. É um grande amigo nosso. Nós só dizemos isso para o chatear. Porque as namoradas dele não são muito bonitas, portanto costumamos dizer que ele é cego, embora seja um bocado perverso da nossa parte. [risos]

Que tipo de software utilizaram na gravação de Spray on Sound?

Utilizámos um “melatrome”, que é um grande teclado com uma cassete dentro. O “melatrone” é um instrumento com direito a um clube de membros mundial. Nós tínhamos um mas tivemos que vendê-lo. O nosso produtor queria usar um programa de software associado ao “melatrome”, mas eu disse que não, que queria que soássemos verdadeiros, com instrumentos de música reais e quase sem programas.

O que significa o título do disco?

Não sei bem. Acho que dentro de 50 anos as pessoas vão sentir a música de outra forma. Por exemplo, o vinyl deixa de estar na moda e passa a estar na moda. Mas penso que a música será algo que tu absorves. Talvez passes a desejar misturar os teus sons favoritos e passes a colocá-los de manhã como um perfume que usas o dia todo. Esse é um dos conceitos possíveis. Mas refere-se também a quando vais ao supermercado e encontras comida para gatos, champôs e CDs. A música está a tornar-se tão comum como…

Marc – É um produto como qualquer outro.

Sim, é como um produto doméstico. A música não devia estar tão próxima dos champôs. Eu gosto de ir a locais especiais onde só se vende discos.

O Stephen disse uma vez que os Add N to (X) eram o oposto das bandas que usam excessivamente laptops e o Pro Tools. Ainda te revês nesta afirmação?

Ainda que o meu produtor use o Pro Tools, eu não quero saber disso. É como um arquitecto, que faz um plano para um edifício; ele não mistura o cimento nem coloca os tijolos, isso arruinaria o processo de trabalho. Eu não quero saber disso, vejo-o como um instrumento musical, uma cassete de gravação.

Ainda é importante o paradigma homem-máquina na vossa música?

Não acho que continue a ser importante. Nós abordámo-lo em “Metal Fingers in My Body” e coisas do género, mas os Large Number são de longe mais orgânicos. E penso que é isto que está a acontecer com a tecnologia: está a tornar-se mais orgânica. Algo que se pode comer, em que se podem incrustar partículas de som. Já não é tanto a preto e branco, não achas? [dirigindo-se a Marc]

Marc – Sim. Penso que a relação entre o homem e a máquina mudou. As pessoas estão fartas de tecnologia, interessam-se mais por um som orgânico.

Já consideraram gravar a totalidade de um disco sem partes electrónicas, com a voz limpa e despida?

Gosto da ideia de ter ambas, da parte electrónica e da orgânica. Acho que é disso que trata a “progtrónica”, de que falava há pouco. Qualquer coisa como uma orquestra vegetal. Adoro a ideia de fazer sopa a partir dos instrumentos, de soprar uma cenoura. Imagina a saliva! [risos] Mas eu nunca experimentei fazer sopa a partir da theramin. Não penso que seja possível. Só se eu tivesse carne, uma theramin feita de carne… [solta uma gargalhada que se ouviu na Rua do Carmo.]

A pornografia e o conteúdo explícito são factores relevantes na vossa música e no artwork?

Não penso que sejam. Estás a referir-te ao vídeo de “Plug Me In”, não é?

Sim.

Pois. Penso que esse é um vídeo de merda. Foi feito para os homens verem. Eu estava fora, em Idaho nos Estados Unidos, e quando regressei o Barry e o Stephen tinham feito esse vídeo. Eu disse logo que eles podiam ser promovidos a produtores porno da semana. Estava uma merda. Eu gosto do elemento cómico da sexualidade e aquilo não tinha comédia nem amor nem inteligência. Tinha duas miúdas a brincar com aparelhos de plástico. Acho que a Peaches e todo o electroclash, que misturam a estética punk com a electrónica… estão a confundir o punk com sexo. O punk não teve nada a ver com sexo, foi sobre liberdade, libertação, “fuck the system!”.

Então, o que achas da Peaches e do electroclash, em geral?

Acho que é um movimento passageiro, penso até que já está um pouco acabado. Algumas pessoas perguntam-me sobre o electroclash. Para mim, os Add N to (X) faziam electroclash antes de haver uma palavra para isso. Agora, é tempo de seguir em frente, não estou envolvida nesse movimento nem na “glamtrónica”. O sexo que o electroclash e a “glamtrónica” apresentam é aborrecido. As coisas podem ser bastante sexuais sem necessitarem de ser explícitas. A música é sexual.

Marc – Penso que a Peaches é mais marketing…

Sim. A música já é sexual. Não interessa o que dizes, a música afecta-te fisicamente. As linhas do baixo afectam-te aqui. [leva as mãos ao ventre] Um violino afecta-te na cabeça. Para se tocar as pessoas com a música, não é preciso mostrar as mamas nem aparecer com miúdas na piscina. Por mim, tudo bem mas não é música inteligente. Para entrares em Spray on Sound tens de mastigar um pouco, não é como um hambúrguer, não é música de hambúrguer. Não é como o McDonald’s. É mais como um bife apreciado lentamente… mas com muita mostarda, porque por vezes é difícil. Mas vale a pena, acho.

Achas que o som dos Large Number é, de alguma forma, fílmico?

Mais ou menos. [hesita um pouco] Um pedaço de música deve ser capaz de existir em si mesmo. É uma pena que as pessoas pensem “esta música devia vir com um filme”. Uma música não tem de ter necessariamente um vídeo. Com a MTV qualquer música tem de vir acompanhada de um vídeo, é uma exigência de marketing. Mas acho fantástico que um pedaço de música possa existir sem um vídeo. Apesar de irmos fazer um vídeo quando regressarmos… [risos]

E como será o vídeo?

Marc – Ainda não sabemos. Estamos ainda a pensar no que vamos fazer. Mas será um interessante pedaço de arte.

No website dos Large Number há uma referência a “sound pictures”. O que são e como as criam?

Quando ouves uma música, por vezes pensas “isso não foi muito longo, deve ter aí uns dois minutos” e depois olhas para a parte de trás do disco e percebes que tem seis minutos e 15 segundos. Gosto da ideia de que com o som, tal como com o cinema, podemos brincar com o tempo, esticá-lo e encolhê-lo.

Ainda notas alguma herança dos Add N to (X) nos Large Number?

Do ponto de vista visual, sim, investi muito no artwork dos Add N to (X). Penso que alguns aspectos vão parecer-se aos Add N to (X), outros vão soar como eles. Mas a filosofia por detrás do processo de criação mudou completamente. Já não tenho um manifesto, do tipo de só usar material analógico, porque acho que isso nos limita um bocado. Temos agora abordagens diferentes, como com este disco que gravámos em três semanas e esse foi o limite. Para o próximo disco estou a pensar num outro número com que tocar, talvez um número mais largo (“a larger number”). O Marc quer que o gravemos em três horas, não sei se isso é possível. [risos] [dirigindo-se a Marc] Marc, podes ir buscar-me outra cerveja? [agora ao entrevistador] Desculpa, é que eu preciso. Para a minha garganta…

A propósito de Add N to (X), o nome vem de uma fórmula matemática, não é?

Sim. É adicionar uma quantidade desconhecida a outra quantidade desconhecida, sem nunca se saber qual será o resultado. E era um pouco essa a nossa missão, não queríamos nem tínhamos a ambição de acabar em espectáculos de música ou na forma habitual de fazer música. Não sentíamos interesse em ter quilos de cocaína nem muito sexo. Não víamos a música como uma carreira, antes como um interesse comum. Não sabíamos qual seria o resultado, tratava-se e trata-se de abraçar o inesperado, o desconhecido. Evita as receitas, as técnicas, não te permitas colocar-te numa posição segura. Evita pessoas previsíveis, evita coisas e lugares previsíveis. [O manifesto continua. Disse “manifesto”? Pois.] … e instrumentos, e eu posso dizer que os meus instrumentos são mesmo imprevisíveis. Estão sempre a partir. Por exemplo, com a theramin foi o que aconteceu. Estávamos a actuar nos Estados Unidos quando alguém se entusiasmou e acabou por parti-la. Agora temos de tocar do avesso, é um instrumento retardado. [risos]

O Andy Ramsay dos Stereolab costumava tocar bateria para os Add N to (X) nas actuações ao vivo. Achas que eles vão conseguir aguentar-se por muito mais tempo depois da morte de Mary Hansen?

Uma das coisas que mais admiro neles é o facto de terem conseguido manter-se por muito, muito tempo. Têm tido uma grande longevidade, uma carreira muito interessante, marcada por decisões muito próprias. São muito fortes juntos, funcionam muito bem. Acho que eles vão continuar por mais uns 10 anos, acho mesmo. Deve ser difícil agora que a Laetitia [Sadier e, já agora, a Mary Hansen] já não está [estão] com eles. Mas penso que eles são mesmo bons músicos e que não fazem música para se tornarem um ícone ou uma celebridade. Houve recentemente uma consulta de opinião na Inglaterra sobre o que queriam ser as crianças quando crescessem. E elas responderam que queriam ser jogadores de futebol, guitarristas, que queriam se famosas. Parece que toda a gente quer ser famosa, eu não quero ser famosa. Tenho de fazer música ou enlouqueço. Por isso, sim, penso que os Stereolab vão manter-se por muito tempo.

Vês a música como uma forma de escapismo?

Não, não a vejo como escapismo. Penso nela mais como uma resposta para os problemas, algo que te ajuda a perceber o mundo em que estás. Se fosses um arqueólogo musical, ias estudar e compreender as diferentes motivações das pessoas para fazer música: há quem a faça pela fama, pela celebridade, e há quem persiga uma utopia. Eu acredito em utopias. Podes dedicar-te a desenhar mesas, eu procuro a utopia pelo desenho sonoro.

No site dos Large Number, há uma entrada com bandeiras de muitos países numa espécie de boas vindas internacionais…

Sim, eu penso que é importante. Especialmente porque não vejo os Large Number como pertencendo a Londres, à Inglaterra. E depois, não sabemos onde vamos gravar o nosso próximo disco, se vamos para o Egipto ou se o gravamos em Portugal e fazemos… como se diz?

Fado.

Pois, “fádô”. É disso que trata a “progtrónica”, de cruzar diversos estilos e instrumentos. Gostamos de levar a nossa música a todo o lado porque podemos fazê-lo. Large Number é um animal, não conseguimos domá-lo. Não sabemos o que vai acontecer a seguir.


[Para facilitar o encontro no Largo do Camões, o entrevistador enviou um SMS para o tipo da editora que acompanhava Ann Shenton, descrevendo uma peça de roupa que trazia e o que se encontrava a fazer. Mais tarde, num registo de puro humor britânico, Marc viria a confessar que, como ainda tinha algumas dificuldades em lidar com o telemóvel, havia lido ao contrário. O interlocutor deveria, portanto, estar a ler calças castanhas e a trajar um jornal.

Para além de bem-humorado, Marc revelou-se um exímio conhecedor da cultura portuguesa. Num tom descontraído mas atento, afirmou saber que Portugal era uma jovem democracia, depois de anos de ditadura. Falou do Europeu, pedindo desculpas pelo futebol inglês e que era bom quando os hooligans saíam do país. Mas nem um nem outro atinavam com o nome da banda com que tinham estado na véspera. Diziam uma e outra vez “The Definitive Architects” e outras variantes. O entrevistador corrigia, eram os The Ultimate Architects.]
Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com

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