ENTREVISTAS
Burning Star Core
O ano do porco é o ano do drone
· 08 Out 2007 · 08:00 ·
Colocar a agulha sobre um disco de Burning Star Core, na incógnita dos recursos que terão levado à sua composição, é como receber um telefonema anónimo de um maníaco desconhecendo que depravações cultiva na extremidade oposta da linha telefónica. Sendo que, a partir desse contacto, a purificação do segundo pode resultar na poluição mental do primeiro, ou vice-versa, conforme a natureza e abordagem de cada um. Não se confundam, porém, as sensações proporcionadas pelo colosso Burning Star Core e o nobre nome de C. Spencer Yeh, que gere a entidade em foco com uma vontade inventivamente injuriosa a que até se agradece as chagas infligidas no aparelho auditivo. Não surpreende que a fertilidade de Burning Star Core tenha já este ano desovado dois pontos de paragem obrigatórios no infinito corredor do drone: o estranhamente simétrico Blood Lightning 2007 e o mais extrovertido e concebido em colectivo Operator Dead...Post Abandoned. Ao vivo, Burning Star Core tem ultimamente ensaiado surpreendentes experiências em que, numa interacção biónica, o mentor convive com pedais e outros dispositivos de efeitos que, alinhados, formam um longo réptil de ruído místico. Junte-se ao magnetismo dessas prestações as colaborações (menos ortodoxas) acumuladas com membros dos Sonic Youth, Comets on Fire ou ao lado de Chris Corsano, Carlos Giffoni e Prurient, e tem-se obrigatoriamente em mãos um dos nomes mais sonantes que pariu a música experimental norte-americana nos últimos anos. De acordo com o Zodíaco Chinês, 2007 é o ano do porco. Em paralelo a isso, Burning Star Core explora exaustivamente as possibilidades oferecidas pelas entranhas da electrónica mais orgânica, sem que essas deixem de ser propícias a avassaladoras experiências humanas. São, afinal, animais semelhantes. O exército de um homem só, C. Spencer Yeh, cedeu ao Bodyspace uma generosa e detalhada entrevista que é, ao mesmo tempo, um mergulho no imenso submundo Burning Star Core.
Fala-me um pouco daquilo em que te tens aplicado ultimamente.

Acabei de concluir um disco para a label norte-americana Plastic Records. Procurarei impor alguma distância entre mim e a tentação de voltar a escutá-lo para me certificar de que se encontra pronto a ser masterizado e tudo isso. Ainda preciso de arranjar um nome. Tinha em mente o título Challenger, mas essa hipótese foi preterida quando uma banda, com que não me encontro associado, acabou por utilizar o título na sua forma plural. Tenho tendência para pensar nessas coisas – não consigo negá-lo. Mesmo assim, a faixa de abertura intitula-se “Challenger”. O LP funcionou como um interessante projecto pessoal que é, de alguma forma, auto-biográfico, abrangendo um período de tempo que foi do início da Primavera até bem tarde no Verão. A label solicitou um disco “emocional”, por isso tentei corresponder a esse pedido da melhor forma possível, a partir de uma abordagem tonal tradicional ao som, assim como através de algumas formas ligadas à concréte. Para meu bem, acabaram por, nessa mesma altura, surgir à superfície alguns desenvolvimentos na minha vida emocional que utilizei como fonte para este projecto. À medida que essas ocasiões da minha vida emocional pessoal se foram desenrolando durante várias semanas, o disco ia-se desenvolvendo também nas tapes e disco rígido. Em vez de reflectir acerca de uma experiência ocorrida e armazenada numa memória passada, senti que, ao trabalhar numa altura em que se encontravam à flor da pele os tais sentimentos, estaria a transpor essas emoções para o som produzido. Field recordings desse período – aglomerados numa espécie de diário auditivo – foram também incorporados nas gravações. Alguns de uma forma mais aparente que outros.

Estava intensamente envolvido neste projecto, mas de uma forma discreta. Não posso mesmo alegar que impedi este disco de influenciar as decisões da minha “vida real”, em vez de se suceder o inverso, como deveria ser em termos saudáveis. Toda esta história não é inteiramente necessária para usufruir da experiência que constitui o disco, mas interessa-me sempre quando um factor externo - e não apenas a teoria - exerce influência nos sons. É claro que o som enquanto elemento teórico é também óptimo quando soa de modo fabuloso. Tal e qual como as receitas mais radicais: não precisas de uma motivação específica, porque o puro prazer da mesma basta.

Podes estabelecer numa escala o tempo aproximado que te ocupou cada um dos principais lançamentos deste ano? Foi algum desses mais difícil de concluir do que julgarias à partida?

O Operator Dead... Post Abandoned encontrava-se praticamente concluído desde 2005. Ficou na prateleira durante este tempo todo porque, de início, planeava lançá-lo através da label de um amigo, mas depois decidi que tinha um plano mais ambicioso para esse disco. Em termos da sua concepção, as pessoas envolvidas – Robert Beatty, Trevor Tremaine, Mike Shiflet – juntaram-se a mim durante um fim-de-semana para gravar uma quantidade abusada de material. Era esse o plano: uma gravação de grupo que juntasse toda a gente envolvida com Burning Star Core, ao vivo ou no que fosse, por essa altura. Depois, durante os meses que se seguiram a isso, trouxe as tapes para minha casa, misturei-as, revi-as, editei-as, e, finalmente, acabei por formar um disco. Demorou um pouco a obter o disco conforme foi lançado – por momento equacionei o formato de duplo álbum -, mas sinto-me muito feliz com o resultado. Parece-me muito distante agora que volto a pensar nele. Diria, em termos metafóricos, que mantém-se sobre o chão da sala de edição uma grande porção de material gravado nessas sessões. Material cuja revisão futura ainda se mantém uma incógnita.

No que se refere ao Blood Lightning 2007, terei de excluir a última faixa bónus porque essa foi, na verdade, gravada antes do Operator Dead.... Diria que o Blood Ligthing 2007 me ocupou, na totalidade, entre meio ano e três quartos de um ano. Tinha uma série de experiências ou – se preferires – peças a solo que vinha a desenvolver nessa altura num âmbito à parte de Burning Star Core, mas que acabei por incorporar no disco. Aquando da sua concepção, pareceu-me que, assim que descobri “a chave” do disco, o seu progresso desenrolou-se suavemente e um pouco mais depressa do que o habitual. Acho que até desejo a oportunidade de poder voltar ao disco e alterar alguns aspectos – quase como dar-lhe um tratamento ao estilo do George Lucas na trilogia Guerra das Estrelas. Mas o que está feito, assim pertence...

Quando referiste há pouco que sobrara ao Operator Dead... uma grande porção de material e a incerteza referente a se esse viria ou não a ser revisitado, fiquei a pensar se, de forma a compilares esse material num próximo lançamento hipotético, tentarias seguir um critério interessante para seleccionar as faixas – à semelhança do que aconteceu no Mes Soldats Stupides - ou sentir-te-ias satisfeito com uma simples compilação de peças soltas?

Em primeiro lugar, deixa-me frisar que me agrada teres escolhido o critério e conceito em torno desse lançamento, atendendo a que foi sequenciado com o propósito específico de não ser apenas um “monte de faixas”. Embora, em retrospectiva, me pareça demasiado preenchido.

Com os últimos discos recentes, ganhei aversão à “reciclagem” – procurei continuamente avançar criando contextos e situações actuais com vista à produção de som, e isto embora alguns desses acabem por se tornar semelhantes aos criados em situações anteriores. Volto à ideia de que, basta um determinado tempo e a pessoa que és, enquanto fazes aqueles sons, para que o presente se encontre reflectido neles. Qualquer som criado anos antes pode não resultar da mesma forma. Ou isso ou sou mesmo terrível em termos de organização, quase como aquelas pessoas que têm os bolsos sobrepovoados de listas de “coisas a fazer” eternamente preteridas.

Por motivos práticos e um pouco por curiosidade pessoal, tenho, mesmo assim, vindo a reflectir sobre a ideia de usar “velhas” peças descartadas, em vez de as deixar a apodrecer. Ou utilizá-las como material para “samplar”. Talvez resultasse num exercício interessante tentar encadear todas essas pontas soltas de modo a transformá-las num novo trabalho ou apenas deixá-las ao abandono da sorte e não exercer um controlo demasiado zeloso em relação à forma como são esculpidas. Talvez como um livro de “rascunhos” escrito às cegas. Certamente que isso evocaria também uma enorme quantidade de sentimentos e memórias, não te parece? Sinto que terei de levar isso ao extremo – encontrar um suporte conceptual que sirva para englobar todos esses sons sobrantes, pelo menos no que diz respeito ao trabalho de Burning Star Core. A partir do momento em que tenho a oportunidade de desenvolver práticas que me desafiem, de que me vale isso se não puder “pintar a manta” e tentar algo estranho? Talvez isso represente uma dualidade, na medida em que posso ser adepto do aleatório e de operações centradas em jogos do acaso, e, ao mesmo tempo, completamente picuinhas e criterioso acerca dos detalhes. Contudo, não me parece que isso me prejudique já que a parte intermédia desses extremos é realmente entediante para mim.

Além disso, tentas manter intacto algum tipo de critério em relação ao artwork que acompanha os teus discos ou efectuas a selecção à medida que as coisas avançam?

Sim, conforme toda a gente costuma referir, eu sou habitualmente muito especifico e picuinhas no que respeito ao artwork dos discos, sem dúvida. Infelizmente, no âmbito DIY ou independente, tende a haver menor capacidade de total controlo do que julgarias à partida, principalmente ao colaborar com outras pessoas e com as suas “próprias visões”. Mas no que respeita exactamente ao controlo de artwork e imagem, diria que esse representa mais um terreno de trabalho que podes modificar conforme a sua relação com os sons e o título dos discos – algo para ser remexido de modo a integrar a “encomenda completa”. Com o Blood Lightning 2007, foi totalmente intencional todo o esforço visual empregue no objecto a nível de artwork interior e exterior. Não quero perder tempo a explicar cada detalhe, porque isso é algo que cada utilizador interpreta por sua conta própria ou ignora completamente, ou algo que lhe passa ao lado, se tiver apenas sacado o disco em mp3.

Ainda assim, ultimamente tenho deixado isso a cargo de pessoas que pareçam de confiança na sua vontade de criarem componentes visuais para Burning Star Core. Poderá isso revelar ao trabalho alguns aspectos em que eu não repararia à partida. Quando o Dennis Tyfus cuidou do artwork para o LP Everyday World of Bodies na sua label Ultra Eczema, admito que estava um pouco preocupado, mas ele conseguiu-o com impacto e beleza. No que toca a Operator Dead... Post Abandoned, um tipo chamado Paul Romano, que já fez trabalhos para os Mastodon e etc., tentou a sua sorte. Ele é o designer interno da label (No Quarter) e posso respeitar isso: recebes algo e cedes algo em troca. Inicialmente, questionei algumas das suas decisões, mas tentámos debater isso. Na globalidade, acho que o aspecto resultou fantasticamente e a sensação de “abrir mão” e deixar também alguém conduzir o objecto são medidas perfeitamente enquadradas no tema global da criação do disco. Faz-me pensar numa reedição cheia de classe de um livro de J.G. Ballard ou algo do género. Ele abriu horizontes e interpretou eficazmente muitos dos aspectos do disco, ao atribuir-lhe uma nova pele que não estaria ao meu alcance.

É suposto funcionarem como um díptico as faixas ““The Universe is designed to break your heart” e “The Universe is designed to break your mind” incluídas em Blood Lightning 2007?

Sim, como um díptico ou como lhe quiseres chamar. Agrada-me até certo ponto a ideia dos reflexos e simetrias, e também a mitologia pessoal e o que pode comportar em termos de “espelhares e emparelhamentos internos”. Bem... Todas essas palavras são muito vagas. Se reparares bem, a “Heart” começa com voz apenas e a “Mind” termina com voz apenas.

© Kari Wethington

Achei curioso teres mencionado algures que um ambiente “mais frio e sombrio” contribuía para melhorar a tua produtividade. Que cenários meteorológicos típicos de Cincinnati consegues traduzir em maior prolificidade? Existe alguma faixa que pudesses citar como directamente resultante da influência do tempo?

No que respeita a tempos de profunda ponderação e reflexão, o Outono em Cincinnati é muito breve, mas muito inspirador. Diria que a humidade, mais do que o calor, pode anular a produtividade, e a humidade chega a ser absurda por aqui. Existe uma faixa intitulada “Pegasus Suicide”, que pode vir a ser incluída num futuro split com o meu compincha Prurient, em que trabalhei uma série de field recordings colhidos a árvores congeladas enquanto se partiam e caíam aos bocados na mata que tenho nas minhas traseiras. São sons muito subtis. Ao vivo era fantástico, mas gravado acaba por soar a um tilintar distante. A verdade é que foi gravado e logo existe nessa faixa. Capturei-o.

É porreiro teres mencionado o Prurient quando eu já tinha pensado perguntar sobre ele há pouco. Podes-me falar um pouco de quaisquer experiências recentes em que se tenham empenhado juntos?

Por causa da Internet e outras tecnologias de comunicação, interagimos com muita frequência, avaliando mutuamente ideias, conversando e debatendo vários assuntos. Sucede-se uma colaboração cerebral e emocional nesse sentido – um verdadeiro diálogo entre artistas. Temos também passado tempo na estrada em digressões conjuntas. E também, é claro, que envolve alguma transacção de ideias o facto de eu lançar alguns discos pela sua label Hospital Productions. Não se tem verificado uma grande quantidade de colaborações propriamente ditas, em termos de música / som, mas planeamos continuamente tudo no sentido de que isso aconteça. Quando chegar a altura certa, assim será. Não existe especial pressa nisso. Era suposto haver um split de 10 polegadas com as participações de Prurient e Burning Star Core, mas isso foi adiado por uma tal label que o mantém nesse limbo indeterminado há vários anos, e quem sabe se assim o manterá até à eternidade. Essa situação é um bocado tramada.

Chego a pensar se os efeitos que impões ao som do violino não te servem como um modo de “danificar” e manter uma certa distância da perfeição que podes estar destinado a alcançar com a imensa familiaridade que tens com o instrumento.

É engraçado perguntares isso porque durante um dado período dos últimos anos resisti a colocar efeitos no violino. Talvez apenas um pouco de delay e reverb. Em certa altura, tudo o que fazia com o violino era trabalhá-lo na sua forma amplificada e acústica, ao tentar danificar-lhe o som desenvolvendo a minha própria abordagem acústica em relação ao instrumento. Ultimamente, voltei a recuperar a disposição para voltar a aplicar alguns efeitos ao violino, e observar para onde se dirige a partir daí, mas ainda resisto a isso por uma qualquer razão. Talvez não receie essa perfeição que mencionas, porque sei que, no fundo, não tenciono alcançar a definição de “perfeição” que a História adoptou em relação ao instrumento. Ou talvez não esteja minimamente preocupado em alcançar a minha definição pessoal de “perfeição em permanente evolução”, porque é altamente pessoal essa missão de realização. Ou seja, seria realmente fácil filtrá-lo através de um monte de efeitos e isso podia resultar em algo fantástico, tal como em algo completamente mundano e vulgar. O mesmo se aplica a uma guitarra. É provável que alcance um ponto em que me sinta satisfeito ao processar o violino intensamente. Enquanto artista a solo, à parte de Burning Star Core e num registo de improvisador sob nome próprio, tento manter-me alheio a efeitos, mas isso é outra história.

Como têm evoluído as coisas em Cincinnati? É uma cidade em que consigas encontrar muitos lugares para tocar?

Sim e não. Existem pessoas e as oportunidades, mas, por vezes, esses dois termos não se alinham. Infelizmente, sinto-me exausto em relação ao debate deste tópico ultimamente, mas a culpa é só minha. Onde quer que vás, levas-te a ti mesmo, como impõe o cliché. Tenho a certeza de que cada um tem um mini-discurso e crítica que pode tecer em relação aos lugares e cidades que os rodeiam, e assim se sucede em toda a parte. Não estou a tentar parecer um derrotista ou algo parecido, visto que existem boas pessoas empenhadas em criar estas situações e uma “cena”, o que é totalmente admirável. Eu fui essa pessoa durante um tempo e agora admito que estou um bocado “queimado” com isso – coloquei esse empenho de parte para me concentrar noutras actividades. Tenho de perseguir essas actividades no presente, mas pode ser que no futuro volte a reactivar esse meu empenho por Cincinnati de uma melhor maneira.

Li aquela tua apaixonada resenha dedicada ao Gut da harpista australiana Clare Cooper (artigo a conhecer AQUI). Esse disco continuou a revelar aspectos interessantes à medida que o revisitaste? Sabes o que tem feito ela ultimamente?

O álbum cativou-me muito numa altura em que tinha às voltas na cabeça uma série de interrogações referentes à improvisação, apresentação e todos esses aspectos. A mais avassaladora escuta terá sido a primeira, nessa precisa altura da minha vida, e depois outros detalhes emergiram, quando, subsequentemente, lhe coloquei questões acerca do disco – o que teria inserido no mesmo, o processo e outras perspectivas. É claro que essa “investigação de bastidores” reforça as tuas suspeitas de um modo positivo, mas existe também alguma realidade e mundaneidade na história. Sei que a Clare se mudou para Berlim e tem trabalhado e tocado por lá, tanto quanto sei. Desencontramo-nos constantemente em várias cidades, mas não posso dizer que as minhas viagens tenham sido tão intensivas e compreensivas quanto eu desejasse. Acabei de lhe enviar um desenho para um trabalho que ela está a desenvolver com o seu projecto GERM.

Podes-me falar um pouco acerca dos pedais e unidades de efeitos que usaste nesta última digressão europeia? Ficaste surpreendido com algum resultado ou combinação, ou sentes que dominas em grande parte o que cada um desses pode revelar?

Bem… Creio que essa cadeia de efeitos que monto nas prestações ao vivo, em que efectuo a gestão imediata de vários elementos electrónicos, me conduzem a uma quantidade de sarilhos que ultrapassa o meu controle. É basicamente uma serpente linear de efeitos com o microfone no lugar da cabeça e um sintetizador – construído pela minha amiga Jessica Rylan – no lugar da cauda. Gosto de explorar “electrónicas orgânicas”, seja o que isso for. Perseguir uma certa sensação de interacção com as máquinas, à medida que actuo. Um pouco como semear uma tempestade que depois tento direccionar ou controlar de maneira orgânica. É como lidar com uma gata altamente afectada pelo cio e colocares a ti mesmo a questão: o que aconteceria se eu enfiasse o mindinho no rabo da gata na próxima vez em que saltar para a minha frente e levantar o rabiosque? Todas aquelas caixas constituem enormes dificuldades em termos de logística e manipulação, e, no fim, acabam por soar como um aspirador gigantesco. Imagina que são três da manhã e que persegues e tentas lutar com um aspirador possesso a correr às voltas no teu apartamento, enquanto os vizinhos de baixo tentam adormecer.

Para terminar, fala-me um pouco da performance na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, ocorrida nessa mesma digressão.

A performance na ZDB decorreu num molde que tinha reservado para qualquer altura em que tivesse de me manifestar como Burning Star Core a solo em 2007. É o mais longo set de Burning Star Core, e ainda parece ter margem de progresso, pelo que me será útil em futuras oportunidades. Foi esse o registo que levei em digressão pelos Estados Unidos com o Carlos Giffoni e Prurient no início deste ano e também foi esse o executado no Festival Sònar de Barcelona. Existe uma estrutura definitiva e, dentro dessa, surgem uma série de marcos a atingir, margem para o improviso e indeterminação no que respeita a duração - dependendo essa da forma como cada segmento esteja a resultar. Acho que na ZDB obtive a melhor execução que alguma vez alcancei com aquele set. Tudo estava bem alinhado e eu tinha um bom pressentimento. Muita pressão também, por motivo de se encontrar gente entre o público para a qual eu sentia que devia tocar muito bem. Tinha de estar à altura das excelentes espetadas de tamboril que o Manuel (Poças) da ZDB me comprou para jantar. No Sònar fui quase envenenado. O peixe-espada que me serviram no restaurante para artistas actuantes estava cheio de lixívia que nunca chegou a ser propriamente lavada.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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