ENTREVISTAS
Fursaxa
Sozinha no bosque escuro
· 11 Fev 2008 · 08:00 ·
Apenas porque o título do último disco de Fursaxa lhe cai que nem uma luva, cedemos à tentação de o traduzir directamente para o título de uma entrevista onde Tara Burke, a mulher por detrás do projecto referido, confirma grande parte das suspeitas: que ela não é um ser anti-social, mas que retira da solidão grande proveito e fonte de inspiração. De preferência quando se recolhe junto da natureza. A sua folk (algo bizarra, algo free) - coisa que não nega - tem-lhe valido bastante atenção - justifica diga-se. Do bosque que afinal nem sempre é escuro, Tara Burke releva-se em entrevista.
Musicalmente falando, que ensinamentos recolheste nos teus tempos nos UN? Ou embarcaste num caminho totalmente diferente quando começaste a tua carreira a solo e o teu trabalho próprio?

Acho que fazer parte dos UN foi importante porque deu-me a coragem para tentar e lançar as minhas gravações a solo, e tocar ao vivo. Tocar nos UN foi a primeira vez em que toquei em vários concertos com uma banda, e isso fez-me perceber que tudo era possível. Acho que também me ajudou a perceber que na altura eu gostava mais de tocar a solo do que com um grupo. Mas não me entendas mal, gostei muito da minha experiência nos UN!


O teu ultimo disco, Alone in the Dark Wood, além do titulo, tem um sentimento muito solitário. Por vezes parece mesmo claustrofóbico. Concordas com esta descrição?

Bem, acho que concordaria com o sentimento solitário; quando o álbum foi gravado eu passava muito tempo sozinha. Não sou anti-social ou algo parecido, mas gosto de passar tempo sozinha a ler, a pensar, a comungar com a natureza, etc. Mas eu prefiro espaços amplos a espaços fechados, por isso espero que o disco não faça ninguém sentir-se claustrofóbico.

A tua música é bastante espiritual. Parece-me que encontras uma certa inspiração em, por exemplo, te aproximares da natureza. Li no outro dia que gravavas música nas colinas montes rurais da Pennsylvania…

Sim, actualmente vivo na Pennsylvania rural, mas na altura em que o disco foi gravado eu vivia maioritariamente na Finlândia durante alguns meses e depois em Filadélfia durante alguns meses. Muitas das canções do disco são sobre eu estar em Filadélfia mas querer estar na Finlândia.

Imagino que tenhas sentimentos muito fortes em relação ao que se tem passado nos Estados Unidos e no mundo em geral nos últimos anos. Tens um papel activo e uma visão politica acerca de tudo isto? “Birds inspire epic bards” parece apontar nesse sentido…

Sim, não concordo com muitas das políticas dos Estados Unidos. Mas não me envolvo realmente em politica porque todo o sistema me parece desonesto. Acho que apenas tento viver a minha vida de forma consciente e pacífica, esperando que um pequeno gesto possa ajudar na “grande fotografia”.

Passas imenso tempo em digressão. Aprecias a vida louca da digressão em contraste com a vida pacífica de gravar música? Vês isto como um processo necessário para cresceres musicalmente?

Andei muito em digressão no passado e gostei bastante. Quando ando na estrada, gosto muito de conhecer pessoas que partilham interesses musicais comigo, assim como outros interesses. E se o som estiver certo, tocar ao vivo pode ser muito recompensador. Mas acho que posso não andar em digressão tanto no futuro apenas porque pode ser um estilo de vida muito cansativo e esgotante.


Procuras constantemente novos e raros instrumentos para adicionar algo de novo às tuas canções? Utilizas esse método para levares as tuas canções para novos territórios?

Existem tantos instrumentos musicais interessantes que eu gostava de adquirir, e se eu tivesse dinheiro provavelmente teria muitos mais. E sim, eu brinco sempre que a minha música muda dependendo dos instrumentos ou pedais que comprei recentemente. Se eu gosto da forma como um instrumento soa eu tento usá-lo mesmo que provavelmente não o esteja a tocar “correctamente”.

No passado, o Thurston Moore lançou um dos teus discos na sua editora, a Ecstatic Peace! Sabes o que é que ele mais gostou na tua música?

Hmmm... Nunca lhe perguntei sobre isso. Interrogo-me…

Que música te inspira realmente hoje em dia? És um ouvinte compulsiva de música?

Bem, na verdade eu atravesso por vezes períodos em que não ouço música nenhuma porque por vezes apenas quero silêncio complete. Suponho que nos últimos tempos tenho ouvido muita música de novo. Os meus últimos favoritos têm sido os Hala Strana, Arvo Part, Gram Parsons, Emmylou Harris, Trad Gras Och Stenar, e ao vivo Family Underground. Como podes ver tenho um gosto muito variado.

Quais são os teus planos musicais para o futuro próximo. O que é que nos podes contar acerca disso?

Mais Tau Emerald e Anahita e menos Fursaxa.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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