ENTREVISTAS
João Lencastre
Comunhão Solene
· 24 Jan 2008 · 08:00 ·
Baterista com alguns anos de actividade, João Lencastre editou agora o seu primeiro registo em nome próprio. Neste surpreendente álbum de estreia, o jovem baterista reuniu em quinteto um improvável conjunto de talentos, os quais designou de “Communion” - a começar por Bill Carrothers (um dos maiores pianistas da actualidade), somando-se o trompetista americano Phil Grenadier (irmão do baixista Larry), o guitarrista André Matos e o contrabaixista argentino Demian Cabaud. Abordando um repertório variado, que vai do clássico “Summertime” até “Lonely Woman” (a assinatura de Ornette Coleman), passando por uma composição de Björk (“New World” da banda sonora “Selmasongs”), Lencastre construiu uma das mais curiosas estreias discográficas de um jazzman português. Preciso e versátil, mais do que revelação, este baterista é já uma sólida confirmação.
Com que idade se iniciou na bateria? Como foi parar ao jazz?

Comecei a tocar com 13 anos; aos 16 inscrevi-me no Hot Clube e foi aí que começou o meu interesse pelo jazz.

Quem são as suas referências no jazz (especialmente ao nível de bateristas)?

Tony Williams, Jack De Johnette, Paul Motian, Dan Weiss, Brian Blade, Art Blakey, Buddy Rich, Gene Krupa, Shelly Mane, Kenny Wollesen, Elvin Jones, Miles Davis, Keith Jarrett, Wayne Shorter, entre muitos outros.

Como surgiu o convite a Bill Carrothers para tocar no disco?

O pianista original do grupo, Leo Genovese, não podia fazer a tour e a gravação porque estava ocupado. Falei então com o Phil sobre quem poderia ocupar esse lugar. Eles já tinham trabalhado juntos, o Phil falou-lhe da ideia, pôs-nos em contacto e ele aceitou o convite.

Porque escolheu o trompetista Phil Grenadier?

Porque para além de ser um grande amigo é dos meus músicos favoritos da actualidade.

Como surgiu o alinhamento do disco, que vai de Ornette Coleman ao clássico “Summertime”?

Grande parte do alinhamento surgiu em tempo real, tanto o “Lonely woman” como o “Summertime”; não tínhamos falado sobre o que tocar. Aconteceu muitas vezes começarmos num tema e acabarmos noutro completamente diferente, sem ser preciso falarmos. Ou então começar num tema e partir para uma parte “free”, sem precisar de ser um tema, como acontece em “Communion” 1, 2, 3 e “108”.


Como surgiu a ideia de tratar o tema “New World” de Björk?

É um tema de que gosto muito. Já o tinha tocado há algum tempo num grupo com o Jesse Chandler. Achei que resultaria bem neste contexto.

Toca bateria na banda do Tiago Bettencourt. Como concilia esta actividade com a faceta jazz?

Até agora não tive problemas, sei dos concertos do Tiago com alguma antecedência. Sempre que tenho concertos de jazz aviso o manager do Tiago para não marcar nada porque vou estar ocupado. Em Abril, por exemplo, vou ter uns concertos com o David Binney e depois uns concertos com o Phil Grenadier e avisei o manager dessas datas, para não ser nada marcado. A prioridade é o jazz, claro.

Actuou no Lux integrado nas Lux Jazz Sessions. Como analisa essa actuação, num espaço afastado do circuito habitual do jazz?

Apesar de não ser um espaço típico de jazz, acho que o público ia lá para ver um concerto de jazz. É uma iniciativa muito boa, pena que não vá continuar em 2008.

Já há ideias para um próximo disco? Planeia manter o quinteto que gravou o “One!”?

Tenho uma gravação que fiz em Nova Iorque em Janeiro passado, que é bem possível que seja o sucessor de “One!”. É com Phil Grenadier, David Binney, Leo Genovese, Thomas Morgan e Jeremy Udden.

Quais são os planos para o futuro?

Não tenho bem planos definidos, quero continuar a crescer como músico, e espero ter bastantes oportunidades de mostrar a minha música ao maior número de pessoas possíveis.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

Parceiros