ENTREVISTAS
Low
Na escuridão do silêncio
· 09 Mai 2004 · 08:00 ·
Dos Low, trio formado em Duluth em 1994, diz-se que são a banda mais lenta do mundo, mas talvez isso seja apenas sinónimo de melancolia, recolhimento. Os Low constroem espaços de um profundo silêncio, canções simples sobre sentimentos complexos. Já lá vão quase dois anos desde o lançamento do último disco de originais, Trust, mas o Bodyspace viajou com Alan Sparhawk até ao longínquo ano de 1994 para contar a história dos Low até aos dias de hoje.
Disse algures que era aborrecido viver em Duluth. O que é que o levou a deixar essa monotonia?

Não é realmente aborrecido viver em Duluth. Acho que posso ter dito isso a um certo ponto, mas era com a intenção de explicar às pessoas como Duluth é uma cidade pequena onde não existem tantas coisas a acontecer como numa cidade maior. Essa falta leva as pessoas a terem de ser criativas para encontrar alguma coisa para fazer - um esforço extra para fazer com que alguma coisa aconteça, mesmo que nos sintamos à margem da sofisticação das grandes cidades. A Mimi e eu crescemos em quintas. Duluth foi, inicialmente um grande salto da monotonia.

Auto-intitulam-se a "banda mais lenta do mundo". É complicado transmitir tanta tensão, tanta carga emotiva com instrumentação minimalista?

Esta é outra coisa que eu não me lembro de dizer, mas sei que as pessoas disseram isso sobre nós. Nós não somos a banda mais lenta do mundo. Quanto à tensão saída do minimalismo, acho que é mais fácil criar tensão com menos, porque a "quantidade" de som apreendido é maior e mais poderosa quando existe em pouca quantidade.

O que é que veio primeiro? O nome Low ou as primeiras canções?

O nome.

São muitas vezes descritos como sendo uma mistura entre Joy Division e Simon & Garfunkel. Concordam? Como é que dois artistas tão distintos podem puderam inspirar um som tão único que os Low têm?

Gosto dessa comparação porque são dois lados aparentemente opostos do espectro de estilo. Talvez a referência a Joy Division apareça devido ao minimalismo e, às vezes, às texturas frias da nossa música. Em relação à referência a Simon & Garfunkel, acho que vem das vocalizações e harmonias. Acima de tudo, não nos comparamos com ninguém. Estamos a tentar fazer uma coisa única (mas claro, quem não está?).

Uma das primeiras pessoas que apoiaram a vossa música foi Kramer. Como é que aconteceu essa colaboração? Foi difícil transformar o som que idealizaram em música?

Nós respeitávamos Kramer como produtor e ele tinha trabalhado com bandas indie, por isso mandámos-lhe uma cassete. Ele convidou-nos para o estúdio dele para fazer algumas canções e correu tudo muito bem. Nós éramos novos e inocentes, por isso estávamos contentes que ele nos impusesse o som "dele" naquilo que estávamos a fazer. Acho que correu tudo muito bem e que ele nos ajudou a encontrar as nossas forças.

Em 1995 e 1996 andaram em digressão com os Luna, com os Spectrum e com os Soul Coughing. Como é que foi a reacção do público ao vosso som?

Quando nós começámos a banda, sabíamos que a maior parte das pessoas teriam uma reacção adversa à nossa música, por isso o feedback negativo não foi nenhuma surpresa. Os concertos com os Luna e com os Spectrum correram bem - as pessoas reagiram favoravelmente, na maior parte das vezes. Os concertos com os Soul Coughing foram um pouco mais antagonistas, mas a banda foi fantástica connosco e são ainda bons amigos nossos.

O que é que fez com que gravassem o vosso terceiro álbum com Steve Fisk? Haviam alterações a fazer no som geral dos Low?

Queríamos tentar trabalhar com uma nova pessoa, e estávamos a ficar cada vez mais conscientes e confortáveis com as possibilidades do estúdio. Gostávamos das coisas que o Steve tinha feito e ele parecia entender de onde nós vínhamos. Queriamos um disco que se parecesse mais com os nossos concertos.

Secret Name e Things We Lost In The Fire foram gravados com o Steve Albini. Como é que foi trabalhar com ele?

Foi óptimo. Ele ajudou-nos imenso a ter aquilo que queriamos e ensinou-nos muito sobre honestidade e alma musical.

Things We Lost In The Fire é, provavelmente, o vosso trabalho mais aclamado. É como um filho especial para vocês?

Não. Foi o disco que fizemos daquela vez. Foi o melhor que podíamos fazer e foi onde as nossas mentes estavam naquela altura. Não sei muito bem porque é que as pessoas olham pare esse disco em particular como sendo um ponto especialmente alto.

Estiveram em palco com os Godspeed You Black Emperor". Não consigo sequer imaginar o resultado disso. Como foi?

Fizemos vários espectáculos com eles. Numa noite, juntámo-nos a eles numa canção chamada "Do You Know How To Waltz?". Foi muito pouco ensaiada e muito espontânea. Foi barulhento. Eles são boas pessoas.

Em 1994, os Low e os Dirty Three lançaram os seus primeiros álbuns. Cinco anos mais tarde, In The Fishtank foi o resultado de uma participação conjunta das duas bandas. Como é que foi gravar com o trio?

Foi uma das minhas experiências favoritas. Eles são verdadeiros artistas e inspiram todas as pessoas que estão perto deles para irem além das suas capacidades. Fizemos esse disco em dia e meio, sem preparação. Todas as canções foram escritas no primeiro dia. Tínhamos feito uma digressão com eles e demo-nos muito bem, por isso foi uma colaboração muito natural e fácil.


Owl apresenta um lado muito diferente dos Low. Qual foi a intenção do seu lançamento? Como é que foi a selecção das canções e dos artistas para as remisturarem?

O disco de remixes Owl foi feito pela nossa companhia discográfica, sem muito envolvimento da nossa parte. Acho que algumas coisas no disco são muito boas mas não é, na verdade, um disco nosso.

Trust é o vosso disco mais diverso. Foi uma tentativa de tocar e explorar outros aspectos da vossa música?

Todos os nossos discos são um esforço para explorar para além dos nossos meios e expectativas. Trust foi bastante longe mas acho que estamos a chegar àquele ponto em começamos a estar abertos a tentar qualquer coisa. Nos primeiros discos, sentimos que tínhamos um "som" a que devíamos ser fiéis, mas agora não nos preocupamos tanto - nós sabemos que podemos fazer isso, queremos continuar a desafiar-nos a nós próprios.

"In The Drugs" é uma canção muito forte. É um hino à vida?

Obrigado. Fico contente que tenhas gostado. Muitas das canções de Trust fazem com que eu pareça um homem velho a falar para uma criança sobre a minha vida mesmo antes de morrer. Talvez isso seja um hino à vida…

Como é que é escrever canções com a Mimi? Como é que acontece o processo de escrita das canções?

Na maior parte das canções, eu faço a parte da escrita e ela escreve e adiciona a harmonia. As canções onde ela assume a voz principal são normalmente escritas por ela. Trabalhamos um bocado juntos nas canções, mas trabalhamos de forma diferente, por isso, geralmente, um de nós tem a ideia inicial antes de começarmos a trabalhar nela juntos.

Estão a preparar o lançamento de uma compilação de raridades e b-sides para marcar o décimo aniversário dos Low. O que é que podemos esperar desta edição? De onde é que vem o material?

Queriamos que saísse por volta do nosso décimo aniversário, mas isso foi em Março de 2003, por isso estamos atrasados. Parece que vai sair este Verão. É uma caixa com três discos de música, um DVD com vídeos e um documentário, e um booklet de trinta e duas páginas com fotos e informação. É, na maior parte, material raro de singles e compilações, out-takes, faixas não editadas e demos e algumas faixas ao vivo.

As vossas canções são muitas vezes melancólicas visões da vida. São pessoas tristes?

A Liza Minelli tem canções felizes mas, de alguma forma, acho que ela é uma pessoa muito triste.

Os Mogwai disseram uma vez que num mundo perfeito todos ouviriam os Low. Poderiam alguma vez ter um álbum chamado Happy Songs For Happy People, como eles ironicamente têm?

Não.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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