ENTREVISTAS
Curia
Um telepático sol a oito braços
· 09 Jan 2008 · 08:00 ·
© Vera Marmelo
O sentido prático da matemática ajuda à apresentação dos entrevistados: Afonso Simões (bateria e percussão) + Margarida Garcia (guitarra eléctrica tocada com arco) + Manuel Mota (guitarra eléctrica wah) + David Maranha (órgão Hammond) = Curia. Somam-me, portanto, no colectivo designado por Curia os cunhos pessoais de quatro músicos cujo amadurecimento e arrojo garantem um mais longo alcance às viagens, climas e sensações proporcionadas por uma música que se apelidaria como exploratória. A actualidade do quarteto apresenta saudáveis sinais de efervescência em diversas frentes: um primeiro disco homónimo conheceu já a tiragem limitada de 500 cópias na heterogénea e interessante Fire Museum e para breve adivinha-se também novo LP pela mão da Ruby Red, que se tem evidenciado pela categoria das suas edições e pela incidência no vinil. Avizinha-se luxo, portanto.

O mesmo não deverá faltar na noite de apresentação do já citado debute que é pertinente motivo para que, já na próxima sexta-feira, dia 11 de Janeiro, se abram as portas do Cabaret Maxime, em Lisboa, aos Curia e ao duo Barry Weisblat / Patrícia Machás, que deverá actuar na primeira parte. Entretanto, e para facilitar a espera, Afonso Simões e Margarida Garcia revelam ao Bodyspace um pouco mais acerca das movimentações passadas, presentes e futuras dos Curia.
O enquadramento técnico das sessões que levaram ao disco para a Fire Museum não diferiu muito do que mantêm nas actuações ao vivo, certo?

A.S.: Quando dizes técnico, presumo que te refiras a instrumentos e sons que escolhemos. Sim, tentamos manter as coisas o mais próximo possível daquilo que fazemos ao vivo.

Existe alguma descoberta comum que tenham observado como mais saliente após completo este disco na Fire Museum?

A.S.: Por acaso o disco da Fire Museum não foi decidido ser feito à priori. Ou seja, gravámos uma série de sessões que depois de escolhidas e editadas resultaram na música do disco. Como não estávamos deliberadamente a fazer um disco, não havia essa pressão de criar algo novo, que nos fosse surpreender ou mesmo superar os ensaios que já tínhamos gravados.

Não sentem que o tempo limitado de um disco pode condicionar algo que ao vivo seria potencialmente prolongável? Ou seja, o disco na Fire Museum podia eventualmente ter uma faixa em vez de quatro se as coisas se encaminhassem nesse sentido? Em termos de durações, de que tipo de liberdades estiveram dispostos a abdicar na estruturação deste disco?

A.S.: Não abdicámos de liberdade nenhuma. O disco podia efectivamente ser uma única faixa como muitas vezes fazemos ao vivo, mas decidimos em conjunto que queríamos que o disco fosse feito para ser ouvido assim, em pequenas “peças”. Tenho consciência que se tivesse sido feito numa só peça teria um efeito completamente diferente em quem fosse ouvir.

M.G.: Acho que quando fazemos um disco não pensamos primeiro na duração, mas sim primeiro na música. Acho que diferentes temas pedem diferentes durações, não há nada decidido à priori, por isso sinto que não abdicámos de nada.

© Vera Marmelo

Leva isso também a que pergunte se existem às vezes etapas nos vossos temas que devem ser cumpridas antes dos mesmos chegarem ao fim? Mesmo que isso varie de caso para caso... Que evidências normalmente ditam o final a um tema de Curia?

M.G.: Como disse antes, nada é decidido à priori, por isso não há etapas ou estrutura nenhuma pré-definida. Cada músico é individualmente responsável pela sua parte na composição geral, pelo seu som e sabe o que vai fazer, mas isso não é necessariamente do conhecimento do resto do grupo.

Como foi contar com a participação da Helena Espvall (dos Espers) neste disco? Pareceu-vos lógico após já terem tocado com ela? Já vos ocorreu a perspectiva de incluírem outros colaboradores ou sentem que essas possibilidades surgirão com naturalidade?

A.S.: Foi muito bom e fez todo o sentido. Gosto imenso da Helena como pessoa e como música. A empatia com ela foi imediata, não só por ser muito aberta musicalmente, como por ter uma excelente técnica no instrumento (violoncelo). Ela também tocou connosco ao vivo em Barcelos e participa no disco do David, Marches of the New World. A perspectiva de convidarmos outras pessoas já foi discutida por várias vezes e toda a gente concordou que poderia ser produtivo. A ideia da banda não é ter uma formação imutável; mesmo a nível sonoro, pretendemos fazer coisas diferentes, dentro de um certo espectro sonoro obviamente. O disco que vai sair na Ruby Red é a meu ver bastante diferente deste.

M.G.: Desde o primeiro ensaio que falámos em colaborar com outros músicos. Para nós faz todo o sentido porque, como cada um de nós tem uma linguagem própria, não há um esforço de soar como grupo – acho que isso cria uma abertura maior. Tocar com a Helena é muito inspirador, ela é uma pessoa e uma música excelente - é muito fácil estar e tocar com ela. A contribuição dela no disco foi um pouco por acaso, mas estamos bastante contentes com o resultado.

Existem propriedades de Curia que me parecem preserváveis apenas em câmara, num espaço fechado. Acreditam ser muito menos provável a ocorrência de um concerto de Curia a céu aberto?

A.S.: Isso é uma falsa questão. Quando fazes musica sabes que pode soar de forma diferente dependendo do espaço em que é tocada, mas não deixas de o fazer por soar melhor ou pior. São coisas com que se aprende a lidar com a experiência. Não me faz confusão nenhuma tocar a céu aberto, penso que seria menos apropriado tocar num palco grande com demasiada amplificação. Acho que o facto de dependermos quase sempre de um p.a. e um técnico de som nos condiciona muito mais do que qualquer espaço, seja ele interior ou exterior.

Na entrevista gravada para o Má Fama (http://mafama.blogspot.com) fala-se do interesse que terá suscitado no Manuel algumas sonoridades de um disco por sair do David Maranha e de como essas poderiam ser aplicáveis aos Curia. Trata-se do Marches of the New World, certo? Acham que há um pouco daquele órgão bélico em Curia? Trata-se afinal do mesmo Hammond... Sentem que os momentos registados aos Curia captam também a boa forma actual do David no órgão Hammond?

A.S.: Penso que cada um dos músicos de Curia tem um universo musical muito próprio e o David não é excepção, sendo que cada um contribui com o seu universo para o todo que é a banda.

M.G.: Em Curia, cada músico utiliza parte do seu vocabulário ou linguagem pessoal, por isso acho que há sempre uma forte ligação com o trabalho individual de cada um fora do contexto do grupo.

Acho curioso o disco ter quatro temas, mas não ter títulos para os mesmos. Ainda foi debatida a aplicação de títulos ou fez todo o sentido ser assim logo à partida?

M.G.: Nunca falámos em títulos, e ainda é assim.

Como se sucedeu a ligação à Fire Museum? Já conheciam alguns discos em catálogo?

A.S.: Eu não conhecia, mas a Margarida sim e por acaso até era uma reedição de um dos discos preferidos dela - The Songs de Alan Sondheim & Ritual All 770. O Steve Tobin mostrou-se interessado no trabalho do David, ele sugeriu Curia e o Steve aceitou. Para nós é óptimo estar associados a uma editora tão eclética como a Fire Museum.

Em que situação ficou a probabilidade de virem a editar na Ruby Red? Parecem-vos exemplares os critérios seguidos por essa label?

A.S.: A Ruby Red é para mim de longe a melhor editora em Portugal e, mesmo que não fosse portuguesa, para mim seria uma excelente editora para Curia. Por sorte, o Tiago contactou-nos pelo My Space, mesmo sem saber que éramos nós, seus amigos, o que prova que o fez unicamente por gostar da música.

M.G.: O Tiago tem editado discos mesmo muito interessantes. Gosto muito do duo do Charles Cohen com o Ed Wilcox. Fico contente de estar ligada a uma editora que tem um catálogo que não se rege por princípios estilísticos, mas que vê a música de uma forma mais extensa e profunda.

© Vera Marmelo

Fala-me de um par de experiências interessantes em termos de formação musical em Nova Iorque. Acreditas que o facto do Otomo Yoshihide ser um músico tão completo e multidisciplinar pode ter gerado em ti vontades inéditas através do contacto com o trabalho dele enquanto ávida e colaboradora?

M.G.: Gostei muito de estar em Nova Iorque… Tive a oportunidade e a sorte de conhecer e tocar com pessoas cujos trabalhos me interessam bastante tais como Matt Valentine, Erika Elder, Sean Meehan, Tim Barnes, Darin Gray, o Otomo e claro Barry Weisblat com quem gravei um disco em duo – foi mesmo intenso, mas muito gratificante tanto musical como pessoalmente. A minha colaboração com o Otomo surgiu quando ele veio a Nova Iorque e tinha uma semana de concertos nos quais convidava várias pessoas para tocarem com ele. No grupo onde toquei estava também o Barry Weisblat, o Sean Meehan e o Tim Barnes. Sou fã do Otomo há imenso tempo, acho que ele é um guitarrista excelente e com uma musicalidade e sensibilidade incríveis. Gostei imenso de colaborar com ele, mas o que mais me impressionou foi um solo que ele fez em guitarra acústica – isto foi uma oportunidade raríssima, porque ele só viaja com guitarras eléctricas, e foi dos concertos mais inspiradores que já vi.

Parece-me muito adequada a imagem que ilustra o disco homónimo. Surgiu antes ou depois do disco estar completo? Já tinhas feito algo do género noutra ocasião?

M.G.: Já tinha feito a capa do duo com o Barry Weisblat e tenho feito alguns posters para concertos tanto aqui em Lisboa como em Nova Iorque. Desenho imenso, desde que sei pegar num lápis - acho que é meio compulsivo. Por acaso, ou se calhar não, tinha feito este desenho na mesma altura em que gravávamos o disco, mas escolhi-o porque gosto dele.

Voltaste a recuperar o entusiasmo por Phoebus desde Abril passado ou sentes que as oportunidades de colaboração despertam em ti a vontade de voltar a esse âmbito?

A.S.: Eu enquanto músico tenho mesmo é vontade de tocar. Como os projectos em que tenho estado envolvido - Curia, Gala Drop, etc. - me absorvem bastante energia e ideias, andei um pouco desligado de Phoebus. Posso dizer que comparando com Abril passado, agora estou mais motivado para trabalhar como Phoebus e, eventualmente, com músicos convidados.

Conta-me como foi tocar com o Matt Valentine naquela digressão.

A.S.: O Matt é um musico incrível, verdadeiramente livre e embora não me reveja assim tanto na sua música, foi excelente tocar ao lado dele, da Erica Elder (uma das minhas vozes preferidas de sempre), da Samara Lubelski, baixista genial e do Mo Jiggs, tocador de harmónica e percussionista. Muito bom também foi tocar no Festival ATP Nightmare Before Xmas em Novembro de 2006 para mais de 500 pessoas numa versão alargada da banda com o Willie Lane e o Chris Corsano em modo freeform freakout.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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