ENTREVISTAS
Supercordas
Rio de Janeiro psicadélico
· 09 Set 2007 · 08:00 ·
Apesar de terem nascido recentemente, os Supercordas têm raízes seguras e apreciáveis nos anos 60. É a essa década que foram buscar maioritariamente inspiração para pintar o Rio de Janeiro de tons psicadélicos. Seres Verdes ao Redor, editado em 2006 pela Trombador, é então um disco de canções pop verdes e psicadélicas, orelhudas mas exploradoras; graças ao seu conteúdo, o último disco dos Supercordas catapultou a banda para outro patamar no cenário musical brasileiro - e chegaram inclusive à MTV. Eles são, facilmente, uma das bandas mais distintas que sairam do Brasil nos últimos anos. Como eles próprios dizem, Seres Verdes ao Redor é música para "Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos". Em entrevista, Pedro Bonifrate fala da experiência quase mágica do nascimento e sobrevivência dos Supercordas e do Rio de Janeiro; retratos de um brasil psicadélico - ou ruradélico.
Afirmam terem sido congelados nos anos 60, na primeira experiência criogénica da história e que depois saíram das cápsulas no final do século XX e retomaram o espírito psicadélico da época em que haviam adormecido. Como é que nasceu então a banda?

Estava mesmo há um tempo esperando a oportunidade de desmentir essa história. Nós inventamos isso pra camuflar nossa verdadeira origem. Na verdade nós somos pesquisadores de música popular antiga e viemos do século XXV para entender melhor o que se passou nesta admirável cena musical do início do século XXI e aproveitamos pra participar um pouquinho de tudo isso também. Mas falando “sério”: quase todos nos conhecemos puxando papo uns com os outros por causa de camisetas do Spiritualized – banda inglesa de que somos todos grandes fãs. Daí resolvemos juntar nossas realidades musicais tão diferentes neste colectivo supercordiano, e assim tem sido nos últimos 3 anos.

Quais acreditam ser as bandas que mais influenciaram os Supercordas no seu desenvolvimento?

Por mais que pareça fácil, acho essa uma pergunta difícil de se responder. Sobretudo porque nós quatro viemos de escolas musicais bastante distintas. Eu sempre fui uma criança beatlemaníaca-fundamentalista até expandir meu mundo musical para o que se tem feito contemporaneamente dentro desta mesma linha evolutiva. Minhas canções são escritas basicamente sob a influência desta grande tradição. Nosso guitarrista-sintético Giraknob tem raízes no rock’n’roll, mas se interessa muito mais por música experimental hoje em dia, e suas adições à nossa obra têm se limitado a essa percepção. Mas mesmo ele já está escrevendo canções pro próximo disco. Wakaplot vem de uma área um tanto mais punk e grunge “guitarrada”, mas tem em comum connosco o amor pelo rock sessentista e a música brasileira dos 60’s e 70’s. Valentino tem mais afinidades comigo mesmo, até por nos conhecermos há mais tempo. Hoje em dia posso dizer que ouvimos de tudo, e tudo nos influencia. Alguns nomes são bastante óbvios – os Beach Boys, Clube da Esquina, todos da Tropicália, Novos Baianos, bandas contemporâneas como o Olivia Tremor Control, o Neutral Milk Hotel, os Super Furry Animals, os Flaming Lips, o Gorky’s Zygotic Mynci. Pelo resultado final dos nossos esforços, acho que esses são nomes bastante comparáveis em termos de tradição musical. Artistas menos óbvios que ouvimos bastante devem entrar também neste caldeirão de alguma forma, um pouco mais distorcida e difícil de ser identificada.

Em 2003, lançaram o vosso primeiro álbum, A pior das Alergias na Midsummer Madness. Dois anos depois, sacaram que a onda era espalhar seus tentáculos pela Internet e lançaram, virtualmente, o EP Satélites no Bar. A Internet tem sido amiga dos Supercordas?

Mais do que uma amiga, eu diria. Uma amante calorosa, talvez. Acho que pra qualquer artista musical dos dias de hoje, a internet é o grande mar. É praticamente impossível chegar a algum lugar sem ela. Somos todos entusiastas de toda essa anarquia (no bom sentido, o mais original) que a internet gera. Acho muito valiosa a ideia de que, em breve, não precisaremos mais de alguém pra escolher o que o povo deve ouvir ou não. Tudo está disponível para quem quiser. Sobre toda essa conversa de direitos autorais versus pirataria, acho que a maioria dos artistas já ganhava pouco demais pela venda de discos, as gravadoras andavam abocanhando todo o dinheiro. Então quando leio algo sobre a internet estar empobrecendo os artistas ou coisa assim, não levo a sério. Quando dizem isso, estão falando de uma minoria de artistas privilegiados por todo o sistema industrial-musical que se encontra em estado de franca decadência. Eles que se reinventem, ou comerão poeira (como dizemos aqui).


Quando sentiram que se começava a falar mais dos Supercordas?

Provavelmente agora. Tudo fica mais abrangente quando você lança um disco propriamente bom. Acho que, além de termos uma empresária com olhos muito perspicazes, o fato de o nosso novo disco ter uma qualidade rara na cena independente brasileira de hoje em dia chamou muita atenção para nós. Nos próximos meses apareceremos na televisão algumas vezes. Ainda não temos muita ideia do que isso pode trazer. Não sei se vão nos reconhecer na rua, mas imagino que comece a se falar ainda mais em Supercordas. E vamos achar óptimo.

Este novo disco, Seres Verdes ao Redor, foi gravado nos estúdios da Trama. Como foram esses dias de gravação e o processo anterior de escrita de canções?

Apenas uns 20% do material do disco foi gravado na Trama. Todas as baterias e algumas vozes e violões. O resto foi feito em casa no computador e produzido por nós mesmos. Não temos uma situação financeira muito favorável. Tivemos que contornar a nossa falta de recursos tecnológicos com bastante criatividade, e somos razoavelmente bons nisso pela longa experiência com microfones baratos e gravadores de fita. Ainda assim, os três dias de gravação na Trama foram uma bênção. É maravilhoso poder produzir em condições assim tão luxuosas. Tínhamos o que queríamos lá. Os caras que trabalharam connosco eram óptimos. Extremamente competentes. O processo de gravação caseira também foi bastante prazeroso. Adoramos gravar um disco e pensar sobre ele enquanto está sendo feito. É a nossa parte favorita do nosso trabalho. A escrita das canções também me agrada muito. Seres Verdes tem tanto canções que eu escrevi há 10 anos atrás quanto canções feitas em cima da hora. A ideia do disco chega a ser mais antiga que a própria banda. E tudo isso foi compilado com base neste conceito fechado que o disco apresenta.

Estão satisfeitos com Seres Verdes ao Redor? Como tem reagido o público e a imprensa ao vosso novo disco?

A reacção tem sido a melhor possível. Temos muitas críticas positivas. É raro lermos algo sobre o disco que foge completamente à ideia que temos dele. Parece que todos estão entendendo do que se trata e tudo mais. Por isso estamos muito satisfeitos, mas é claro que é nossa função de artistas não estarmos completamente satisfeitos, caso contrário começaríamos logo a nos repetir no próximo trabalho e isso cansaria às pessoas e a nós mesmos. O fato de o conceito do disco ser tão expostamente fechado e específico, por exemplo, é algo que não pretendemos repetir.

Tanto o nome do vosso último disco como as fotos que se podem observar no vosso myspace remetem a banda para um imaginário de florestas, de verde e de quase espiritual. É assim que concebem os Supercordas?

Não. É justamente sobre isso que eu falava na pergunta anterior. O imaginário que construímos com este disco é próprio dele mesmo, e não da banda como um todo. Eu e Valentino crescemos numa pequena cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, chamada Parati, então é natural que toda a nossa criação tenha referências à natureza e à vida rural – eram muito presentes na nossa existência. Mas não é por isso que seguiremos à risca essa conceituação “verde” da nossa música no futuro. Já temos muitas canções para o próximo disco, e já começamos a discuti-lo avidamente em mesas de bar aqui e acolá. Está muito mais esquizofrénico. Será um conjunto de canções que falam sobre tudo e qualquer coisa.

Conhecem o disco Paebiru de Lula cortes e Zé ramalho. Se sim, o que é que acham? É de alguma forma uma possível influência parta os Supercordas?

Que pergunta óptima! Conhecemos o disco sim, e adoramos! É uma das coisas mais intangíveis e ao mesmo tempo mais ricas da nossa música. Conheço por MP3. É muito difícil de ser encontrado aqui em vinil. Já ouvi falar que houve uma edição alemã. É fácil de se achar aí em Portugal? Certamente é uma influência das maiores. Vai muito além do mero sincretismo entre o rock psicadélico e os ritmos regionais do nordeste brasileiro. Está tudo ali. Bach, Pink Floyd, bandas de pífaros, kraut rock alemão, até ecos de um trovadorismo europeu que veio pra cá há séculos.

Como é viver no Rio de Janeiro?

É uma convivência de amor e ódio com a cidade. Eu, particularmente, não gosto nem um pouco de sentir calor e agora, por exemplo, estamos em pleno Outono e faz um calor de 35°C. As ruas estão cada vez mais fedorentas e violentas e as pessoas cada vez mais mal-educadas e rancorosas. Ainda assim existem muitas vantagens em se viver aqui. Dificilmente em outra parte do mundo existe um lugar como a Lapa, onde uma quantidade exorbitante de pessoas das mais diferentes estirpes sociais e artísticas se encontram todo fim-de-semana para ficarem bêbadas. Não é muito fácil também para uma banda de rock. Os lugares não pagam nada por shows e ainda agem como se estivessem te fazendo um favor por te deixarem tocar. Nos últimos anos temos tocado muito mais em São Paulo do que aqui, fato que temos tentado remediar de todas as maneiras. Vamos fazer um show aqui nas próximas semanas e estamos muito contentes por isso.

Por aquilo que tenho conhecido da música brasileira independente, parece-me que é de certa forma difícil publicar um disco no país. Concordam?

Concordamos, mas parece que isso tem melhorado nos últimos anos.


Foram apontados pela revista Bizz como um dos “13 nomes que realmente importam no novo rock”, suponho que do Brasil. Como foi para vocês receber essa distinção. Quais eram as outras 12 bandas?

Pois é, o estranho é que os 13 nomes não eram só do Brasil. Eram de diversas partes do mundo. Daqui, acho que só nós, o Moptop e os Superguidis. Tinha Los Alamos da Argentina, que eu curto bastante. Bandas que estão por aí como Clap your hands say yeah, Wolf Mother e Guillemots também estavam na lista. Não tenho ideia de qual foi o critério da revista ao escolher esses nomes, mas ficamos muito felizes de estarmos ali. Foi a primeira vez que aparecemos na grande imprensa, e já com tanta pompa. O Cláudio, que escreveu o texto sobre nós, se tornou nosso grande amigo e teórico musical.

Existem outras bandas com um som similar ao vosso no Brasil?

Temos afinidades intensas com a música de algumas bandas do momento. Coincidência ou não, muitas delas são de grandes amigos nossos. Os Telepatas, de São Paulo, são incríveis. Ouvimos outro dia uma prévia do disco que eles estão gravando (o primeiro álbum propriamente) e ficamos muito entusiasmados. Está soando bem demais. A Filme, daqui do Rio, também é uma grande banda. As apresentações deles são impecáveis e eles reúnem sete grandes personagens dos quais quatro são compositores maravilhosos. Conhecemos há pouquíssimo tempo as músicas do MoMo, também daqui, e achamos um barato – talvez o único artista bucólico (como nós mesmos) da nossa cidade. Lulina e os Causadores, de São Paulo, já tocaram connosco e tem muito a ver. Até nos empolgamos decorando o palco de forma parecida na tal circunstância. A lista poderia se estender. SOL, Cidadão Instigado, Blue Afternoon, Bazar Pamplona, por aí vai. Todos têm páginas no MySpace e são nossos amigos por lá, então fica fácil pra vocês encontrarem e conferirem.

Que tipo de música portuguesa chega ao Brasil? Conhecem algumas bandas portuguesas?

Temos um intercâmbio cultural que, a meu ver, ainda está muito longe do ideal. Falamos a mesma belíssima língua, temos toda a nossa história em comum, deveríamos todos estar por dentro do que anda acontecendo por aí e, infelizmente, acho que não estamos. Coincidentemente abri o jornal ainda há pouco e fiquei sabendo de um concerto da Teresa Salgueiro aqui nesta semana. É meio caro, então acho que não vou poder assistir. Apesar de tais dificuldades, a internet e as iniciativas independentes têm tornado possível o contato com a música contemporânea do além-mar. Já ouvi coisas interessantes como The Gift e Três Tristes Tigres, e estou armando uma colaboração vocal com o Projecto Fuga, que reúne diversos artistas de países lusófonos. A Fernanda Takai do Pato Fu, que vai cantar algumas canções connosco num concerto em São Paulo, gravou uma canção pra este projecto que eu já ouvi e achei muito linda. Acho óptimo poder participar de um colectivo lusófono assim, porque sou um baita entusiasta da nossa língua.

Existem planos para alguma digressão pela Europa nos próximos tempos?

Quem dera... Gostaríamos muito, mas ainda não temos um plano ou uma proposta. Passagens daqui pra Europa são bem caras, então a iniciativa se torna meio difícil. Ainda assim, nossa empresária tem contactos por aí e assim que alguma coisa surgir, atravessaremos o Atlântico absurdamente felizes.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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