ENTREVISTAS
Einstürzende Neubauten
Tudo em aberto
· 21 Out 2007 · 08:00 ·
"Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra", diz Alexander Hacke, membro dos Einstürzende Neubauten, ao telefone a partir de sua casa, em Berlim. Os alemães já não destroem palcos, nem procuram o choque pelo excesso – interessa-lhes mais agora as subtilezas, a construção de dinâmicas, tudo elementos presentes no novo Alles wieder offen.

O sucessor de Perpetuum Mobile (2004) foi inteiramente financiado pelos fãs do grupo, que pagaram a gravação, edição e promoção do álbum – é o chamado Supporters Project. Em troca, ganharam intimidade com o grupo (através de webcasts, por exemplo) e muitos brindes em forma de música exclusiva.

Em entrevista ao Bodyspace, Alexander Hacke abordou a importância de Alles wieder offen no contexto da evolução da banda e falou sobre o que mudou em Berlim nos últimos 30 anos e as potencialidades da Internet.
Tenho que começar pelo nome do disco, Alles wieder offen ("Tudo aberto de novo"). Parece atribuir uma carga especial a este disco, como se começassem de novo.

O conceito de algo aberto implica algumas coisas. Algo que está aberto ou que não está fechado, não está resolvido, nem terminado. Pode haver outra forma de o acabar. Algo que está aberto está desprotegido. Há formas diferentes de ler o título. É mais um estado de espírito e um sentimento do que uma descrição real da nossa situação.

Quando tudo está aberto há uma possibilidade ilimitada de opções e decisões a tomar. Isso pode ser uma coisa boa, mas também pode ser muito assustador. Não mudamos, continuamos a ser uma banda experimental. E quando se experimenta há sempre 50% de hipóteses de falhar.

Existe um conceito, tal como em Perpetuum Mobile, que era um disco focado no ar enquanto elemento natural?

É um disco auto-reflexivo. É sobre nós, sobre a nossa história – é a forma como eu o vejo, claro que pode haver outras leituras. É uma história de um grupo de indivíduos que passaram a maior parte das suas vidas juntos. Reflecte a história da banda, as opções que seguimos e o que o futuro pode trazer.

Isso nota-se nas canções. Vários temas citam ou evocam outros momentos de outras canções dispersas pela vossa discografia.

Tentámos criar pontes e justificar a existência deste grupo perante o mundo e nós mesmos. Nesta época, em que tudo é sobre lucro, crescer e andar mais rápido e ser mais eficaz, é importante parar e reflectir sobre o que andamos a criar, de facto. Os Neubauten foram, durante muitos anos, um monstro que andávamos a alimentar. Quando começas uma banda, encontras pessoas que aprecias e com quem decides começar a trabalhar. Mas mantém-se um grupo de indivíduos. Porém, quando se tem sucesso, a banda torna-se uma entidade, uma criatura de pleno direito e então ficas numa situação em que tens de manter a criatura viva. É geralmente esse a altura em que muitas bandas se separam, quando a pressão de trabalhar para a criatura se torna tão grande que te perdes a ti mesmo.

O Blixa Bargeld disse uma vez que cada disco dos Neubauten desapontava pessoas comparado com o anterior. Acredita que isso vai acontecer neste?

Não. É muito diverso, eclético e, por causa da sua natureza auto-reflexiva, tem elementos de várias fases da história da banda. Não acredito que alguém que goste da nossa música ou que a conheça fique desapontado. Claro que tudo o que fazemos vai desapontar pessoas que só ouviram falar de nós ou que ainda nos vêem como a banda que incendeia ou que faz buracos nos palcos.

Este disco foi financiado pelos fãs e editado pela própria banda. Como correu o Supporters Project?

Este disco foi o resultado da terceira fase do Supporters Project. Começamos o projecto em 2002. Na altura tivemos um disco na Mute Records [Perpetuum Mobile]. Nessa primeira fase, os apoiantes [supporters] tiveram o seu próprio disco com material que o comprador normal não teria. Na segunda fase (Grundstück) o resultado foi um CD e um DVD não disponíveis nas lojas. Na terceira fase, fizemos um disco para as lojas [Alles wieder offen] e produzimos a série Jewels – todos os meses, durante dois anos, púnhamos uma canção nova para download. Ainda fizemos oito discos na série Musterhaus. Ou seja, fizemos uns 10 álbuns em três anos.

Beneficiaram, talvez, do facto de não serem uma trivial banda pop, mas antes um grupo com uma legião de fãs dedicados.

A Net é um meio para pôr as pessoas em contacto. Descobrimos que podemos fazer isto com um nível de qualidade muito alto. As pessoas que nos apoiam não são o estereotipado fã de rock. Temos académicos e outras pessoas interessantes na comunidade que deixam mensagens interessantes no fórum. Descobrimos que ao ter uma referência comum – gostar de uma banda, neste caso – as pessoas são capazes de comunicar umas com as outras de uma maneira muito agradável e frutuosa. São só coisas boas.

Alguns dos apoiantes acabaram até a fazer primeiras partes do grupo.

Fizemos isso numa digressão. Descobrimos coisas muito interessantes. Foi muito divertido.

Como compara a Berlim de hoje com a cidade que viu nascer a banda, em 1980?

Nasci e fui educado numa cidade chamada Berlim Ocidental. Essa cidade já não existe, já lá não está. Não era bem uma cidade, era mais uma aldeia. E era uma ilha, desligada e separada do resto do mundo. Tinha uma pequena cena de criativos. Era muito fácil qualquer pessoa se integrar.

Neste momento, Berlim é a capital da Alemanha, temos aqui o governo, as grandes multinacionais. Por isso, a cidade tem exigências completamente diferentes do que antes: há muito mais exigências de segurança, não há espaços livres e não utilizados como antes; procura-se muito o dinheiro e ele chega através do turismo. E para ter turistas oferece-se um cenário muito seguro. Mas esta cidade vai ser capaz de viver durante 50 anos da sua reputação, mesmo que fechem todos os clubes de música e os estúdios de arte, até que as pessoas percebam que já não se passa nada aqui.

No início da banda diziam que o mundo ia acabar em 1984. Imagino como foi ver que, afinal, a Terra ainda tinha mais uns cartuchos para gastar.

Era um conceito mitológico. Foi muito natural ter essa maneira apocalíptica de ver o mundo. Ligava-se muito bem à forma como destruímos os nossos corpos e mentes na altura [risos].

Como é que foi começar a banda tendo esse cenário apocalíptico? Estimulava a urgência criativa?

Era uma projecção auto-suficiente que permitia justificar o nosso extremismo. Marcámos esse prazo [1984]. Mas não ficamos desiludidos por estarmos a trabalhar em 1985. Eu era adolescente… era muito radical nas minhas opiniões, no meu comportamento. Funcionava bem para mim.


Juntou-se à banda com 15 anos. Tinha conceitos de avant garde ou a sua abordagem foi menos intelectual do que isso?

Não, de todo. Saiu naturalmente. Inspirei-me na cena punk rock, talvez nos Ramones. Estava interessado em energia em bruto. Gostava de armar sarilhos. Comecei a interessar-me neste tipo de coisas e procurei pessoas com os mesmos interesses e que ouvissem música que os meus colegas de turma não gostassem. Estava sempre a procurar coisas mais extremas e estranhas.

Hoje as coisas são diferentes. Já não procuram a agressão contínua e sem tréguas. O título do disco, e também de uma canção, Silence is Sexy (2000) ainda parece manter-se como um lema para a banda.

Mesmo assim, a canção diz logo a seguir "Your silence is not sexy at all!". Hoje em dia, numa era em que há uma overdose de informação, a única forma de ter impacto e de chocar as pessoas é cortar esse fluxo constante de informação. Se, de repente, uma estação de rádio emitisse silêncio, se o canal de 24 horas fosse abaixo, isso é a coisa mais assustadora que pode acontecer – já não é o ruído, nem o conteúdo extremo. É quando se desligam as coisas que as pessoas se começam a preocupar.

27 anos depois, como vê a evolução da banda?

Educámo-nos a nós mesmos. Quando começámos não sabíamos como funcionava um estúdio, nem como tocar instrumentos. Claro que aprendemos a tocá-los – se não fosse assim estaríamos no emprego errado. Gosto sempre de comparar isto ao boxe: quando se começa a carreira enquanto pugilista, costuma-se ser muito explosivo, cheio de energia e agressão e muito bom no que se faz. Mas, quando se envelhece, não se pode manter essa quantidade de energia e a única coisa que se pode fazer é aprender como canalizar essa energia, como usar os murros com eficácia, no tempo e local correctos.

Tentamos sempre pesquisar todos os campos do processo criativo. Estamos sempre a tentar encontrar formas de escrever música de forma diferente, fazer arranjos inovadores, encontrar novos materiais e fontes sonoras para não nos limitarmos aos instrumentos que se podem comprar nas lojas.

Nos últimos anos, criaram um sistema de cartões que me faz lembrar um pouco o que o John Zorn faz no Cobra.

Chama-se Dave. É o nosso oráculo, o nosso sistema divino… Tem cerca de 600 cartões. O Blixa ouviu o nosso trabalho ao longo destes anos e foi tirando notas sobre as coisas mais significativas dessa canção (frequências baixas, etc.), todo o tipo de associações e conceitos. Os cartões dizem-nos o que fazer. [O sistema] Obriga-nos a tocar instrumentos diferentes e permite combinar ordens diferentes com o objectivo de chegar a um significado.

No álbum Jewels, cada canção era baseada no jogo Dave, no que Dave nos mandava fazer, e as letras baseiam-se em sonhos do Blixa. É uma forma de nos ligar à fonte da inspiração, de termos uma ligação mais directa ao poder divino da criatividade, seja lá o que isso for [risos].

Li que você é uma espécie de director musical da banda.

Isso aconteceu quando mudei para o baixo, quando saiu o Marc Chung [em 1994]. O baixo sempre foi a fundação harmónica dos Neubauten, por isso decidi mudar-me para o baixo. Tive que ensinar o novo guitarrista como tocar harmonicamente a música do passado dos Neubauten. Envolvi-me mais na fundação da música. Faço o que faço porque sou bom nisto. Sinto que sou capaz de ajudar outros membros da banda.

O que vão fazer agora? O Supporters Project vai continuar?

Vamos suspender agora com a terceira fase. Até aqui, sempre que uma subscrição terminava começava outra. Não vamos fazer isso. Trabalhámos muito no último ano. Vamos em digressão para promover este disco e depois descansar - os membros dos Neubauten trabalham noutros projectos e trabalhos. Sempre foi assim e sempre será. Se os Neubauten fossem o nosso único veículo criativo não estávamos a fazer isto ainda.

Participou, por exemplo, em várias bandas sonoras e foi protagonista num documentário sobre a música de Istambul. Precisa de ter estes veículos paralelos aos Neubauten?

Em primeiro lugar, é uma necessidade económica [risos]. Seria impossível sobreviver só com os Neubauten. Mas é também uma necessidade artística, porque há música que só posso tocar com os Neubauten, mas há também outras coisas que quero tocar e que não cabem nos Neubauten. Todos os músicos dos Neubauten têm projectos paralelos pelas mesmas razões. Isto alimenta a banda com novas ideias

Aproveita muitas viagens para trabalhar nos seus projectos. Andar de headphones permite-lhe abstrair-se das viagens?

Não, eu gosto de estar muito atento a tudo. Hoje em dia toda a gente em Berlim anda de headphones no metro. É uma coisa individualista. Venho de uma geração em que tínhamos boomboxes [equipamentos portáteis com grande potência]. Só faço trabalhos sonoros nos aeroportos. Quando estou a voar gosto de trabalhar no meu computador. Noutras situações, prefiro estar alerta. Não me quero separar do mundo audível à minha volta. Felizmente, hoje há muitas tecnologias que permitem trabalhar rapidamente, gravar com velocidade e qualidade.

É incrível como, tantos anos depois, essa vossa reputação ainda não desapareceu.

Pode levar segundos a construir uma reputação e anos - ou talvez uma eternidade - a construir outra [risos].
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

Parceiros