ENTREVISTAS
Sara Serpa
A voz como instrumento
· 14 Mai 2007 · 08:00 ·
O jazz vocal feminino em Portugal está bem e recomenda-se. Os exemplos são cada vez mais. Nem que estejam fora do país momentaneamente. Sara Serpa e a música são companheiros de longa data. Considera-se como sendo uma vocalista jazz, uma improvisadora e compositora. O seu jazz está entre a tradição e a contemporaneidade. A estudar e a viver em Boston, nos Estados Unidos, Sara Serpa, ainda sem disco editado, trabalhou com uma série de músicos (a lista é demasiado extensa para se mencionar apenas alguns nomes), e recebeu imensos elogios de alguns nomes do jazz. Tudo isto e mais alguma coisa (como os temas que se podem escutar no seu myspace) são motivos suficientes para se crer que ainda se vai ouvir falar bastante de Sara Serpa. Depois de ter estado neste mês de Maio em Portugal para actuar na Festa do Jazz no Teatro S. Luiz, Sara Serpa regressará a Lisboa em Julho (19, 20 e 21) para concertos no Hot Clube de Portugal.
Começaste os teus estudos musicais bem cedo quando tinhas apenas 7 anos. O que é que recordas de aprender nesses dias?

O que recordo da minha aprendizagem musical são imagens um pouco vagas de aulas em que cantávamos e nos divertíamos com a música, na Academia dos Amadores de Música. Posteriormente, entrei com 11 anos no Conservatório e quando isso aconteceu sentia-me minúscula, era uma das miúdas mais novas naquela altura e toda a gente me parecia muito adulta. Tinha sempre algum medo das aulas de piano, mas a aulas de coro e formação musical eram uma fonte de lazer para mim. A música permitia a criação de mundos diferentes na minha vida, e apesar de ser criança, e de não ter muita consciência disso, estou muito grata aos meus pais por me terem proporcionado essa aprendizagem.

Em Maio de 2005, ganhaste a Berklee College of Music Schorlaship e mudaste-te para Boston onde vives actualmente. Presumo que tenha sido um momento importante na tua carreira. Como é que as coisas evoluíram desde 2005 até aos dias de hoje?

Estar no Estados Unidos é um privilégio porque o acesso a informação e músicos é mais fácil. Aqui trabalha-se imenso e desde que cheguei aqui tenho uma rotina super organizada do meu estudo. Tenho conhecido imensos músicos diferentes, de todos os sítios do mundo, tenho assistido a diversos concertos, tenho acesso a masterclasses de músicos que eu admiro. Há muito de tudo e com qualidade. Ja tive os meus concertos como líder em Boston e em Nova Iorque e tenho participado em diversos projectos diferentes; comecei a cantar com diferentes orquestras de jazz, tive oportunidade de conhecer o Greg Osby, Dave Holland, John Hollenbeck, Theo Bleckmann para além de todos os fantásticos professores que tenho, que são músicos incríveis. Mudei de escola e entrei num programa de Mestrado, que inicialmente não tinha sido planeado.

Como está a correr o Master em Jazz performance?

O Master corre muito bem! Adoro o New England Conservatory - tenho professores muito bons, tenho tido oportunidade de cantar em vários contextos diferentes. Tenho professores que me transmitem informação valiosa sobre várias correntes do jazz. O Conservatório permite a cada um estruturar o seu percurso académico, ou seja, eu escolho as aulas que quero ter e o que quero fazer nas minhas aulas privadas. É uma escola muito interessante porque não existe um sistema definido para cada aula e também porque o mundo do jazz, clássico e Improvisação Contemporânea coabitam no mesmo espaço físico.

E como é viver em Boston?

Boston e uma cidade de estudantes. Há gente de todo o mundo, mas é uma cidade muito tranquila. Há imensos espaços verdes. Não existem muitos locais de música ao vivo e não há muitos clubes de jazz (o que é uma pena porque há imensos músicos e estudantes de música). É uma boa cidade para estudar porque não existem muitas fontes de distracção.


De que forma sentes o jazz nos Estados Unidos? Tem sido inspirador para ti?

Tem sido o mais inspirador possível. O jazz nasceu nos Estados Unidos tal como a tradição do ensino do jazz. No que toca ao ensino, a informação está super organizada e sistematizada. Há muita variedade musical e há oportunidade para os músicos estrangeiros apresentarem os seus projectos. Obviamente que há também mais competição e muito mais músicos que em Portugal, mas isso não é necessariamente mau - aprende-se com todas as pessoas que se encontra e quando temos que lutar para sermos ouvidos, damos mais valor a tudo o que conseguimos.

Como geres a tua inspiração do jazz tradicional e do jazz contemporâneo? Alguma vez te sentes “perdida” no meio de ambos?

Tenho sempre muitas dúvidas em relação ao meu trabalho mas acho que é sempre positivo questionar-me a mim própria e ao que faço; se por um lado quero fazer a minha música e sinto que como músico do século XXI devo criar coisas novas, ao mesmo tempo sinto que a música de hoje cresce com o conhecimento do passado. O meu estudo foca-se no jazz tradicional, nos standards, na improvisação e composição. Questiono-me em como poderei integrar a tradição no meu trabalho original e se deverei cantar o que as pessoas esperam ouvir de uma vocalista ou se devo arriscar e apresentar mais a minha música. Acho que vai ser uma dúvida permanente e há que encontrar um equilíbrio.

Muitas das vezes utilizas a tua voz em temas originais mas não existem letras. Como se dá essa escolha?

Quando entrei no Hot Clube fiquei curiosa de saber como improvisavam os instrumentos. Aos poucos foi-se criando a vontade em usar a minha voz como um instrumento, porque gosto de ouvir a voz humana como som, sem letra e porque é um desafio enorme conseguir fazer o que os instrumentos fazem. Há sempre também uma tendência (que tem vindo a diminuir) em não considerar as vocalistas como músicos, o que sempre me incomodou um pouco. A minha resposta a isso foi e é aprender o que os instrumentistas aprendem; compor, improvisar, transcrever solos, tocar piano, ler música.

Quanto da tua interpretação é resultado de improvisação? Que papel dás à improvisação nos teus temas?

Os meus temas têm sempre secções de improvisação. Tenho muitas coisas escritas, planeadas, mas obviamente que tudo depende sempre dos músicos com quem toco; cada um interpreta à sua maneira e quero que haja liberdade e flexibilidade. Se alguém faz uma sugestão, normalmente experimentamos e decidimos em conjunto o que fica melhor. A improvisação é obviamente importante e na minha opinião é o culminar das ideias que há num tema. Quanto mais confiança têm os músicos que tocam no grupo uns com os outros e com a própria musica, mais espaço há para improvisação.

Nos últimos tempos estiveste em palco com diferentes músicos como Nelson Cascais, André Sousa Machado, Demian Cabaud, Jesse Chandler, Ferenc Nemeth, Nick Falk, Esperanza Spalding, Peter Slavov, Eric McPherson, Leo Genovese, Vardan Ovsepian, Greg Hopkins Jazz Orchestra. Que recordas dessas experiências?

A primeira vez estava sempre nervosa! Depois habituamo-nos; sem dúvida, que vou ganhando “calo” com todas as pessoas diferentes com quem tenho cantado.


Tens recebido imensos elogios pela tua voz vindos de músicos conhecidos. O que é que nos podes contar acerca disso? Que te dizem os teus actuais professores?

Os meus professores são encorajadores e sem dúvida uma fonte de inspiração para mim. Há muitas mensagens, muitas ideias que são discutidas entre mim, professores, colegas, amigos músicos. A principal mensagem é que cada um deve procurar o seu caminho e fazer a música que sente e gosta; temos que ser honestos connosco próprios e perceber o que poderemos trazer de novo ao imenso universo musical que já existe. Há também que ouvir muita música e estudar/praticar sempre.

Acompanhas o jazz feito em Portugal? Que te oferece dizer acerca disso? Aprecias o trabalho da Jacinta ou da Joana Machado por exemplo?

Acompanho o jazz feito em Portugal e tenho muito orgulho nos músicos portugueses. A cena jazzística em Portugal está a crescer e é reconhecida internacionalmente, o que é óptimo, porque a variedade e diversidade permitem a criação de ambientes musicais, locais de aprendizagem e de partilha de informação. Gosto muito do trabalho da Joana Machado e fico feliz que tenha sucesso com a sua música.

Depois disto tudo imagina-se que um disco de estreia seja um próximo passo a tomar. Existem planos nesse sentido da tua parte? Já tiveste alguma oferta?

Existem planos sim, mas quero fazer tudo com calma, quero que os meus temas amadureçam e quero fazer algo em que eu possa controlar a produção. Hoje em dia há muitos músicos que fazem eles próprios os discos, ou seja são eles que pagam o estúdio, músicos, cópias e distribuição. Essa hipótese requer possibilidades financeiras, mas tem vantagens para o músicos no que toca a controlarem os ganhos, distribuição e liberdade musical. Dá muito trabalho também, mas é uma hipótese. Seja como for irá acontecer em breve.

Em Maio e em Julho regressas a Portugal para concertos na festa do jazz do Teatro S. Luiz e no Hot Clube de Portugal. Que esperas dessas actuações? Como achas que será regressar ao país para actuar?

Vai ser óptimo, estou cheia de saudades. Estou muito feliz por ir cantar à Festa do Jazz, porque vou ter oportunidade de apresentar a minha música com músicos que eu admiro. O Hot Clube vai ser óptimo também, porque vou tocar com excelentes músicos portugueses que são também meus amigos - só podem vir coisas boas dessa combinação!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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